Arquivos de Categoria: Liderança

Não batemos a meta! De quem é a culpa?

Antes de tudo: se você não é da área de negócios, eu quero reforçar que esse texto é, sim, para você.

Porque resultado comercial não é responsabilidade apenas de quem vende.

Vendas podem estar na linha de frente, mas a meta é construída por toda a empresa. Ela depende da qualidade do produto, da eficiência da operação, da inteligência do marketing, da coerência dos incentivos, da experiência entregue ao cliente, das decisões da liderança e, é claro, da capacidade das pessoas de aprender e fazer diferente. Vamos lá?

PS: tá longo, mas tá incrível!

Apesar dos esforços e da pressão, não batemos a meta.

Quem já passou por isso sabe o quanto esse momento é desafiador. A área comercial convive com o resultado exposto, atualizado quase em tempo real e, muitas vezes, acompanhado por uma contagem regressiva que transforma cada dia, cada reunião e cada oportunidade perdida em motivo de tensão.

O vendedor se frustra, o líder comercial se frustra, mas, antes de tudo, essa frustração deveria ser da empresa.

Não porque todos devam sair culpados ou pressionados, mas porque uma meta não batida revela que o sistema, como um todo, não foi capaz de produzir o resultado esperado.

É mais fácil dizer que o time não teve atitude, que faltou comprometimento, que o mercado esfriou ou que o cliente só quer preço. Difícil é reconhecer que o resultado também pode ter sido impactado por um produto pouco competitivo, uma estratégia mal comunicada, processos lentos, dados insuficientes, uma política comercial incoerente, prioridades conflitantes ou uma liderança que acompanhou o número, mas não desenvolveu as pessoas.

Por isso, antes que comece a caça aos culpados, vale reforçar: este texto não é sobre culpa (até porque, como diz a velha piada, se a culpa é minha, eu coloco em quem eu quiser).Este texto é sobre papéis e responsabilidades.

Porque, quando a meta não é alcançada, cada área costuma apresentar uma explicação bastante convincente.

  • Vendas diz que o preço está alto.
  • Marketing questiona o aproveitamento dos leads.
  • Operações afirma que entregou o que foi combinado.
  • RH lembra que os treinamentos estão disponíveis.
  • A liderança conclui que falta mais atitude ao time.

No final, todo mundo tem uma justificativa e ninguém tem um plano.

E esse talvez seja um dos maiores riscos de uma meta não batida: transformar a análise do resultado em uma disputa para descobrir quem errou, em vez de usar o resultado como fonte de aprendizagem para entender o que precisa ser feito de um jeito melhor ou diferente

Conteúdo do artigo
Imagem colorida pelo chatgpt, mas desenhada pela Ale Matteo

Como eu costumo dizer: a tendência não é melhorar… a vida não fica mais fácil, é a gente que tem que ficar mais forte.

A meta sobe. O mercado fica mais competitivo. O cliente se torna mais informado, mais impaciente e mais exigente. A concorrência se prepara. A tecnologia amplia a velocidade, a escala e o acesso à informação.

Diante desse cenário, é preciso entender que ficar “mais forte” é acompanhar o movimento e crescer junto.

E crescer, nesse caso, não significa apenas trabalhar mais, mas sim aprender mais rápido.

E aqui existe uma diferença importante: aprendizagem não é sinônimo de treinamento.

Treinamento é uma das formas de aprender. Aprendizagem é a capacidade de observar o que está acontecendo, interpretar os sinais, rever premissas, desenvolver novas competências e transformar esse conhecimento em uma maneira diferente de agir.

Uma “empresa” aprende quando:

  • o marketing entende por que determinadas campanhas atraem muitos leads, mas poucos clientes com potencial;
  • a área de produtos escuta as objeções recorrentes e reconhece que aquilo que parecia apenas dificuldade de argumentação pode ser uma fragilidade da oferta.
  • o time de operações percebe que o prazo prometido pela área comercial não é apenas um problema de alinhamento, mas um fator que compromete a confiança do cliente.
  • o RH deixa de receber pedidos de treinamento como uma lista de temas e começa a investigar quais resultados precisam ser impactados e quais comportamentos podem produzir esse impacto.

E aprende, principalmente, quando a liderança troca a pergunta “quem não entregou?” por “o que este resultado está tentando nos ensinar?”.

Empresas que tratam o resultado apenas como instrumento de cobrança tendem a repetir os mesmos erros com mais pressão. Empresas que tratam o resultado como fonte de aprendizagem criam capacidade para responder melhor ao próximo desafio.

O indicador não explica, o indicador aponta. O problema é que o indicador final mostra onde chegamos, mas não explica como chegamos até ali e é exatamente nesse ponto que a liderança comercial precisa assumir seu papel.

Imagine, por exemplo, que uma empresa não tenha alcançado sua meta de margem. A conclusão mais rápida pode ser: o time está dando desconto demais.

Pode até ser verdade, mas por que o time está dando desconto? Por que não sabe construir valor? Por que conhece as características do produto, mas não consegue conectá-las aos desafios do cliente? Por que entra tarde no processo de compra e precisa disputar apenas preço? Por que a concorrência possui uma oferta mais competitiva? Por que o modelo de remuneração premia volume, enquanto o discurso da empresa cobra rentabilidade? Por que a política comercial permite descontos sem critérios claros? Por que o próprio líder, quando participa da negociação, oferece desconto para acelerar o fechamento?

Perceba que um mesmo indicador pode esconder problemas de competência, estratégia, processo, produto, incentivo, ferramenta ou liderança. E cada causa exige uma resposta diferente.

  • Se o time não sabe construir valor, existe uma questão de aprendizagem.
  • Se a remuneração incentiva volume, existe uma questão de gestão.
  • Se o produto não entrega o que o mercado valoriza, existe uma questão de oferta.
  • Se os dados não permitem compreender o histórico do cliente, existe uma questão de infraestrutura.
  • Se a liderança cobra uma coisa e reconhece outra, existe uma questão de coerência.

Por isso, nem tudo se resolve com treinamento.

E talvez essa seja uma das frases que mais profissionais de T&D precisem repetir, especialmente quando são chamados para resolver problemas que a empresa não está disposta a enfrentar.

  • Treinar uma equipe para vender valor enquanto a remuneração premia apenas volume é incoerente.
  • Ensinar planejamento quando a agenda do vendedor é tomada por tarefas administrativas e reuniões internas é desperdício.
  • Cobrar personalização quando o CRM não possui informações confiáveis é criar expectativa sem oferecer condição.
  • Desenvolver colaboração em um ambiente que expõe rankings individuais e estimula competição interna é pedir que as pessoas façam, em sala, o contrário do que a cultura recompensa fora dela.

Aprendizagem pode transformar resultados, as ela não pode ser usada como maquiagem para problemas de gestão.

Então, como agir quando a meta não é alcançada?

Antes de encomendar um treinamento, aumentar a pressão ou mudar toda a estratégia, a liderança precisa seguir alguns movimentos.

1. Destrinche o indicador

Saia do número geral. Por exemplo: a meta de faturamento não foi alcançada, mas o problema está onde? No volume de clientes ativos? Na frequência de compra? No ticket médio? Na conversão? No mix? Na margem? No ciclo de vendas? Na quantidade de oportunidades? Na qualidade do pipeline?

Analise o resultado por produto, canal, região, segmento, cliente, vendedor, etapa do processo e período.

Dizer que o time precisa vender mais não oferece direção. É preciso um alvo, mas também é preciso um plano.

  • Vender mais o quê?
  • Para quem?
  • Com qual margem?
  • Em qual canal?
  • Em que etapa as oportunidades estão sendo perdidas?
  • Quais clientes reduziram a compra?
  • Quais produtos estratégicos não estão entrando no pedido?
  • Quando o resultado começou a se distanciar do planejado?

A primeira responsabilidade da liderança não é encontrar um culpado. É identificar o real problema e, a partir dele e de sua experiência (combinando dados com as manhas) levantar hipóteses.

2. Levante hipóteses

Uma hipótese não é uma desculpa nem uma conclusão; é uma possibilidade que merece investigação (até rimou!)

  • Talvez o time não esteja se preparando adequadamente.
  • Talvez os leads estejam chegando sem qualificação.
  • Talvez o portfólio esteja desalinhado às novas necessidades do mercado.
  • Talvez os clientes estejam reduzindo investimentos.
  • Talvez a proposta de valor não esteja clara.
  • Talvez o processo interno esteja dificultando a resposta ao cliente.
  • Talvez a liderança esteja acompanhando o resultado, mas não a execução.

Para testar essas hipóteses, é preciso conversar com o time, observar reuniões, ouvir clientes, analisar propostas, revisar perdas, acompanhar a rotina e confrontar percepções com dados.

Perguntar é mais poderoso do que inferir e proximidade faz toda diferença no rolê.E isso vale para qualquer área.

  • Quando um projeto atrasa, a resposta não pode ser simplesmente “faltou comprometimento”.
  • Quando o turnover aumenta, a explicação não pode ser apenas “as pessoas não querem mais trabalhar”.
  • Quando o NPS cai, não basta dizer que o atendimento precisa ser mais empático.
  • Quando uma campanha não performa, não adianta concluir que o público não entendeu a mensagem.

Antes de agir, é preciso compreender.

3. Transforme hipóteses em comportamentos observáveis

É aqui que muitas empresas se perdem: elas identificam um problema e descrevem a solução de forma genérica.

  • “O time precisa ter mais atitude.”
  • “Precisamos ser mais estratégicos.”
  • “As pessoas devem assumir mais protagonismo.”
  • “É necessário melhorar a comunicação.”

Não, isso não acontece só na Tailândia. É como da analgésico quando o corpo precisa de um antibiótico. Até porque, assim como o analgésico tira a dor, essas soluções podem fazer sentido, mas elas não orientam a ação. Elas servem como uma espécie de desculpa verdadeira.

Comportamentos precisam ser observáveis. Por exemplo:

  • Preparar uma pauta antes da reunião é comportamento.
  • Fazer perguntas sobre os impactos do problema é comportamento.
  • Registrar o próximo passo no CRM é comportamento.
  • Oferecer alternativas de mix é comportamento.
  • Validar prioridades antes de iniciar um projeto é comportamento.
  • Compartilhar informações relevantes com outra área é comportamento.
  • Dar feedback próximo ao acontecimento é comportamento.

A pergunta que a liderança precisa fazer é:

O que as pessoas precisam realizar de um jeito melhor ou diferente para influenciar esse resultado?

Sem essa resposta, qualquer iniciativa de aprendizagem corre o risco de ser interessante, bem avaliada e completamente desconectada do negócio.

4. Descubra o que impede a mudança

Mesmo quando o comportamento esperado está claro, ainda é preciso entender por que ele não acontece. Afinal, se fosse fácil era só falar e todos mudariam seu jeito de fazer, mas a gente sabe que não é assim que funciona.

  • A pessoa não sabe fazer?
  • Ela não reconhece por que deveria fazer?
  • Ela sabe, mas não consegue aplicar na rotina?
  • Ela não possui ferramentas, autonomia ou recursos?
  • Ela não é acompanhada?
  • Ela percebe que o comportamento esperado não é valorizado?
  • Ela tá “seguindo o mestre”? (ela repete o que a liderança faz por não compreender seu papel?)

E pra cada tipo de barreira é necessário um tipo de salto (sim, essa é versão “dê seus pulos” para a liderança):

  • Se a pessoa não sabe, é preciso ensinar.
  • Se ela não compreende a importância, é preciso gerar consciência e sentido.
  • Se ela sabe e reconhece a importância, mas não pratica, é preciso acompanhar, oferecer feedback, reconhecer avanços e corrigir desvios.
  • Se faltam recursos, processos ou condições, a organização precisa agir.

Essa distinção é decisiva porque evita dois erros muito comuns: treinar quem precisa ser gerenciado e cobrar quem precisa ser desenvolvido.

5. Defina papéis e responsabilidades

O resultado é coletivo, mas as responsabilidades são individuais. Isso vale pra pessoas, mas também para as áreas. O não atingimento de metas precisa gerar reflexão em toda empresa:

  • A área de negócios precisa clarificar a estratégia, os indicadores e os comportamentos críticos.
  • O RH e T&D podem apoiar o diagnóstico, estruturar jornadas de aprendizagem e escolher metodologias coerentes com o desafio.
  • A liderança direta precisa criar espaço para a aplicação, acompanhar a rotina, oferecer feedback e sustentar os novos comportamentos.
  • O time precisa participar, praticar e assumir responsabilidade pela própria evolução.
  • As áreas de suporte precisam eliminar barreiras que dificultam a execução.
  • A alta liderança precisa garantir coerência entre discurso, processos, incentivos e decisões.

Quando todo mundo é responsável por tudo, ninguém responde por nada. Quando cada um entende sua parte no rolê, planos são criados, ações realizadas e a mudança é vivenciada. O esforço em torno do resultado precisa ser coletivo (e a gente observa isso quando a empresa não premia apenas a área comercial, mas define métodos de reconhecimento que premiam toda a organização pelo resultado).

Responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade diluída. Significa que cada área precisa ter clareza sobre qual parte do problema lhe cabe enfrentar e qual parte da solução lhe cabe construir.

6. Acompanhe a implementação

Não basta dar direção e delegar, assim como também não adianta colocar todo mundo numa “cela de aula”, ops, sala de aula, apresentar um monte de conteúdo e depois liberar o povo para o mundo acreditando que todos “aprenderam a lição”.

Aprender não é colocar pra dentro. Aprender é colocar pra fora.

Aprender é conseguir fazer diferente na vida real, diante dos clientes reais, das metas reais e dos problemas que não vieram no slide.

Sabe quando o líder explica o plano em detalhes, apresenta uma estratégia robusta num PowerPoint cheio de gráficos, tendências, prioridades e setinhas e espera que, a partir dali, todo mundo saiba exatamente o que fazer na própria rotina?

Então.

Algumas pessoas irão compreender a estratégia, traduzi-la para sua realidade e construir seu próprio caminho de execução. Aliás, essa é uma demonstração clara de maturidade comercial.

Elas conseguem olhar para a direção apresentada, avaliar sua carteira, priorizar clientes, ajustar a abordagem, organizar a agenda e tomar decisões coerentes com o resultado esperado, mas nem todo mundo fará isso sozinho e mesmo os profissionais mais maduros precisarão de acompanhamento.

O desafio da liderança não termina quando o plano é comunicado. É nesse momento que ele começa.

Acompanhar a implementação significa monitorar os indicadores, mas também observar as ações que deveriam movimentá-los.

  • A quantidade de clientes ativos aumentou?
  • O mix melhorou?
  • A margem reagiu?
  • A conversão começou a subir?

Mas também:

  • O time está priorizando os clientes certos?
  • As abordagens estão mais personalizadas?
  • As pessoas estão fazendo as perguntas combinadas?
  • As propostas estão conectadas aos desafios dos clientes?
  • Os próximos passos estão sendo registrados e acompanhados?
  • Os rituais definidos estão acontecendo?

Não adianta esperar o fechamento do mês para descobrir que a estratégia não saiu do PowerPoint.

Indicadores são importantes, mas chegam atrasados. Quando o número aparece, o comportamento já aconteceu ou deixou de acontecer várias vezes, por isso, é preciso acompanhar o caminho, não apenas conferir o destino.

É como dar uma aula para seu filho sobre como andar de bicicleta, explicar o equilíbrio, mostrar como funcionam os pedais, falar sobre o freio e depois soltá-lo sozinho no parque com sua Caloi.

Você pode ter explicado tudo muito bem e ele pode até ter entendido, mas, quando ele sobe na bicicleta é que aparecem o medo, o desequilíbrio, a curva, a velocidade e o risco de cair e é ali que o apoio importa: no começo, você segura, depois, corre ao lado e em algum momento, solta sem avisar, mas continua por perto até que ele possa desbravar o mundo sozinho e ai outros desafios surgirão.

Evolução é um processo cíclico.

Com a implementação acontece a mesma coisa: a liderança precisa observar, orientar, oferecer feedback, corrigir a rota e reconhecer os avanços até que a nova maneira de fazer deixe de depender de esforço consciente e passe a fazer parte da rotina.

Acompanhar não é fazer pelo outro e não é microgerenciar cada movimento; é garantir que exista suporte suficiente para transformar direção em ação, ação em consistência e consistência em resultado.

  • O que está dando certo precisa ser reforçado.
  • O que não funciona precisa ser revisto.
  • Quem precisa de mais apoio deve recebê-lo.
  • Quem já consegue seguir sozinho pode ganhar mais autonomia.

Porque delegar sem acompanhar é abandonar o time no parque e torcer para ninguém cair.

A meta não pertence apenas à área comercial

A área de vendas pode ser a responsável por colocar a receita para dentro, mas ela não cria valor sozinha.

Ela depende de uma marca que gere confiança, de um produto que entregue o que promete, de uma operação capaz de cumprir o combinado, de dados que permitam boas decisões, de políticas que favoreçam a estratégia, de líderes que desenvolvam pessoas, de uma cultura que transforme erros e acertos em aprendizagem..

Por isso, quando a meta não é alcançada, a frustração não pode ficar restrita a quem aparece no relatório comercial: ela precisa provocar a empresa inteira.

É assim que ampliamos a consciência, organizamos responsabilidade e construímos e implementamos uma resposta coerente.

A meta sobe, o mercado muda, o cliente evolui, a concorrência aprende, a tecnologia acelera e a única maneira de acompanhar esse movimento é crescer junto.

O ponto principal de todo esse processo não é descobrir de quem é a culpa pelo não atingimento da meta, mas  sim aprender o que, a partir desse contexto, cada um de nós precisa fazer diferente a partir de agora.

Empresas que aprendem apenas quando erram pagam caro, mas empresas que erram e não aprendem pagam esse boleto várias vezes.

A mudança acontece quando  os resultados orientam o aprendizado.

Vendas movem o mundo, mas são as pessoas, aprendendo juntas, que movem as vendas.

Aquele abraço,

Carol Manciola

Esse texto foi inspirado no conteúdo do meu novo livro: Vendas Movem o Mundo já em pré venda na Amazon! https://a.co/d/0fTn8n9Q

Como treinar Equipes de Vendas para transformar Potencial em Impacto.

Há mais de duas décadas eu treino equipes de vendas. Nesse tempo, estive em salas com vendedores de indústrias farmacêuticas, de alimentos, bebidas, construção, instituições financeiras, varejo popular e de luxo, empresas de tecnologia, agronegócio e distribuição…são muitos segmentos nos quais temos mergulhado. Como executiva de Educação Corporativa, meus times já lideraram e executaram profissionais extremamente técnicos, outros profundamente relacionais, alguns resistentes à mudança e outros sedentos por aprender.

E existe algo que todos eles têm em comum: potencial.

O problema é que potencial não paga conta, não melhora NPS, não aumenta market share e não bate meta. Impacto, sim.

Foi convivendo com milhares de vendedores e líderes comerciais que comecei a me questionar por que tantas iniciativas de treinamento não se tornam prática no dia seguinte.

Talvez porque tenhamos nos especializado em ensinar e pouco em transformar.

“Sempre foi assim”

Durante anos, tratamos treinamento de vendas como uma espécie de “cela de aula”.Ver credenciais de conteúdo

Imagem criada pelo Chat GPT a partir das minhas ideias.

Pegamos profissionais inquietos, questionadores e extremamente práticos, colocamos todos dentro de uma sala, projetamos dezenas de slides e passamos horas despejando conteúdo na esperança de que, ao final, eles saiam diferentes.

Mas vendedores não aprendem porque ficaram oito horas sentados, e sim quando encontram sentido no que estão fazendo.

Também criamos aquilo que gosto de chamar de “A Fantástica Fábrica de Indicadores de Aprendizagem”. Medimos presença, reação, avaliações de conteúdo, satisfação, quantidade de horas treinadas e até a nota que as pessoas deram ao facilitador.

Conteúdo do artigo
Imagem criada pelo ChatGPT a partir das minhas ideias

Tudo é medido, mas quase nada é aprendido e, principalmente, quase nada é transformado em resultado.

Até as convenções de vendas, que poderiam ser um dos maiores fóruns de inteligência comercial das empresas, muitas vezes se transformam em longas agendas de apresentações, enquanto centenas de anos de experiência acumulada em clientes permanecem sentadas na plateia, sem conversar umas com as outras.

Treinar equipes de vendas exige um processo muito mais intencional.

Ao longo dos anos, organizei esse processo em cinco pilares e vou apresentar aqui a essência do que acredito fazer a diferença quando o assunto é treinar equipes de vendas.

1. Contextualização:

Apenas 35% dos colaboradores acreditam que os treinamentos oferecidos pelas empresas atendem diretamente às necessidades do seu trabalho, segundo a Gartner.

Talvez porque ainda tentemos desenhar programas olhando para organogramas, indicadores e descrições de cargo, em vez de compreender a experiência real de quem está na linha de frente.

Ao longo dos anos, aprendi que um bom treinamento comercial começa com uma pergunta simples: Como é viver a realidade deste vendedor?

Foi daí que nasceu uma ferramenta que chamamos de Seller Experience.

Conteúdo do artigo
O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha, o Seller Experience (tá lá no Bora Bater Meta em detalhes)

Ela parte de quatro dimensões:

  • Para quem você vende? Quem é o cliente? Quais são suas dores, valores, medos, expectativas e pressões?
  • O que você vende? Quais diferenciais realmente importam? Onde estão as oportunidades e os desafios do portfólio?
  • Por que você vende? O que move esse profissional? Propósito? Reconhecimento? Impacto? Segurança? Crescimento?
  • Como você vende? Quais comportamentos produzem resultado? O que os melhores fazem de diferente? O que o sistema recompensa? O que, na prática, acontece no campo?

Quando essas perguntas não são respondidas, criamos treinamentos genéricos para problemas específicos, daí são ensinadas técnicas que não cabem na realidade do time, realizadas atividades que ignoram as restrições do negócio e são dados exemplos que ninguém reconhece como seus.

Contextualizar é suspender a vontade de ensinar para desenvolver a curiosidade de compreender.

Vendedores não aprendem quando alguém lhes entrega respostas, mas quando percebem que o treinamento finalmente entendeu as perguntas que enfrentam todos os dias.

Quanto mais profundamente entendemos a experiência de quem vende, maior a nossa capacidade de desenhar experiências que transformam comportamento e produzem impacto.

2. Criação:

A primeira pergunta de um programa de treinamento não deveria ser “Qual conteúdo vamos ensinar?” e sim “Qual resultado precisa melhorar?”

Programas desenhados com objetivos de negócio claros apresentam probabilidade significativamente maior de gerar mudança de comportamento e impacto organizacional

segundo o State of the Industry Report da ATD.

Conteúdo do artigo
O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Treinamento não deveria nascer de uma lista de temas. Deveria nascer de um problema.

Aumentar market share? Melhorar conversão? Aumentar principalidade? Elevar ticket médio? Reduzir churn? Melhorar a experiência do cliente?

Somente depois dessa resposta é que fazemos a segunda pergunta: Que comportamentos precisam mudar para que esse resultado aconteça?, afinal resultado é consequência de comportamento. Nenhuma meta melhora porque as pessoas aprenderam conceitos novos. Ela melhora porque as pessoas passaram a fazer algo diferente.

Talvez os vendedores precisem investigar melhor necessidades. Talvez precisem conduzir conversas mais consultivas. Talvez precisem fazer mais follow-ups de qualidade. Talvez os líderes precisem dedicar mais tempo ao desenvolvimento do time.

Só então chegamos ao terceiro nível: Quais conhecimentos, ferramentas e experiências de aprendizagem podem apoiar essa mudança de comportamento?

O conteúdo deixa de ser o protagonista e passa a ser um meio e isso muda completamente o desenho do programa. Em vez de perguntar “O que seria interessante ensinar?”, passamos a perguntar: “Do que as pessoas realmente precisam para produzir o impacto que o negócio espera?”

Essa lógica parece simples, mas ela altera o diagnóstico, a escolha dos temas, as metodologias, os indicadores de sucesso e altera a própria percepção de valor do treinamento.

Porque, no final, as empresas não investem em desenvolvimento para que as pessoas saibam mais, mas para que façam de um jeito melhor.

O impacto define os comportamentos. Os comportamentos definem as competências. E as competências orientam as experiências de aprendizagem. Inverter essa ordem é, muitas vezes, a diferença entre um treinamento memorável e um treinamento transformador.

3. Customização:

O NeuroLeadership Institute lembra algo que deveria estar na porta de toda sala de treinamento:

“O cérebro aprende por construção de significado, não por exposição ao conteúdo.”

Vendedores precisam conseguir se enxergar dentro dos conceitos e isso exige adaptação, linguagem do negócio, exemplos reais, casos de clientes, ferramentas utilizadas no dia a dia, processos comerciais da empresa, histórias que fazem sentido para aquele contexto.

Conhecimento sem tradução gera admiração. Conhecimento traduzido gera ação.Imagem

Conteúdo do artigo
Imagem criada pelo ChatGPT com base nas minhas ideias.

Treinamento genérico produz aprendizado genérico. E aprendizado genérico raramente muda comportamento.

4. Conexão:

A aprendizagem é profundamente dependente da interação social. E mais:

se o cérebro está ocupado tentando se sentir seguro, ele não está ocupado aprendendo.

Existe uma crença perigosa em treinamento corporativo: a de que pessoas mudam porque receberam uma boa explicação. Não mudam. Aprendizagem é um processo. E processos têm etapas.

Conexão não é uma etapa simpática do treinamento, é uma condição biológica para que ele aconteça.

Ao longo dos anos, percebi que os programas mais transformadores respeitam uma espécie de sequência andragógica. Eles entendem que adultos aprendem quando determinadas condições são construídas na ordem certa.

Conteúdo do artigo
O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Primeiro vem a Conexão Empática: antes de qualquer conteúdo, as pessoas precisam sentir que quem está conduzindo a aprendizagem compreende seus desafios, reconhece suas dores e conhece sua realidade. Ninguém se abre para aprender com quem parece não entender o seu mundo.

Depois vem o momento de Objetivo Ampliado: o adulto precisa enxergar para onde está indo. Mais do que apresentar a agenda do treinamento, é preciso ampliar o significado da jornada e mostrar como aquela aprendizagem beneficia não apenas o indivíduo, mas clientes, equipes e o próprio negócio.

Em seguida, acontece a Apreciação: as pessoas precisam perceber que já possuem repertório, experiências e histórias de sucesso que merecem reconhecimento. Aprendizagem adulta não começa em uma folha em branco. Ela começa valorizando o conhecimento que cada participante já traz consigo.

Só então introduzimos o Desafio que é o momento de criar uma tensão positiva. Apresentar mudanças de mercado, novas demandas dos clientes e resultados que exigem novas capacidades. Porque ninguém muda simplesmente porque recebeu uma informação nova. As pessoas mudam quando percebem que os antigos modelos já não são suficientes.

A partir daí, chegamos à Aprendizagem propriamente dita. Agora, sim, existe abertura para aprofundar conhecimentos, desenvolver habilidades, experimentar ferramentas e construir novos comportamentos.

E a jornada chega ao ápice com o Impacto, afinal o aprendizado só se consolida quando o participante estabelece um compromisso de mudança a partir da transformação que aquilo pode gerar em seus resultados, em seus clientes e em sua própria trajetória profissional.

Perceba a lógica: primeiro criamos conexão, depois significado, valorizamos a experiência existente, provocamos uma necessidade de mudança, ensinamos e, finalmente, geramos compromisso.

O cérebro precisa de tempo para organizar experiências, conectar conceitos e transformar conhecimento em repertório prático. Aprender não acontece apenas durante o treinamento, muito pelo contrário, quase sempre acontece depois dele.

Por isso, conexão não é fazer uma dinâmica divertida ou criar um ambiente descontraído, mas sim desenhar experiências que respeitem a forma como adultos efetivamente aprendem.

Treinamento não é um evento de transferência de conteúdo. É uma sequência intencional de experiências capaz de transformar consciência em comportamento.

5. Concretização: transformar aprendizagem em resultado

Talvez aqui esteja nossa maior fragilidade.

Segundo o Raio-X do Aprendizado no Brasil, apenas 30% das empresas medem impacto no negócio e apenas 29% avaliam mudança de comportamento.

Investimos milhões em treinamento e quase nunca verificamos se algo efetivamente mudou.

As áreas de RH, Educação, DHO e T&D vivem em um ritmo frenético. Um programa é finalizado e logo estamos imersos no próximo, produzindo o próximo conteúdo, organizando a próxima turma ou planejando a próxima convenção. Nessa corrida, muitas vezes deixa-se de fazer o mais importante: parar para entender o impacto que gerado pelo acabou de ser entregue.

Conteúdo do artigo
O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Talvez seja por isso que ainda é medido com tanta intensidade aquilo que é fácil (presença, satisfação, horas treinadas) e com tão pouca disciplina aquilo que realmente importa: mudança de comportamento e resultados de negócio.

E esse é, talvez, o maior desafio do profissional de T&D contemporâneo.

O trabalho não é entregar conteúdo. Conteúdo se tornou abundante, acessível e praticamente uma commodity. O trabalho é garantir a transferência da aprendizagem.

É criar condições para que as pessoas consigam aplicar o que aprenderam em sua realidade, sustentem novos comportamentos ao longo do tempo e produzam impacto mensurável para o negócio.

Isso exige indicadores de transferência, participação ativa da liderança, acompanhamento, feedback e reforços ao longo da jornada.

Um treinamento só pode ser considerado bem-sucedido quando atravessa a fronteira da sala de aula e passa a existir na rotina das pessoas.

A questão não é o que as pesoas aprendera. É o que elas passaram a fazer de diferente e que resultados isso produziu?

Conhecimento armazenado tem até valor potencial, mas é o conhecimento aplicado gera valor para o negócio.

O papel da liderança: o combustível que sustenta o movimento

Nenhum modelo de atuação se sustenta sem um modelo de gestão.

Uma empresa cresce a partir do crescimento das suas pessoas e pessoas crescem quando alguém cria contexto, direciona, desafia, acompanha, corrige rota e reconhece evolução.

Treinamento gera consciência, mas é a liderança que gera consistência.

Nenhuma iniciativa de desenvolvimento sobrevive quando a rotina, as reuniões, os indicadores, os rituais e as conversas de gestão apontam na direção oposta.

O sistema sempre vence.

Por isso, desenvolver equipes de vendas é muito menos sobre ensinar técnicas e muito mais sobre criar condições para que novos comportamentos consigam sobreviver.

Líderes não desenvolvem pessoas em uma única conversa, nem em um treinamento. Eles desenvolvem pessoas na forma como conduzem a rotina.

Conteúdo do artigo
O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Quando planejam antes de agir, criam contexto e clareza, quando se conectam genuinamente, constroem confiança. Quando escutam com atenção, entendem necessidades e potencialidades que os indicadores não revelam. Quando inspiram, dão sentido ao trabalho. Quando geram engajamento, transformam metas em compromissos compartilhados. Quando acompanham e estabelecem acordos, criam responsabilidade e evolução contínua. E, sobretudo, quando desenvolvem consciência, deixam de liderar pela urgência para cultivar autonomia e crescimento sustentável.

O problema é que muitos líderes operam no extremo oposto: improvisam, escutam superficialmente, fazem suposições, generalizam, impõem soluções e vivem apagando incêndios. Nesse cenário, qualquer treinamento vira um evento isolado. O conhecimento até chega às pessoas, mas dificilmente se transforma em comportamento.

O treinamento pode apresentar caminhos, provocar reflexões e instrumentalizar o time, mas é a liderança que cria o ambiente onde a aprendizagem ganha vida. Porque as pessoas não aprendem apenas com aquilo que o líder ensina. Elas aprendem, sobretudo, com aquilo que ele pergunta, acompanha, reforça e pratica todos os dias.

VENDAS MOVEM O MUNDO

As ideias deste artigo serão detalhadamente exploradas no meu novo livro “Vendas Movem o Mundo – Como Treinar Equipes de Vendas para Transformar Potencial em Impacto”, que será lançado em agosto (espero vocês lá na noite de autógrafos).

No CBTD (Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento) eu apresentei essa palestra e em julho faremos uma turma exclusiva para profissionais de T&D de Vendas para mergulhar nesse assunto. Se quiser participar, dá um toque que a gente te envia o material.

Vendas movem o mundo. As pessoas movem as vendas e o Aprendizado move as pessoas.

Bora nessa?

Aquele abraço,

Carol Manciola

Indicadores de gestão comercial: o que os números não te contam.

Resultado é passado. Tendência é o que você pode mudar agora. Saber distinguir os dois é o que separa o líder que cobra do líder que desenvolve.

Quando um líder olha só para o resultado final (venda realizada, meta batida, conversão fechada) ele está olhando para o passado. Útil? Sim. Suficiente? Não.

O resultado sempre diz o que aconteceu. Mas ele não explica por que o time entregou bem, mediamente ou mal. E é exatamente aí que a liderança impulsiona (ou desmotiva).

Resultado x tendência: a distinção que muda a gestão.

Todo líder precisa trabalhar com dois tipos de indicador ao mesmo tempo.

Os de resultados capturam o que já foi: venda realizada, negócios fechados, engajamento percebido, performance consolidada. São indispensáveis, mas revelam os efeitos, não as causas.

Os de tendência mostram o que está em movimento agora: número de contatos, visitas realizadas, propostas apresentadas, indicações geradas, frequência de acompanhamento, produtividade, atrasos, absenteísmo e licenças. Esses são os indicadores que permitem agir antes do resultado piorar, e não só cobrar depois que ele já caiu.

A diferença prática? Sair de uma liderança reativa para uma liderança preventiva.

Um resultado comercial abaixo do esperado tem razões diferentes

Pode haver poucas visitas, baixa geração de propostas, dificuldade de conversão, ausência de indicações qualificadas ou falta de disciplina no acompanhamento da carteira.

Cada uma dessas hipóteses pede uma intervenção diferente:

  • Treinar abordagem e repertório técnico
  • Reorganizar prioridades e agenda
  • Revisar metas intermediárias
  • Reforçar a disciplina de acompanhamento da carteira

O indicador não serve para pressionar, serve para identificar onde o processo está falhando e qual conversa de gestão precisa acontecer.

A mesma lógica vale para gestão de pessoas.

Produtividade caindo. Atrasos aumentando. Absenteísmo subindo. Esses números não são apenas dados administrativos. São sinais sobre energia, foco, clima, maturidade e capacidade de execução do time.

Um aumento de atrasos ou absenteísmo, por exemplo, pode indicar desorganização individual, sobrecarga, desalinhamento, baixa motivação ou problemas de liderança.

Já uma queda de produtividade pode revelar falta de conhecimento, baixa clareza de prioridades, pouca disciplina comercial ou ausência de acompanhamento.

O papel da liderança é interpretar esses sinais com responsabilidade, sem simplificar pessoas a números, mas também sem ignorar o que os números revelam.

A pergunta que fica

Quando a leitura dos indicadores é bem feita, a pergunta deixa de ser “por que a meta não foi batida?” e passa a ser “quais comportamentos, rotinas e condições precisam ser ajustados para melhorar o desempenho?”

Essa mudança de pergunta é o que transforma indicadores em ferramenta de gestão de verdade: sustentam decisões, qualificam feedbacks, orientam planos de ação, e ajudam a construir resultados consistentes sem perder de vista as pessoas que tornam esses resultados possíveis.

Na Conectas, ajudamos líderes a transformar indicadores em ação: com método, prática e aprendizagem real. Fale com a gente sobre nossos programas de desenvolvimento de liderança comercial.

Até a próxima,

Ivan Correa

Por que tá “tão difícil” contratar bons vendedores?

Todo dia alguém me pede um indicação… em toda reunião alguém faz um desabafo:

“Preciso contratar gente pra área comercial… mas tá difícil achar gente boa!”

Quando tento entender mais sobre a vaga, recebo uma lista de desejos: tem que protagonizar, ser resiliente, estrategista, ter disciplina de execução, gostar de aprender, precisa ter visão de negócios, analisar os dados disponíveis e criar planos consistentes, mas tem que ser excelente em executá-los, precisa se adaptar à cultura da nossa empresa e também às necessidades dos clientes, precisar ter repertório vasto, gostar do que faz e não ser reclamão.

Enfim… minha conclusão está sendo esta:

O problema não é o mercado. O problema é a distância entre o mundo em que vivemos e o vendedor que seguimos tentando contratar.

O mundo mudou

Até outro dia, traduzíamos o mundo como VUCA: volátil, incerto, complexo e ambíguo. Até antes da pandemia, a leitura de contexto era de instável, sim, mas ainda relativamente administrável. Planejamento, experiência acumulada e boas práticas davam conta de grande parte das decisões. Em vendas, quem dominava técnica, discurso e relacionamento conseguia navegar.

O COVID mudou todo e o mundo se tornou BANI: frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Cadeias sensíveis, pessoas sobrecarregadas, jornadas confusas, clientes mais defensivos e menos fiéis. Vender passou a exigir mais inteligência emocional, mais leitura de comportamento e mais tolerância à ambiguidade.

Só que isso já ficou para trás.

Hoje, o jogo acontece em um mundo RUPT: Rápido, Incerto, Paradoxal e Emaranhado. Emaranhado porque nada vem separado, organizado ou linear. Tudo acontece ao mesmo tempo. Uma decisão puxa outra. Um movimento do mercado afeta preço, expectativa, comportamento, cultura e relação em cadeia. Não dá para “resolver uma coisa de cada vez”, porque as coisas não se apresentam assim.

E o cliente? Quer agilidade, mas exige profundidade. Quer autonomia, mas espera orientação. Quer preço, mas cobra valor. Quer tecnologia, mas busca conexão humana. Tudo junto, sem manual de instruções.

Nesse contexto, vender deixou de ser execução de processo.

Vender virou gestão de complexidade em tempo real.

E aí está o choque: seguimos tentando contratar profissionais preparados para um mundo previsível, organizado e compartimentado, para atuar em um mundo rápido, paradoxal e emaranhado. O desencaixe é inevitável.

Os dados escancaram isso

O Global Talent Shortage Survey 2025, conduzido pela ManpowerGroup com mais de 40 mil empregadores em 42 países, mostrou que 74 % dos empregadores em todo o mundo relatam dificuldade em encontrar talentos com as habilidades adequadas.

Não é que falte gente: falta de gente preparada para o nível de complexidade atual.

Ao mesmo tempo, estudos mostram que novas contratações frequentemente chegam sem o preparo necessário para o cargo, enquanto as empresas seguem esperando prontidão imediata, sem investir proporcionalmente em formação e desenvolvimento.

Some a isso um erro clássico: o jeito como buscamos. Quando a contratação fica presa a cargo anterior, setor específico e currículo “perfeito”, o funil encolhe artificialmente. Abordagens baseadas em habilidades ampliam significativamente o pool de talentos, mas ainda são exceção. Preferimos reclamar da escassez a revisar nossos filtros.

Antes de falar em falta de vendedor bom, vale encarar uma pergunta desconfortável: bom para qual contexto?

As competências essenciais no mundo RUPT

No B2B, o vendedor que performa hoje precisa:

  • Ler cenário e entender negócio, não só produto
  • Navegar com segurança em comitês de decisão complexos
  • Pensar estrategicamente e sustentar conversas de longo prazo
  • Usar dados, CRM e sinais do funil como instrumento, não como burocracia
  • Escutar de verdade, diagnosticar e provocar reflexão
  • Influenciar sem autoridade formal
  • Sustentar emocionalmente ciclos longos, pressão e negociação dura

Aqui, simpatia ajuda, mas é o repertório que sustenta.

No B2C, as competências mudam, mas não ficam mais simples:

  • Agilidade mental para lidar com volume, velocidade e múltiplos estímulos
  • Leitura rápida de perfil, intenção e objeção
  • Comunicação clara, objetiva e empática
  • Capacidade de gerar confiança em interações curtas
  • Disciplina emocional para lidar com rejeição constante
  • Uso fluido de tecnologia, automação e canais digitais
  • Ritmo, consistência e execução

Aqui, não vence quem fala bem e sim quem entende mais rápido.

O problema é que seguimos tratando essas competências como diferencial, quando elas já são condição mínima de sobrevivência no jogo atual.

Por isso, talvez a pergunta não seja por que está tão difícil contratar bons profissionais de vendas. A pergunta real é: o quanto as empresas estão dispostas a abandonar o discurso do “vendedor pronto” e assumir a responsabilidade de formar, desenvolver e sustentar performance em um mundo emaranhado?

O ponto da virada

Diante desse cenário, tem um ponto que precisa ser reforçado:

NENHUM MODELO DE ATUAÇÃO SE SUSTENTA SEM MODELO DE GESTÃO.

Não é mais o produto. Não é só a estratégia. Não é o discurso bonito sobre cultura. É a capacidade da empresa de orquestrar pessoas em um contexto rápido, paradoxal e emaranhado. Em vendas, isso passa, inevitavelmente, pela forma como o time é liderado.

E é aqui que a conversa fica menos confortável.

Porque, no mundo RUPT, o maior desafio da gestão comercial não é mais motivar no grito de guerra, na palestra inspiradora, nem na pressão nossa de cada dia. Isso não cabe mais na complexidade do jogo atual.

Não é somente sobre CONTRATAR GENTE BOA, é sobre ter líderes comerciais capazes de reconhecer as competências necessárias ao seu contexto, selecionar melhor, formar de verdade, desenvolver continuamente e sustentar emocionalmente quem vende. É criar contexto, dar critério, oferecer direção, construir repertório e garantir apoio quando a complexidade aperta.

Não dá mais para terceirizar performance para o indivíduo e chamar isso de meritocracia.

Quem lidera vendas precisa assumir que resultado é consequência direta de decisões de gente: quem entra, como entra, como é formado, como é acompanhado e até onde é esticado. Pressão sem estrutura gera rotatividade. Motivação sem método vira discurso vazio. Cobrança sem desenvolvimento vira desgaste.

Para ficar BEM claro: contratar bem deixou de ser um problema de RH. E vender bem deixou de ser um problema do vendedor. Esses são desafios de uma gestão comercial madura, conectada com a leitura correta de mundo e disposta a abandonar atalhos.

No mundo RUPT, contratar bem não é sorte: é clareza estratégica, liderança presente e método consistente.

Bateu ai? #tamojuntos

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos temas de palestras para times que treinam e desenvolvem equipes comerciais. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Matriz dos 4C’s: uma ferramenta poderosa para melhorar a integração entre times.

Desalinhamentos e conflitos entre times adjacentes acontecem mais do que a gente gosta de admitir. Depois de viver diferentes perspectivas da guerra velada entre marketing e vendas, criei uma ferramenta pra ajudar na integração e reduzir conflitos internos. Vou te explicar como usar 🙂

Eu já estive nos dois (e mais) lados da moeda: já fui vendedora, e já fui marketeira, já fui liderada, já fui liderança… E, mesmo sendo áreas tão próximas, todo mundo aqui deve concordar comigo que, infelizmente, o ranço entre elas é clássico e BEM real.

De um lado, o pessoal de vendas sente que o marketing não entende a urgência das coisas e não está conectado de verdade com seus clientes.

Do outro, o time de marketing enxerga pessoas de vendas como impacientes, egoístas (acham que seu cliente e seu problema é mais importante do que qualquer outra coisa) e focadas demais em objetivos de curto prazo, sem pensar na estratégia a longo prazo.

Seja por disputa de poder e budget, pelos perfis muito diferentes das pessoas ou pela relevância de cada time na estratégia, o desalinhamento entre qualquer outra área na verdade alerta sobre algo bem mais relevante: a falta de foco no que realmente importa, os clientes.

[isso vale também pra vendas x CS, marketing x produto, produto x tech e toda área que mais briga do que presta atenção nos clientes…]

Eu gosto dessa charge mais do que eu devia hahaha – pois ela representa muito bem a guerra velada entre as áreas como marketing, vendas, CS, produto…

Construir integração entre os times não acontece do dia pra noite, e adivinhe: não existe fórmula pronta pra isso. Mas, durante os caminhos que percorri, eu estudei modelos e testei várias formas de trazer esse alinhamento para a prática.

Uma delas é a Matriz 4C, criada por fontes da minha cabeça e da minha experiência. E antes que você pensa “mais um framework”, pensa comigo: ferramentas e frameworks nos ajudam a alinhar e organizar visualmente o que está bagunçado. De quebra, ainda servem como guia e gestão de conhecimento nesse processo de integração.

Bora comigo?

Matriz 4C’s: o que é e como usar essa ferramenta para integrar times, prevenir e remediar conflitos.

O que é a Matriz 4C?

É uma ferramenta que ajuda a organizar as atividades, os projetos, as responsabilidades e até as métricas que envolvem dois (ou mais) times que deveriam atuar de forma mais integrada.

A partir dessa organização, é possível consolidar e alinhar quais atividades e iniciativas os times adjacentes devem fazer em conjunto ou separadamente de acordo com o cruzamento entre dois eixos: transversalidade (atividades/funções mais transversais ou mais específicas) e importância (mais operacional ou mais estratégico).

Ela pode ser utilizada em todo começo de um projeto que envolve múltiplas áreas ou desdobramento de estratégia, de forma colaborativa e participativa entre os times envolvidos, pra dar mais clareza sobre o nível de interação e alinhamento entre as áreas.

O que significa cada elemento da Matriz dos 4Cs?

O nome da ferramenta é referência ao nome de cada um dos quatro quadrantes da matriz, todos começando pela letra C (uma feliz coincidência que ajuda a lembrar o seu nome).

Cada atividade, iniciativa, projeto ou responsabilidade é classificada de acordo com cada quadrante – e essa decisão deve ser tomada necessariamente em conjunto. Utilizando o contexto entre marketing e vendas como exemplo, vou explicar cada um deles na prática:

Quadrante 1: CONTINUAR. (atividades específicas e operacionais):

Aqui se enquadram as funções mais específicas e operacionais de cada área, que devem continuar em suas respectivas áreas alinhando apenas quando estritamente necessário e benéfico para a operação como um todo. Ex: rotina de postagem de redes sociais de marketing, rotina de construção de propostas comerciais de vendas, processo de atendimento de clientes de um time de CS, etc.

Quadrante 2: COCRIAR (atividades transversais e operacionais):

Se enquadram as atividades que são operacionais, mas possuem um impacto e envolvimento transversal de mais de 1 área. Nesse caso, elas exigem mão na massa de ambos os times e precisam necessariamente ser cocriadas e executadas em conjunto, pois a atividade se beneficia tanto da perspectiva como do envolvimento de todas as áreas. Ex: Cocriar um SLA (Acordo de Nível de Serviço).

Quadrante 3: COLABORAR (atividades específicas e estratégicas):

Aqui se enquadram as atividades que são específicas de cada time, mas com relevância estratégica para o negócio. São atividades que seguem sendo construídas e aprimoradas nos times responsáveis por elas, mas que, pela sua importância e impacto, se beneficiam com o alinhamento e colaboração com outros times em rituais periódicos com todos. Ex: a elaboração de uma nova campanha de marketing. Toda a execução será responsabilidade de marketing, mas é importante ter pontos de contato com vendas.

Quadrante 4: CONECTAR (atividades transversais e estratégicas):

Quando as atividades são transversais e estratégicas, elas devem ser construídas e aprimoradas de forma conectada entre as lideranças de cada time, mas contando com o apoio e garantindo o alinhamento transversal com todas as pessoas pertencentes aos mesmos. Ex: Revisão da estratégia anual ou criação dos OKRs de cada área. As prioridades estratégicas devem ser definidas com as lideranças dos times em conjunto, garantindo a conexão entre os objetivos e metas específicos de cada área.

O que você precisa saber pra utilizar a Matriz dos 4C’s com seu time:

Obviedade não-óbvia: para que a matriz realmente funcione, é importante que pessoas representantes dos diferentes times estejam presentes e envolvidas no momento da sua utilização.

E, para o momento da sua utilização, você pode criar um workshop seguindo essa lógica:

  • Alinhamento: A matriz só funciona se todos estiverem a bordo. Garantir que todas as pessoas envolvidas entendem o porquê da atividade, assim como os potenciais ganhos após o seu uso, é fundamental para que todo o processo ocorra bem. Isso envolve: explicar que a matriz é um bom primeiro passo, mas que é a jornada em seguida que concretiza a integração; garantir o buy-in de todas as lideranças envolvidas, pois elas vão dar o tom da reunião; e, por fim, compartilhar a importância da empatia durante todo o processo, com todas as pessoas deixando os julgamentos de lado e abertas para exercitar a sua curiosidade.
  • Workshop – levantamento individual: Durante o workshop, além de reforçar os pontos do alinhamento, comece pela explicação de como a Matriz dos 4Cs funciona. Assim que todos entenderem o significado de cada quadrante, separe de 15 a 20 minutos para que cada pessoa (ou cada time), individualmente, escreva as atividades, rotinas, projetos e responsabilidades que entende pertencer a cada grupo. Dessa forma, evitamos ao máximo enviesar o levantamento inicial.
  • Workshop – discussão em grupo: Em seguida, fazemos um momento de compartilhamento das atividades e discussão em grupo. Cada pessoa (ou time) compartilha e coloca as atividades que separou para cada quadrante e, em seguida, é aberta uma discussão guiada sobre os elementos de similaridade e de disparidade que surgiram após o compartilhamento.
  • Workshop – alinhamento em grupo: A partir da discussão feita, tomam-se as primeiras decisões de atividades por quadrante. Via de regra, as similaridades que aparecem logo de cara já se tornam definição e os pontos de conflito são discutidos 1 a 1 para que cada time compartilhe a sua perspectiva e chegue a um consenso sobre todas as atividades-chave.
  • Workshop – plano de ação: A partir do alinhamento feito, é natural que apareçam ações necessárias a serem feitas para levar os pontos discutidos para a prática. Esse plano de ação se torna um primeiro elemento de integração, com atividades de cada quadrante a serem distribuídas entre times e pessoas.
  • Documentação e revisão periódica: Ao fim do workshop, é importante garantir que todos tenham acesso à matriz final, assim como ao plano de ação que saiu dela. É importante que a matriz tenha momentos de atualização periódica (anual, por exemplo) ou quando houver algum impasse crítico entre os times envolvidos.

Tá, mas e depois?

Construir uma cultura de integração e colaboração entre times distintos não é um destino, mas um caminho a ser percorrido todos os dias – que exige esforço e paciência de todas as pessoas envolvidas.

Se você aceita um conselho de alguém que já passou por isso, comece com um primeiro passo, por menor que seja: tente construir esse alinhamento durante um processo, um novo projeto, uma nova rotina. À medida em que isso for dando certo, vai acabar se tornando uma prática, ganhando corpo e envolvendo mais pessoas, até se tornar parte da cultura.

E se você precisa de ajuda pra isso, aqui na Conectas, treinamos e desenvolvemos times que estão em conexão direta com clientes para que trabalhem cada vez mais integrados e olhando para o que importa: a experiência do cliente.

Fale com a gente aqui pra levar nossos treinamentos pra sua empresa. 😉