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Não batemos a meta! De quem é a culpa?

Antes de tudo: se você não é da área de negócios, eu quero reforçar que esse texto é, sim, para você.

Porque resultado comercial não é responsabilidade apenas de quem vende.

Vendas podem estar na linha de frente, mas a meta é construída por toda a empresa. Ela depende da qualidade do produto, da eficiência da operação, da inteligência do marketing, da coerência dos incentivos, da experiência entregue ao cliente, das decisões da liderança e, é claro, da capacidade das pessoas de aprender e fazer diferente. Vamos lá?

PS: tá longo, mas tá incrível!

Apesar dos esforços e da pressão, não batemos a meta.

Quem já passou por isso sabe o quanto esse momento é desafiador. A área comercial convive com o resultado exposto, atualizado quase em tempo real e, muitas vezes, acompanhado por uma contagem regressiva que transforma cada dia, cada reunião e cada oportunidade perdida em motivo de tensão.

O vendedor se frustra, o líder comercial se frustra, mas, antes de tudo, essa frustração deveria ser da empresa.

Não porque todos devam sair culpados ou pressionados, mas porque uma meta não batida revela que o sistema, como um todo, não foi capaz de produzir o resultado esperado.

É mais fácil dizer que o time não teve atitude, que faltou comprometimento, que o mercado esfriou ou que o cliente só quer preço. Difícil é reconhecer que o resultado também pode ter sido impactado por um produto pouco competitivo, uma estratégia mal comunicada, processos lentos, dados insuficientes, uma política comercial incoerente, prioridades conflitantes ou uma liderança que acompanhou o número, mas não desenvolveu as pessoas.

Por isso, antes que comece a caça aos culpados, vale reforçar: este texto não é sobre culpa (até porque, como diz a velha piada, se a culpa é minha, eu coloco em quem eu quiser).Este texto é sobre papéis e responsabilidades.

Porque, quando a meta não é alcançada, cada área costuma apresentar uma explicação bastante convincente.

  • Vendas diz que o preço está alto.
  • Marketing questiona o aproveitamento dos leads.
  • Operações afirma que entregou o que foi combinado.
  • RH lembra que os treinamentos estão disponíveis.
  • A liderança conclui que falta mais atitude ao time.

No final, todo mundo tem uma justificativa e ninguém tem um plano.

E esse talvez seja um dos maiores riscos de uma meta não batida: transformar a análise do resultado em uma disputa para descobrir quem errou, em vez de usar o resultado como fonte de aprendizagem para entender o que precisa ser feito de um jeito melhor ou diferente

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Imagem colorida pelo chatgpt, mas desenhada pela Ale Matteo

Como eu costumo dizer: a tendência não é melhorar… a vida não fica mais fácil, é a gente que tem que ficar mais forte.

A meta sobe. O mercado fica mais competitivo. O cliente se torna mais informado, mais impaciente e mais exigente. A concorrência se prepara. A tecnologia amplia a velocidade, a escala e o acesso à informação.

Diante desse cenário, é preciso entender que ficar “mais forte” é acompanhar o movimento e crescer junto.

E crescer, nesse caso, não significa apenas trabalhar mais, mas sim aprender mais rápido.

E aqui existe uma diferença importante: aprendizagem não é sinônimo de treinamento.

Treinamento é uma das formas de aprender. Aprendizagem é a capacidade de observar o que está acontecendo, interpretar os sinais, rever premissas, desenvolver novas competências e transformar esse conhecimento em uma maneira diferente de agir.

Uma “empresa” aprende quando:

  • o marketing entende por que determinadas campanhas atraem muitos leads, mas poucos clientes com potencial;
  • a área de produtos escuta as objeções recorrentes e reconhece que aquilo que parecia apenas dificuldade de argumentação pode ser uma fragilidade da oferta.
  • o time de operações percebe que o prazo prometido pela área comercial não é apenas um problema de alinhamento, mas um fator que compromete a confiança do cliente.
  • o RH deixa de receber pedidos de treinamento como uma lista de temas e começa a investigar quais resultados precisam ser impactados e quais comportamentos podem produzir esse impacto.

E aprende, principalmente, quando a liderança troca a pergunta “quem não entregou?” por “o que este resultado está tentando nos ensinar?”.

Empresas que tratam o resultado apenas como instrumento de cobrança tendem a repetir os mesmos erros com mais pressão. Empresas que tratam o resultado como fonte de aprendizagem criam capacidade para responder melhor ao próximo desafio.

O indicador não explica, o indicador aponta. O problema é que o indicador final mostra onde chegamos, mas não explica como chegamos até ali e é exatamente nesse ponto que a liderança comercial precisa assumir seu papel.

Imagine, por exemplo, que uma empresa não tenha alcançado sua meta de margem. A conclusão mais rápida pode ser: o time está dando desconto demais.

Pode até ser verdade, mas por que o time está dando desconto? Por que não sabe construir valor? Por que conhece as características do produto, mas não consegue conectá-las aos desafios do cliente? Por que entra tarde no processo de compra e precisa disputar apenas preço? Por que a concorrência possui uma oferta mais competitiva? Por que o modelo de remuneração premia volume, enquanto o discurso da empresa cobra rentabilidade? Por que a política comercial permite descontos sem critérios claros? Por que o próprio líder, quando participa da negociação, oferece desconto para acelerar o fechamento?

Perceba que um mesmo indicador pode esconder problemas de competência, estratégia, processo, produto, incentivo, ferramenta ou liderança. E cada causa exige uma resposta diferente.

  • Se o time não sabe construir valor, existe uma questão de aprendizagem.
  • Se a remuneração incentiva volume, existe uma questão de gestão.
  • Se o produto não entrega o que o mercado valoriza, existe uma questão de oferta.
  • Se os dados não permitem compreender o histórico do cliente, existe uma questão de infraestrutura.
  • Se a liderança cobra uma coisa e reconhece outra, existe uma questão de coerência.

Por isso, nem tudo se resolve com treinamento.

E talvez essa seja uma das frases que mais profissionais de T&D precisem repetir, especialmente quando são chamados para resolver problemas que a empresa não está disposta a enfrentar.

  • Treinar uma equipe para vender valor enquanto a remuneração premia apenas volume é incoerente.
  • Ensinar planejamento quando a agenda do vendedor é tomada por tarefas administrativas e reuniões internas é desperdício.
  • Cobrar personalização quando o CRM não possui informações confiáveis é criar expectativa sem oferecer condição.
  • Desenvolver colaboração em um ambiente que expõe rankings individuais e estimula competição interna é pedir que as pessoas façam, em sala, o contrário do que a cultura recompensa fora dela.

Aprendizagem pode transformar resultados, as ela não pode ser usada como maquiagem para problemas de gestão.

Então, como agir quando a meta não é alcançada?

Antes de encomendar um treinamento, aumentar a pressão ou mudar toda a estratégia, a liderança precisa seguir alguns movimentos.

1. Destrinche o indicador

Saia do número geral. Por exemplo: a meta de faturamento não foi alcançada, mas o problema está onde? No volume de clientes ativos? Na frequência de compra? No ticket médio? Na conversão? No mix? Na margem? No ciclo de vendas? Na quantidade de oportunidades? Na qualidade do pipeline?

Analise o resultado por produto, canal, região, segmento, cliente, vendedor, etapa do processo e período.

Dizer que o time precisa vender mais não oferece direção. É preciso um alvo, mas também é preciso um plano.

  • Vender mais o quê?
  • Para quem?
  • Com qual margem?
  • Em qual canal?
  • Em que etapa as oportunidades estão sendo perdidas?
  • Quais clientes reduziram a compra?
  • Quais produtos estratégicos não estão entrando no pedido?
  • Quando o resultado começou a se distanciar do planejado?

A primeira responsabilidade da liderança não é encontrar um culpado. É identificar o real problema e, a partir dele e de sua experiência (combinando dados com as manhas) levantar hipóteses.

2. Levante hipóteses

Uma hipótese não é uma desculpa nem uma conclusão; é uma possibilidade que merece investigação (até rimou!)

  • Talvez o time não esteja se preparando adequadamente.
  • Talvez os leads estejam chegando sem qualificação.
  • Talvez o portfólio esteja desalinhado às novas necessidades do mercado.
  • Talvez os clientes estejam reduzindo investimentos.
  • Talvez a proposta de valor não esteja clara.
  • Talvez o processo interno esteja dificultando a resposta ao cliente.
  • Talvez a liderança esteja acompanhando o resultado, mas não a execução.

Para testar essas hipóteses, é preciso conversar com o time, observar reuniões, ouvir clientes, analisar propostas, revisar perdas, acompanhar a rotina e confrontar percepções com dados.

Perguntar é mais poderoso do que inferir e proximidade faz toda diferença no rolê.E isso vale para qualquer área.

  • Quando um projeto atrasa, a resposta não pode ser simplesmente “faltou comprometimento”.
  • Quando o turnover aumenta, a explicação não pode ser apenas “as pessoas não querem mais trabalhar”.
  • Quando o NPS cai, não basta dizer que o atendimento precisa ser mais empático.
  • Quando uma campanha não performa, não adianta concluir que o público não entendeu a mensagem.

Antes de agir, é preciso compreender.

3. Transforme hipóteses em comportamentos observáveis

É aqui que muitas empresas se perdem: elas identificam um problema e descrevem a solução de forma genérica.

  • “O time precisa ter mais atitude.”
  • “Precisamos ser mais estratégicos.”
  • “As pessoas devem assumir mais protagonismo.”
  • “É necessário melhorar a comunicação.”

Não, isso não acontece só na Tailândia. É como da analgésico quando o corpo precisa de um antibiótico. Até porque, assim como o analgésico tira a dor, essas soluções podem fazer sentido, mas elas não orientam a ação. Elas servem como uma espécie de desculpa verdadeira.

Comportamentos precisam ser observáveis. Por exemplo:

  • Preparar uma pauta antes da reunião é comportamento.
  • Fazer perguntas sobre os impactos do problema é comportamento.
  • Registrar o próximo passo no CRM é comportamento.
  • Oferecer alternativas de mix é comportamento.
  • Validar prioridades antes de iniciar um projeto é comportamento.
  • Compartilhar informações relevantes com outra área é comportamento.
  • Dar feedback próximo ao acontecimento é comportamento.

A pergunta que a liderança precisa fazer é:

O que as pessoas precisam realizar de um jeito melhor ou diferente para influenciar esse resultado?

Sem essa resposta, qualquer iniciativa de aprendizagem corre o risco de ser interessante, bem avaliada e completamente desconectada do negócio.

4. Descubra o que impede a mudança

Mesmo quando o comportamento esperado está claro, ainda é preciso entender por que ele não acontece. Afinal, se fosse fácil era só falar e todos mudariam seu jeito de fazer, mas a gente sabe que não é assim que funciona.

  • A pessoa não sabe fazer?
  • Ela não reconhece por que deveria fazer?
  • Ela sabe, mas não consegue aplicar na rotina?
  • Ela não possui ferramentas, autonomia ou recursos?
  • Ela não é acompanhada?
  • Ela percebe que o comportamento esperado não é valorizado?
  • Ela tá “seguindo o mestre”? (ela repete o que a liderança faz por não compreender seu papel?)

E pra cada tipo de barreira é necessário um tipo de salto (sim, essa é versão “dê seus pulos” para a liderança):

  • Se a pessoa não sabe, é preciso ensinar.
  • Se ela não compreende a importância, é preciso gerar consciência e sentido.
  • Se ela sabe e reconhece a importância, mas não pratica, é preciso acompanhar, oferecer feedback, reconhecer avanços e corrigir desvios.
  • Se faltam recursos, processos ou condições, a organização precisa agir.

Essa distinção é decisiva porque evita dois erros muito comuns: treinar quem precisa ser gerenciado e cobrar quem precisa ser desenvolvido.

5. Defina papéis e responsabilidades

O resultado é coletivo, mas as responsabilidades são individuais. Isso vale pra pessoas, mas também para as áreas. O não atingimento de metas precisa gerar reflexão em toda empresa:

  • A área de negócios precisa clarificar a estratégia, os indicadores e os comportamentos críticos.
  • O RH e T&D podem apoiar o diagnóstico, estruturar jornadas de aprendizagem e escolher metodologias coerentes com o desafio.
  • A liderança direta precisa criar espaço para a aplicação, acompanhar a rotina, oferecer feedback e sustentar os novos comportamentos.
  • O time precisa participar, praticar e assumir responsabilidade pela própria evolução.
  • As áreas de suporte precisam eliminar barreiras que dificultam a execução.
  • A alta liderança precisa garantir coerência entre discurso, processos, incentivos e decisões.

Quando todo mundo é responsável por tudo, ninguém responde por nada. Quando cada um entende sua parte no rolê, planos são criados, ações realizadas e a mudança é vivenciada. O esforço em torno do resultado precisa ser coletivo (e a gente observa isso quando a empresa não premia apenas a área comercial, mas define métodos de reconhecimento que premiam toda a organização pelo resultado).

Responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade diluída. Significa que cada área precisa ter clareza sobre qual parte do problema lhe cabe enfrentar e qual parte da solução lhe cabe construir.

6. Acompanhe a implementação

Não basta dar direção e delegar, assim como também não adianta colocar todo mundo numa “cela de aula”, ops, sala de aula, apresentar um monte de conteúdo e depois liberar o povo para o mundo acreditando que todos “aprenderam a lição”.

Aprender não é colocar pra dentro. Aprender é colocar pra fora.

Aprender é conseguir fazer diferente na vida real, diante dos clientes reais, das metas reais e dos problemas que não vieram no slide.

Sabe quando o líder explica o plano em detalhes, apresenta uma estratégia robusta num PowerPoint cheio de gráficos, tendências, prioridades e setinhas e espera que, a partir dali, todo mundo saiba exatamente o que fazer na própria rotina?

Então.

Algumas pessoas irão compreender a estratégia, traduzi-la para sua realidade e construir seu próprio caminho de execução. Aliás, essa é uma demonstração clara de maturidade comercial.

Elas conseguem olhar para a direção apresentada, avaliar sua carteira, priorizar clientes, ajustar a abordagem, organizar a agenda e tomar decisões coerentes com o resultado esperado, mas nem todo mundo fará isso sozinho e mesmo os profissionais mais maduros precisarão de acompanhamento.

O desafio da liderança não termina quando o plano é comunicado. É nesse momento que ele começa.

Acompanhar a implementação significa monitorar os indicadores, mas também observar as ações que deveriam movimentá-los.

  • A quantidade de clientes ativos aumentou?
  • O mix melhorou?
  • A margem reagiu?
  • A conversão começou a subir?

Mas também:

  • O time está priorizando os clientes certos?
  • As abordagens estão mais personalizadas?
  • As pessoas estão fazendo as perguntas combinadas?
  • As propostas estão conectadas aos desafios dos clientes?
  • Os próximos passos estão sendo registrados e acompanhados?
  • Os rituais definidos estão acontecendo?

Não adianta esperar o fechamento do mês para descobrir que a estratégia não saiu do PowerPoint.

Indicadores são importantes, mas chegam atrasados. Quando o número aparece, o comportamento já aconteceu ou deixou de acontecer várias vezes, por isso, é preciso acompanhar o caminho, não apenas conferir o destino.

É como dar uma aula para seu filho sobre como andar de bicicleta, explicar o equilíbrio, mostrar como funcionam os pedais, falar sobre o freio e depois soltá-lo sozinho no parque com sua Caloi.

Você pode ter explicado tudo muito bem e ele pode até ter entendido, mas, quando ele sobe na bicicleta é que aparecem o medo, o desequilíbrio, a curva, a velocidade e o risco de cair e é ali que o apoio importa: no começo, você segura, depois, corre ao lado e em algum momento, solta sem avisar, mas continua por perto até que ele possa desbravar o mundo sozinho e ai outros desafios surgirão.

Evolução é um processo cíclico.

Com a implementação acontece a mesma coisa: a liderança precisa observar, orientar, oferecer feedback, corrigir a rota e reconhecer os avanços até que a nova maneira de fazer deixe de depender de esforço consciente e passe a fazer parte da rotina.

Acompanhar não é fazer pelo outro e não é microgerenciar cada movimento; é garantir que exista suporte suficiente para transformar direção em ação, ação em consistência e consistência em resultado.

  • O que está dando certo precisa ser reforçado.
  • O que não funciona precisa ser revisto.
  • Quem precisa de mais apoio deve recebê-lo.
  • Quem já consegue seguir sozinho pode ganhar mais autonomia.

Porque delegar sem acompanhar é abandonar o time no parque e torcer para ninguém cair.

A meta não pertence apenas à área comercial

A área de vendas pode ser a responsável por colocar a receita para dentro, mas ela não cria valor sozinha.

Ela depende de uma marca que gere confiança, de um produto que entregue o que promete, de uma operação capaz de cumprir o combinado, de dados que permitam boas decisões, de políticas que favoreçam a estratégia, de líderes que desenvolvam pessoas, de uma cultura que transforme erros e acertos em aprendizagem..

Por isso, quando a meta não é alcançada, a frustração não pode ficar restrita a quem aparece no relatório comercial: ela precisa provocar a empresa inteira.

É assim que ampliamos a consciência, organizamos responsabilidade e construímos e implementamos uma resposta coerente.

A meta sobe, o mercado muda, o cliente evolui, a concorrência aprende, a tecnologia acelera e a única maneira de acompanhar esse movimento é crescer junto.

O ponto principal de todo esse processo não é descobrir de quem é a culpa pelo não atingimento da meta, mas  sim aprender o que, a partir desse contexto, cada um de nós precisa fazer diferente a partir de agora.

Empresas que aprendem apenas quando erram pagam caro, mas empresas que erram e não aprendem pagam esse boleto várias vezes.

A mudança acontece quando  os resultados orientam o aprendizado.

Vendas movem o mundo, mas são as pessoas, aprendendo juntas, que movem as vendas.

Aquele abraço,

Carol Manciola

Esse texto foi inspirado no conteúdo do meu novo livro: Vendas Movem o Mundo já em pré venda na Amazon! https://a.co/d/0fTn8n9Q

Como treinar Equipes de Vendas para transformar Potencial em Impacto.

Há mais de duas décadas eu treino equipes de vendas. Nesse tempo, estive em salas com vendedores de indústrias farmacêuticas, de alimentos, bebidas, construção, instituições financeiras, varejo popular e de luxo, empresas de tecnologia, agronegócio e distribuição…são muitos segmentos nos quais temos mergulhado. Como executiva de Educação Corporativa, meus times já lideraram e executaram profissionais extremamente técnicos, outros profundamente relacionais, alguns resistentes à mudança e outros sedentos por aprender.

E existe algo que todos eles têm em comum: potencial.

O problema é que potencial não paga conta, não melhora NPS, não aumenta market share e não bate meta. Impacto, sim.

Foi convivendo com milhares de vendedores e líderes comerciais que comecei a me questionar por que tantas iniciativas de treinamento não se tornam prática no dia seguinte.

Talvez porque tenhamos nos especializado em ensinar e pouco em transformar.

“Sempre foi assim”

Durante anos, tratamos treinamento de vendas como uma espécie de “cela de aula”.Ver credenciais de conteúdo

Imagem criada pelo Chat GPT a partir das minhas ideias.

Pegamos profissionais inquietos, questionadores e extremamente práticos, colocamos todos dentro de uma sala, projetamos dezenas de slides e passamos horas despejando conteúdo na esperança de que, ao final, eles saiam diferentes.

Mas vendedores não aprendem porque ficaram oito horas sentados, e sim quando encontram sentido no que estão fazendo.

Também criamos aquilo que gosto de chamar de “A Fantástica Fábrica de Indicadores de Aprendizagem”. Medimos presença, reação, avaliações de conteúdo, satisfação, quantidade de horas treinadas e até a nota que as pessoas deram ao facilitador.

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Imagem criada pelo ChatGPT a partir das minhas ideias

Tudo é medido, mas quase nada é aprendido e, principalmente, quase nada é transformado em resultado.

Até as convenções de vendas, que poderiam ser um dos maiores fóruns de inteligência comercial das empresas, muitas vezes se transformam em longas agendas de apresentações, enquanto centenas de anos de experiência acumulada em clientes permanecem sentadas na plateia, sem conversar umas com as outras.

Treinar equipes de vendas exige um processo muito mais intencional.

Ao longo dos anos, organizei esse processo em cinco pilares e vou apresentar aqui a essência do que acredito fazer a diferença quando o assunto é treinar equipes de vendas.

1. Contextualização:

Apenas 35% dos colaboradores acreditam que os treinamentos oferecidos pelas empresas atendem diretamente às necessidades do seu trabalho, segundo a Gartner.

Talvez porque ainda tentemos desenhar programas olhando para organogramas, indicadores e descrições de cargo, em vez de compreender a experiência real de quem está na linha de frente.

Ao longo dos anos, aprendi que um bom treinamento comercial começa com uma pergunta simples: Como é viver a realidade deste vendedor?

Foi daí que nasceu uma ferramenta que chamamos de Seller Experience.

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O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha, o Seller Experience (tá lá no Bora Bater Meta em detalhes)

Ela parte de quatro dimensões:

  • Para quem você vende? Quem é o cliente? Quais são suas dores, valores, medos, expectativas e pressões?
  • O que você vende? Quais diferenciais realmente importam? Onde estão as oportunidades e os desafios do portfólio?
  • Por que você vende? O que move esse profissional? Propósito? Reconhecimento? Impacto? Segurança? Crescimento?
  • Como você vende? Quais comportamentos produzem resultado? O que os melhores fazem de diferente? O que o sistema recompensa? O que, na prática, acontece no campo?

Quando essas perguntas não são respondidas, criamos treinamentos genéricos para problemas específicos, daí são ensinadas técnicas que não cabem na realidade do time, realizadas atividades que ignoram as restrições do negócio e são dados exemplos que ninguém reconhece como seus.

Contextualizar é suspender a vontade de ensinar para desenvolver a curiosidade de compreender.

Vendedores não aprendem quando alguém lhes entrega respostas, mas quando percebem que o treinamento finalmente entendeu as perguntas que enfrentam todos os dias.

Quanto mais profundamente entendemos a experiência de quem vende, maior a nossa capacidade de desenhar experiências que transformam comportamento e produzem impacto.

2. Criação:

A primeira pergunta de um programa de treinamento não deveria ser “Qual conteúdo vamos ensinar?” e sim “Qual resultado precisa melhorar?”

Programas desenhados com objetivos de negócio claros apresentam probabilidade significativamente maior de gerar mudança de comportamento e impacto organizacional

segundo o State of the Industry Report da ATD.

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O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Treinamento não deveria nascer de uma lista de temas. Deveria nascer de um problema.

Aumentar market share? Melhorar conversão? Aumentar principalidade? Elevar ticket médio? Reduzir churn? Melhorar a experiência do cliente?

Somente depois dessa resposta é que fazemos a segunda pergunta: Que comportamentos precisam mudar para que esse resultado aconteça?, afinal resultado é consequência de comportamento. Nenhuma meta melhora porque as pessoas aprenderam conceitos novos. Ela melhora porque as pessoas passaram a fazer algo diferente.

Talvez os vendedores precisem investigar melhor necessidades. Talvez precisem conduzir conversas mais consultivas. Talvez precisem fazer mais follow-ups de qualidade. Talvez os líderes precisem dedicar mais tempo ao desenvolvimento do time.

Só então chegamos ao terceiro nível: Quais conhecimentos, ferramentas e experiências de aprendizagem podem apoiar essa mudança de comportamento?

O conteúdo deixa de ser o protagonista e passa a ser um meio e isso muda completamente o desenho do programa. Em vez de perguntar “O que seria interessante ensinar?”, passamos a perguntar: “Do que as pessoas realmente precisam para produzir o impacto que o negócio espera?”

Essa lógica parece simples, mas ela altera o diagnóstico, a escolha dos temas, as metodologias, os indicadores de sucesso e altera a própria percepção de valor do treinamento.

Porque, no final, as empresas não investem em desenvolvimento para que as pessoas saibam mais, mas para que façam de um jeito melhor.

O impacto define os comportamentos. Os comportamentos definem as competências. E as competências orientam as experiências de aprendizagem. Inverter essa ordem é, muitas vezes, a diferença entre um treinamento memorável e um treinamento transformador.

3. Customização:

O NeuroLeadership Institute lembra algo que deveria estar na porta de toda sala de treinamento:

“O cérebro aprende por construção de significado, não por exposição ao conteúdo.”

Vendedores precisam conseguir se enxergar dentro dos conceitos e isso exige adaptação, linguagem do negócio, exemplos reais, casos de clientes, ferramentas utilizadas no dia a dia, processos comerciais da empresa, histórias que fazem sentido para aquele contexto.

Conhecimento sem tradução gera admiração. Conhecimento traduzido gera ação.Imagem

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Imagem criada pelo ChatGPT com base nas minhas ideias.

Treinamento genérico produz aprendizado genérico. E aprendizado genérico raramente muda comportamento.

4. Conexão:

A aprendizagem é profundamente dependente da interação social. E mais:

se o cérebro está ocupado tentando se sentir seguro, ele não está ocupado aprendendo.

Existe uma crença perigosa em treinamento corporativo: a de que pessoas mudam porque receberam uma boa explicação. Não mudam. Aprendizagem é um processo. E processos têm etapas.

Conexão não é uma etapa simpática do treinamento, é uma condição biológica para que ele aconteça.

Ao longo dos anos, percebi que os programas mais transformadores respeitam uma espécie de sequência andragógica. Eles entendem que adultos aprendem quando determinadas condições são construídas na ordem certa.

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Primeiro vem a Conexão Empática: antes de qualquer conteúdo, as pessoas precisam sentir que quem está conduzindo a aprendizagem compreende seus desafios, reconhece suas dores e conhece sua realidade. Ninguém se abre para aprender com quem parece não entender o seu mundo.

Depois vem o momento de Objetivo Ampliado: o adulto precisa enxergar para onde está indo. Mais do que apresentar a agenda do treinamento, é preciso ampliar o significado da jornada e mostrar como aquela aprendizagem beneficia não apenas o indivíduo, mas clientes, equipes e o próprio negócio.

Em seguida, acontece a Apreciação: as pessoas precisam perceber que já possuem repertório, experiências e histórias de sucesso que merecem reconhecimento. Aprendizagem adulta não começa em uma folha em branco. Ela começa valorizando o conhecimento que cada participante já traz consigo.

Só então introduzimos o Desafio que é o momento de criar uma tensão positiva. Apresentar mudanças de mercado, novas demandas dos clientes e resultados que exigem novas capacidades. Porque ninguém muda simplesmente porque recebeu uma informação nova. As pessoas mudam quando percebem que os antigos modelos já não são suficientes.

A partir daí, chegamos à Aprendizagem propriamente dita. Agora, sim, existe abertura para aprofundar conhecimentos, desenvolver habilidades, experimentar ferramentas e construir novos comportamentos.

E a jornada chega ao ápice com o Impacto, afinal o aprendizado só se consolida quando o participante estabelece um compromisso de mudança a partir da transformação que aquilo pode gerar em seus resultados, em seus clientes e em sua própria trajetória profissional.

Perceba a lógica: primeiro criamos conexão, depois significado, valorizamos a experiência existente, provocamos uma necessidade de mudança, ensinamos e, finalmente, geramos compromisso.

O cérebro precisa de tempo para organizar experiências, conectar conceitos e transformar conhecimento em repertório prático. Aprender não acontece apenas durante o treinamento, muito pelo contrário, quase sempre acontece depois dele.

Por isso, conexão não é fazer uma dinâmica divertida ou criar um ambiente descontraído, mas sim desenhar experiências que respeitem a forma como adultos efetivamente aprendem.

Treinamento não é um evento de transferência de conteúdo. É uma sequência intencional de experiências capaz de transformar consciência em comportamento.

5. Concretização: transformar aprendizagem em resultado

Talvez aqui esteja nossa maior fragilidade.

Segundo o Raio-X do Aprendizado no Brasil, apenas 30% das empresas medem impacto no negócio e apenas 29% avaliam mudança de comportamento.

Investimos milhões em treinamento e quase nunca verificamos se algo efetivamente mudou.

As áreas de RH, Educação, DHO e T&D vivem em um ritmo frenético. Um programa é finalizado e logo estamos imersos no próximo, produzindo o próximo conteúdo, organizando a próxima turma ou planejando a próxima convenção. Nessa corrida, muitas vezes deixa-se de fazer o mais importante: parar para entender o impacto que gerado pelo acabou de ser entregue.

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O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Talvez seja por isso que ainda é medido com tanta intensidade aquilo que é fácil (presença, satisfação, horas treinadas) e com tão pouca disciplina aquilo que realmente importa: mudança de comportamento e resultados de negócio.

E esse é, talvez, o maior desafio do profissional de T&D contemporâneo.

O trabalho não é entregar conteúdo. Conteúdo se tornou abundante, acessível e praticamente uma commodity. O trabalho é garantir a transferência da aprendizagem.

É criar condições para que as pessoas consigam aplicar o que aprenderam em sua realidade, sustentem novos comportamentos ao longo do tempo e produzam impacto mensurável para o negócio.

Isso exige indicadores de transferência, participação ativa da liderança, acompanhamento, feedback e reforços ao longo da jornada.

Um treinamento só pode ser considerado bem-sucedido quando atravessa a fronteira da sala de aula e passa a existir na rotina das pessoas.

A questão não é o que as pesoas aprendera. É o que elas passaram a fazer de diferente e que resultados isso produziu?

Conhecimento armazenado tem até valor potencial, mas é o conhecimento aplicado gera valor para o negócio.

O papel da liderança: o combustível que sustenta o movimento

Nenhum modelo de atuação se sustenta sem um modelo de gestão.

Uma empresa cresce a partir do crescimento das suas pessoas e pessoas crescem quando alguém cria contexto, direciona, desafia, acompanha, corrige rota e reconhece evolução.

Treinamento gera consciência, mas é a liderança que gera consistência.

Nenhuma iniciativa de desenvolvimento sobrevive quando a rotina, as reuniões, os indicadores, os rituais e as conversas de gestão apontam na direção oposta.

O sistema sempre vence.

Por isso, desenvolver equipes de vendas é muito menos sobre ensinar técnicas e muito mais sobre criar condições para que novos comportamentos consigam sobreviver.

Líderes não desenvolvem pessoas em uma única conversa, nem em um treinamento. Eles desenvolvem pessoas na forma como conduzem a rotina.

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O ChatGPT apenas coloriu a imagem. Ela é uma ilustração de Alessandra Mateo feita com base numa ferramenta autoral minha que será apresentada no meu livro Vendas Movem o Mundo

Quando planejam antes de agir, criam contexto e clareza, quando se conectam genuinamente, constroem confiança. Quando escutam com atenção, entendem necessidades e potencialidades que os indicadores não revelam. Quando inspiram, dão sentido ao trabalho. Quando geram engajamento, transformam metas em compromissos compartilhados. Quando acompanham e estabelecem acordos, criam responsabilidade e evolução contínua. E, sobretudo, quando desenvolvem consciência, deixam de liderar pela urgência para cultivar autonomia e crescimento sustentável.

O problema é que muitos líderes operam no extremo oposto: improvisam, escutam superficialmente, fazem suposições, generalizam, impõem soluções e vivem apagando incêndios. Nesse cenário, qualquer treinamento vira um evento isolado. O conhecimento até chega às pessoas, mas dificilmente se transforma em comportamento.

O treinamento pode apresentar caminhos, provocar reflexões e instrumentalizar o time, mas é a liderança que cria o ambiente onde a aprendizagem ganha vida. Porque as pessoas não aprendem apenas com aquilo que o líder ensina. Elas aprendem, sobretudo, com aquilo que ele pergunta, acompanha, reforça e pratica todos os dias.

VENDAS MOVEM O MUNDO

As ideias deste artigo serão detalhadamente exploradas no meu novo livro “Vendas Movem o Mundo – Como Treinar Equipes de Vendas para Transformar Potencial em Impacto”, que será lançado em agosto (espero vocês lá na noite de autógrafos).

No CBTD (Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento) eu apresentei essa palestra e em julho faremos uma turma exclusiva para profissionais de T&D de Vendas para mergulhar nesse assunto. Se quiser participar, dá um toque que a gente te envia o material.

Vendas movem o mundo. As pessoas movem as vendas e o Aprendizado move as pessoas.

Bora nessa?

Aquele abraço,

Carol Manciola

Indicadores de gestão comercial: o que os números não te contam.

Resultado é passado. Tendência é o que você pode mudar agora. Saber distinguir os dois é o que separa o líder que cobra do líder que desenvolve.

Quando um líder olha só para o resultado final (venda realizada, meta batida, conversão fechada) ele está olhando para o passado. Útil? Sim. Suficiente? Não.

O resultado sempre diz o que aconteceu. Mas ele não explica por que o time entregou bem, mediamente ou mal. E é exatamente aí que a liderança impulsiona (ou desmotiva).

Resultado x tendência: a distinção que muda a gestão.

Todo líder precisa trabalhar com dois tipos de indicador ao mesmo tempo.

Os de resultados capturam o que já foi: venda realizada, negócios fechados, engajamento percebido, performance consolidada. São indispensáveis, mas revelam os efeitos, não as causas.

Os de tendência mostram o que está em movimento agora: número de contatos, visitas realizadas, propostas apresentadas, indicações geradas, frequência de acompanhamento, produtividade, atrasos, absenteísmo e licenças. Esses são os indicadores que permitem agir antes do resultado piorar, e não só cobrar depois que ele já caiu.

A diferença prática? Sair de uma liderança reativa para uma liderança preventiva.

Um resultado comercial abaixo do esperado tem razões diferentes

Pode haver poucas visitas, baixa geração de propostas, dificuldade de conversão, ausência de indicações qualificadas ou falta de disciplina no acompanhamento da carteira.

Cada uma dessas hipóteses pede uma intervenção diferente:

  • Treinar abordagem e repertório técnico
  • Reorganizar prioridades e agenda
  • Revisar metas intermediárias
  • Reforçar a disciplina de acompanhamento da carteira

O indicador não serve para pressionar, serve para identificar onde o processo está falhando e qual conversa de gestão precisa acontecer.

A mesma lógica vale para gestão de pessoas.

Produtividade caindo. Atrasos aumentando. Absenteísmo subindo. Esses números não são apenas dados administrativos. São sinais sobre energia, foco, clima, maturidade e capacidade de execução do time.

Um aumento de atrasos ou absenteísmo, por exemplo, pode indicar desorganização individual, sobrecarga, desalinhamento, baixa motivação ou problemas de liderança.

Já uma queda de produtividade pode revelar falta de conhecimento, baixa clareza de prioridades, pouca disciplina comercial ou ausência de acompanhamento.

O papel da liderança é interpretar esses sinais com responsabilidade, sem simplificar pessoas a números, mas também sem ignorar o que os números revelam.

A pergunta que fica

Quando a leitura dos indicadores é bem feita, a pergunta deixa de ser “por que a meta não foi batida?” e passa a ser “quais comportamentos, rotinas e condições precisam ser ajustados para melhorar o desempenho?”

Essa mudança de pergunta é o que transforma indicadores em ferramenta de gestão de verdade: sustentam decisões, qualificam feedbacks, orientam planos de ação, e ajudam a construir resultados consistentes sem perder de vista as pessoas que tornam esses resultados possíveis.

Na Conectas, ajudamos líderes a transformar indicadores em ação: com método, prática e aprendizagem real. Fale com a gente sobre nossos programas de desenvolvimento de liderança comercial.

Até a próxima,

Ivan Correa

Por que tá “tão difícil” contratar bons vendedores?

Todo dia alguém me pede um indicação… em toda reunião alguém faz um desabafo:

“Preciso contratar gente pra área comercial… mas tá difícil achar gente boa!”

Quando tento entender mais sobre a vaga, recebo uma lista de desejos: tem que protagonizar, ser resiliente, estrategista, ter disciplina de execução, gostar de aprender, precisa ter visão de negócios, analisar os dados disponíveis e criar planos consistentes, mas tem que ser excelente em executá-los, precisa se adaptar à cultura da nossa empresa e também às necessidades dos clientes, precisar ter repertório vasto, gostar do que faz e não ser reclamão.

Enfim… minha conclusão está sendo esta:

O problema não é o mercado. O problema é a distância entre o mundo em que vivemos e o vendedor que seguimos tentando contratar.

O mundo mudou

Até outro dia, traduzíamos o mundo como VUCA: volátil, incerto, complexo e ambíguo. Até antes da pandemia, a leitura de contexto era de instável, sim, mas ainda relativamente administrável. Planejamento, experiência acumulada e boas práticas davam conta de grande parte das decisões. Em vendas, quem dominava técnica, discurso e relacionamento conseguia navegar.

O COVID mudou todo e o mundo se tornou BANI: frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Cadeias sensíveis, pessoas sobrecarregadas, jornadas confusas, clientes mais defensivos e menos fiéis. Vender passou a exigir mais inteligência emocional, mais leitura de comportamento e mais tolerância à ambiguidade.

Só que isso já ficou para trás.

Hoje, o jogo acontece em um mundo RUPT: Rápido, Incerto, Paradoxal e Emaranhado. Emaranhado porque nada vem separado, organizado ou linear. Tudo acontece ao mesmo tempo. Uma decisão puxa outra. Um movimento do mercado afeta preço, expectativa, comportamento, cultura e relação em cadeia. Não dá para “resolver uma coisa de cada vez”, porque as coisas não se apresentam assim.

E o cliente? Quer agilidade, mas exige profundidade. Quer autonomia, mas espera orientação. Quer preço, mas cobra valor. Quer tecnologia, mas busca conexão humana. Tudo junto, sem manual de instruções.

Nesse contexto, vender deixou de ser execução de processo.

Vender virou gestão de complexidade em tempo real.

E aí está o choque: seguimos tentando contratar profissionais preparados para um mundo previsível, organizado e compartimentado, para atuar em um mundo rápido, paradoxal e emaranhado. O desencaixe é inevitável.

Os dados escancaram isso

O Global Talent Shortage Survey 2025, conduzido pela ManpowerGroup com mais de 40 mil empregadores em 42 países, mostrou que 74 % dos empregadores em todo o mundo relatam dificuldade em encontrar talentos com as habilidades adequadas.

Não é que falte gente: falta de gente preparada para o nível de complexidade atual.

Ao mesmo tempo, estudos mostram que novas contratações frequentemente chegam sem o preparo necessário para o cargo, enquanto as empresas seguem esperando prontidão imediata, sem investir proporcionalmente em formação e desenvolvimento.

Some a isso um erro clássico: o jeito como buscamos. Quando a contratação fica presa a cargo anterior, setor específico e currículo “perfeito”, o funil encolhe artificialmente. Abordagens baseadas em habilidades ampliam significativamente o pool de talentos, mas ainda são exceção. Preferimos reclamar da escassez a revisar nossos filtros.

Antes de falar em falta de vendedor bom, vale encarar uma pergunta desconfortável: bom para qual contexto?

As competências essenciais no mundo RUPT

No B2B, o vendedor que performa hoje precisa:

  • Ler cenário e entender negócio, não só produto
  • Navegar com segurança em comitês de decisão complexos
  • Pensar estrategicamente e sustentar conversas de longo prazo
  • Usar dados, CRM e sinais do funil como instrumento, não como burocracia
  • Escutar de verdade, diagnosticar e provocar reflexão
  • Influenciar sem autoridade formal
  • Sustentar emocionalmente ciclos longos, pressão e negociação dura

Aqui, simpatia ajuda, mas é o repertório que sustenta.

No B2C, as competências mudam, mas não ficam mais simples:

  • Agilidade mental para lidar com volume, velocidade e múltiplos estímulos
  • Leitura rápida de perfil, intenção e objeção
  • Comunicação clara, objetiva e empática
  • Capacidade de gerar confiança em interações curtas
  • Disciplina emocional para lidar com rejeição constante
  • Uso fluido de tecnologia, automação e canais digitais
  • Ritmo, consistência e execução

Aqui, não vence quem fala bem e sim quem entende mais rápido.

O problema é que seguimos tratando essas competências como diferencial, quando elas já são condição mínima de sobrevivência no jogo atual.

Por isso, talvez a pergunta não seja por que está tão difícil contratar bons profissionais de vendas. A pergunta real é: o quanto as empresas estão dispostas a abandonar o discurso do “vendedor pronto” e assumir a responsabilidade de formar, desenvolver e sustentar performance em um mundo emaranhado?

O ponto da virada

Diante desse cenário, tem um ponto que precisa ser reforçado:

NENHUM MODELO DE ATUAÇÃO SE SUSTENTA SEM MODELO DE GESTÃO.

Não é mais o produto. Não é só a estratégia. Não é o discurso bonito sobre cultura. É a capacidade da empresa de orquestrar pessoas em um contexto rápido, paradoxal e emaranhado. Em vendas, isso passa, inevitavelmente, pela forma como o time é liderado.

E é aqui que a conversa fica menos confortável.

Porque, no mundo RUPT, o maior desafio da gestão comercial não é mais motivar no grito de guerra, na palestra inspiradora, nem na pressão nossa de cada dia. Isso não cabe mais na complexidade do jogo atual.

Não é somente sobre CONTRATAR GENTE BOA, é sobre ter líderes comerciais capazes de reconhecer as competências necessárias ao seu contexto, selecionar melhor, formar de verdade, desenvolver continuamente e sustentar emocionalmente quem vende. É criar contexto, dar critério, oferecer direção, construir repertório e garantir apoio quando a complexidade aperta.

Não dá mais para terceirizar performance para o indivíduo e chamar isso de meritocracia.

Quem lidera vendas precisa assumir que resultado é consequência direta de decisões de gente: quem entra, como entra, como é formado, como é acompanhado e até onde é esticado. Pressão sem estrutura gera rotatividade. Motivação sem método vira discurso vazio. Cobrança sem desenvolvimento vira desgaste.

Para ficar BEM claro: contratar bem deixou de ser um problema de RH. E vender bem deixou de ser um problema do vendedor. Esses são desafios de uma gestão comercial madura, conectada com a leitura correta de mundo e disposta a abandonar atalhos.

No mundo RUPT, contratar bem não é sorte: é clareza estratégica, liderança presente e método consistente.

Bateu ai? #tamojuntos

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos temas de palestras para times que treinam e desenvolvem equipes comerciais. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Por que tantas estratégias de ABM falham?

“ABM is B2B”. 

Eu li essa frase no tênis do Sangram Vajre (uma das minhas referências para ABM – Account-Based Marketing) no palco do Inbound 2019 – o que parece um século atrás.

Mas a mensagem segue bem atual: ABM é a base dos negócios B2B. E negócios B2B que vendem baseados em contas existem desde que o mundo (dos negócios) é mundo.

No entanto, com mais e mais tecnologias, IAs, fórmulas prontas e hacks mil, a lógica personalizada e qualificada que deveria ser inerente às relações de negócios B2B deu lugar à escala a qualquer custo – seguida, é claro, pela frustração quando nada disso funciona como prometido.

O primeiro passo para reverter essa frustração é compreender o porquê das falhas. Nesse artigo, vou me aprofundar justamente nas bases dos tantos e tantos casos de falha ao implementar uma estratégia de ABM. Se você enxergar a sua empresa nessas falhas, tá tudo bem, você não está só – e bora reverter esse cenário!

Antes de falar de ABM, vamos falar de B2B como um todo. 

Eu deixei o B2C para trabalhar com negócios B2B há 10 anos, em uma indústria multinacional.

Naquela época, muito do negócio era relacional, com uma geração de demanda mais passiva, com um marketing mais de suporte e uma jornada de compra sales-driven fragmentada e cheia de oportunidades para trabalhar.

O interessante aqui é que, nos anos seguintes (e até agora), eu trabalhei com mais de 20 negócios B2B diferentes. Em multinacional, em consultorias e em startups – em diferentes mercados também. E me deparei, em todos os casos, com desafios muito similares:

  • A dor inicial é: Funil muito instável e pouco previsível;
  • Sustentado por um desalinhamento estratégico e operacional entre marketing e vendas – e CS, que muitas vezes é esquecido na equação;
  • Os times atuam com uma segmentação de clientes inadequada  – e direcionamento de recursos também;
  • Que reflete na jornada padronizada e zero personalizada;
  • Com muito foco em aquisição e pouco foco em retenção de clientes;
  • Sem se preocupar com a gestão do conhecimento – sobre clientes, processos, dados….

Essas dores, em mercados estáveis e com poucos players, até pouco tempo não eram tão gritantes. Mas, nos últimos anos, a situação mudou – e continua mudando por dois motivos que parecem óbvios na teoria, mas seguem incomodando na prática: os clientes B2B seguem mudando cada vez mais rápido e a jornada de compra está cada vez mais complexa. 

1. Os clientes B2B seguem mudando cada vez mais rápido: 

Todo mundo sabe que, com o atual contexto digital e com o aumento de possibilidades, os clientes (no B2C e no B2B) hoje são muito mais informados, possuem muito mais possibilidades de solução e possuem o poder de barganha na relação de negócios.

>> NA PRÁTICA, ISSO SIGNIFICA QUE: com mais informações e opções de compra, a expectativa das pessoas e empresas clientes segue cada vez mais alta. Segundo o Sales Force, 92% das pessoas compradoras de negócios B2B querem uma experiência tão encantadora como se estivessem comprando no B2C. E, além disso, 94% das pessoas (pasmem) querem ser tratadas como PESSOAS, e não como números. 

>> MAS, POR ALGUM MOTIVO, muitas empresas seguem ignorando essa tendência e apostando em um playbook antigo centrado no produto (e não nos clientes). Com isso, acabam usando a tecnologia para ampliar esse padrão, oferecendo uma mesma oferta para clientes que não necessariamente precisam dos seus produtos.

Apesar de não faltarem dados e evidências que nos apontem que precisamos adotar estratégias mais personalizadas e centradas nos clientes (como ABM), por que algumas empresas ainda insistem em tratar os clientes do jeito que nós não gostamos de ser tratados?

2. A jornada dos clientes está cada vez mais complexa:

Também não é novidade pra ninguém que as jornadas de compra estão cada vez mais complexas, com mais e mais possibilidades, canais, informações, mudanças e players para seus clientes analisarem e escolherem.

NA PRÁTICA, ISSO SIGNIFICA QUE… os nossos clientes dominam boa parte da jornada de compra. ,Com tantas opções, informações e caminhos, é deles o poder de barganha, usando múltiplos canais, envolvendo mais pessoas e pedindo por mais fluidez, geração de valor e encantamento na jornada ponta-a-ponta.

> MAS, POR ALGUM MOTIVO… A jornada interna que se conecta a essa jornada está cada vez mais fragmentada, desalinhada e cheia de fricções. A complexidade externa resultou em uma complexidade interna que privilegiou a especialização do que integração entre os times. As áreas de marketing, vendas, CS, operações e produto se fragmentaram em várias subáreas que, além de não se conectarem entre si, também não se conectam bem com seu entorno.

O desalinhamento entre marketing, vendas e outras áreas de uma empresa é a maior evidência de falta de centralidade no que importa: O CLIENTE.

Dados não faltam para mostrar as consequências (De gente que passa a vida pesquisando):

  • Apenas 0,75% dos leads viram clientes (Forrester);
  •  <2% de cold calls viram reuniões (LeadJob);
  • -63% é a redução da conversão de um deal guiado apenas por vendas (Gartner);
  • +74% é o avanço médio da jornada de compra de um cliente B2B até entrar em contato com vendas (Gartner)

Adicionando um pouquinho mais de caos nesse cenário, esses desafios se intensificam quando fazemos o recorte de vendas complexas B2B pra grandes contas, ou seja:

  • Ciclo de vendas longo, de 3 meses a 2 anos;
  • Alto ticket médio ou LTV – o que significa que é uma venda de alto risco para o cliente,
  • Por esse motivo, são várias as pessoas da empresa que são envolvidas ao longo da jornada de compra;
  • E, para nutrir esse relacionamento, o CAC (Custo de Aquisição) para esses clientes é tão alto quanto o potencial retorno financeiro (LTV) para a empresa.

Deveria ser óbvio, mas não é: Quanto mais complexa for a jornada do cliente, mais complexa e arriscada é a venda (o risco é de tempo, de recursos e de dinheiro – dos dois lados).

Concorda comigo que, nesse cenário, não dá pra jogar a rede e esperar a maior quantidade de peixes, né? Não podemos tratar clientes de forma igual, fragmentada e desalinhada.

Para diminuir o risco das vendas e conquistar e criar relações de confiança que queremos com os clientes, precisamos tornar a jornada mais conectada, fluida e personalizada possível.

É aqui que entra o ABM (Account-Based Marketing).

O que eu aprendi sobre ABM há 10 anos

Claramente, o contexto B2B que enfrentei em diferentes empresas não estava funcionando e, ao pesquisar por caminhos de solução, eu encontrei o ABM como a estratégia salvadora da pátria.

De 10 anos pra cá, nos meus primeiros contatos com conteúdos da Engagio e da Terminus (e outras fontes que conheci desde então), aprendi que ABM é uma estratégia de marketing hiper personalizada e voltada para vendas complexas, focada em contas-alvo pré-definidas de acordo com o seu Perfil de Cliente Ideal (o tal do ICP). 

Quando comecei a estudar sobre o assunto, essa era uma estratégia que parecia simples e lógica, com 5 passos definidos para o sucesso:

Mas, tal como já vi com outras estratégias e métodos da moda, na hora de colocar essa metodologia pra rodar na prática, alguma coisa se perdia e, via de regra, o que eu mais ouvi – e continuo ouvindo muito – foi que “ABM não funciona” ou “ABM não gerou nenhum resultado”ou ainda que “ABM não é pra mim”.

Mas… se esse é o passo a passo, porque tem tanta empresa frustrada com ABM?

Mas então por que as estratégias de ABM falham tanto?

Em vários anos aplicando ABM em diferentes contextos e hoje mentorando empresas na implementação de estratégias de ABM, vivenciei os meus aprendizados mais de uma vez, então reforço eles aqui para você não sofrer como eu sofri, rs.

Eu organizei esses aprendizados em 7 modos de falha que, na minha visão, fazem com que as estratégias de ABM não funcionem na prática – e também sugiro ações para evitar que eles aconteçam:

>> Modo de falha 1: Tratar ABM como receita de bolo. 

Se as bases do ABM são personalizaçãohumanização e vendas complexas, não é meio paradoxal tratarmos ABM como uma receita de bolo pronta pra replicarmos? Eu acredito que ABM é menos uma fórmula mágica e mais uma mentalidade de longo prazo. Não é só uma play pontual, seguindo o passo a passo, que vai fazer com que a gente se conecte com a conta que estamos buscando, mas sim, a mentalidade de personalização e construção de relacionamentos.

>> Modo de falha 2: Identificar ICP e contas-alvo no achismo (e na preguiça mesmo) 

Essa pode ser uma armadilha muito comum em ABM. Às vezes, a gente acaba escolhendo contas com uma análise genérica e pouco aprofundada, e isso pode nos levar a investir tempo e recursos em contas que não têm tanto fit com nosso negócio. Uma das consequências é que, na preguiça, as empresas estão todas indo nas mesmas 500 grandes contas dos rankings de Forbes, Valor e Exame, saturando os contatos dessas contas. O que muitas vezes a gente não vê, são as oportunidades em um monte de contas tão relevantes quanto, com ótimo fit para o negócio e que são menos high profile.

>> Modo de falha 3: Esquecer os CPFs dentro dos CNPJs

É importante lembrar sempre: nossos clientes, além de empresas, são feitos por pessoas. No segundo “B” do B2B tem um monte de “C” junto: precisamos entender e personalizar a jornada para AS PESSOAS dentro das contas que queremos conquistar, tal como se faz no B2C. Se dedicamos tempo suficiente em conhecê-las, nossa estratégia de ABM agradece!

>> Modo de falha 4: Achar que ABM se faz só em marketing. 

Eu sei que o nome sugere, mas pensar que ABM é uma estratégia exclusiva do marketing na verdade pode limitar o impacto que ela pode ter. ABM é uma abordagem colaborativa que envolve marketing, vendas, CS, produto, e quem mais estiver envolvido na jornada do cliente, trabalhando juntos para personalizar e nutrir o relacionamento com as pessoas.  Eu acredito que ninguém é mais dono das estratégias de ABM do que todo mundo junto. Pra mim, poderíamos trocar “Account-Based Marketing” por “Account-Based Business” rs.

>> Modo de falha 5: Áreas desintegradas e desalinhadas. 

Não há estratégia de ABM que funcione com uma guerra velada entre marketing e vendas (e CS, produto, por aí vai). Se ABM é uma estratégia colaborativa onde várias áreas trabalham juntas, é mais do que importante que essas áreas estejam alinhadas e integradas antes mesmo de começar. Inclusive, muitas empresas vêm acabando com a separação entre as áreas de marketing e vendas, criando uma área de “revenue” onde todos trabalham olhando para as mesmas métricas.

Áreas no mesmo time ou não, é fundamental compreendermos as diferentes perspectivas de cada área envolvida, equilibrar suas diferentes necessidades e o que esperam com a estratégia, criar metas em conjuntos e estabelecer processos que funcionem pra todos. Ufa! Paz, né? Aliás, falei sobre isso com o Denis Garcia, Head de Grandes Contas na área de Sales Solutions do LinkedIn. Espia esse papo aqui!

>> Modo de falha 6: Não organizar a casa antes de iniciar a estratégia de ABM

Por “organizar a casa”, entenda: proposta de valor, dados, CRM, processos, SLA… As bases de uma operação de ABM bem sucedida sempre são deixadas “pra quando der”, como se fosse uma perda de tempo. Mas estabelecer uma estrutura mínima é fundamental para que a estratégia de ABM não tropece em desalinhamento, retrabalho e ineficiência antes mesmo de começar.

Essa estrutura mínima, por sua vez, engloba:

  • Proposta de valor e PMF validados para grandes contas: Não há estratégia de ABM que funcione sem uma proposta de valor validada e alinhada entre as áreas.
  • Visão integrada de processos, métricas e jornada do cliente: Todos devem ter a mesma visão sobre a jornada do cliente, critérios de qualificação, KPIs, SLA e outros processos que conectam as áreas.
  • Gestão do conhecimento integrada e atualizada: As informações sobre clientes, contas, contatos, KPIs, insights, resultados de plays, etc devem estar integradas e acessíveis para todos.

>> Modo de falha 7: Tentar mudar a estratégia completamente do dia pra noite. 

Implementar ABM é um processo que exige adaptação e ajustes contínuos. E o mais importante: que afeta o funil de vendas, por isso requer uma transição bem feita. Ao invés de tentar mudanças drásticas de uma só vez, acredito que é mais eficaz fazer mudanças graduais. Realizar testes, documentar os resultados e aprender com eles permite ajustes precisos no que não está funcionando tão bem, facilitando o crescimento sustentável e consistente dessa abordagem ao longo do tempo.

Tá, e daí? E como evitar esses modos de falha em ABM?

Se a 10 anos atrás a definição de ABM que eu tinha era de um processo simples e lógico, hoje essa definição mudou pra mim:

ABM é uma mentalidade de longo prazo, voltada para vendas complexas baseadas em contas, que envolve todos os times de negócios e humaniza e personaliza relações B2B pra guiar o crescimento centrado nos clientes. 

Evitar essas armadilhas requer um olhar mais atento para como o ABM deve ser implementado na prática. Isso passa por criar uma cultura de personalização e integração real entre as áreas, alinhar objetivos, desenvolver ICPs baseados em dados reais e estruturar um plano de longo prazo para construção de relações.

Os 7 mandamentos do Departamento de Prevenção a Vendas

O Departamento de Prevenção a Vendas (ou DPV para os conhecidos) pode parecer uma piada boba, mas é bem real.

Derivado do Departamento de Prevenção a Inovação, o DPV  é um conhecido de todos nós. Possui representantes e aliados infiltrados nas mais diversas áreas e níveis hierárquicos. E, apesar de todo mundo reclamar da sua atuação, muitas vezes esse é o departamento que mais cresce nas grandes empresas.

Quando paramos para analisar, vemos que o DPV se faz presente mais frequentemente do que se imagina, faz parte do nosso dia a dia e estamos mais acostumados com ele do que gostaríamos.

Reclamamos dele quando um cliente não avança na jornada, quando não recebemos apoio ou quando encontramos obstáculos absurdos para fechar negócios e gerar receita.

Num primeiro momento, a simples existência do DPV não faz o menor sentido – e, por esse motivo, causa tanta revolta e conflitos nas organizações.

Afinal, por que ter tanta gente jogando na contramão das vendas dentro das empresas?

Nós esquecemos que o DPV não atua de forma proposital com o intuito de atrapalhar as vendas e o crescimento das organizações.

Ele apenas faz parte e é um reflexo da complexidade inerente às empresas: quanto maior, mais cheia de cargos e silos é a estrutura, maiores são as amarras para garantir alinhamento e manter no mesmo barco todas as partes que compõem a empresa.

No entanto, aquilo que muitas vezes é criado para proteger e alinhar acaba emperrando as engrenagens e colocando em risco o futuro da organização.

Agora, não é porque algo é inerente à estrutura que não deve ser combatido ou ressignificado para se adaptar melhor a um novo contexto.

Por esse motivo, de forma descontraída (porém bastante fidedigna), mapeei com base na minha experiência os 7 mandamentos do Departamento de Prevenção a Vendas, mandamentos esses que precisamos conhecer e reconhecer para poder atuar sobre eles na transformação das organizações do futuro.

Mandamento 1: Não se misturarás.

Quanto maior é a empresa, mais dividida em silos ela é.

E o DPV não só gosta de formar silos, como trabalha para mantê-los desconectados entre si.

Cada silo define suas prioridades e metas de acordo com o seu escopo, muitas vezes gerando direcionamentos contraditórios e ineficientes. Esse distanciamento leva ao crescimento do DPV, que não enxerga a quantidade de retrabalho, desalinhamento e inércia do negócio gerados por ele.

O conflito se agrava quanto mais distante a área for do cliente, mas não precisamos ir tão longe assim: afinal, quem aqui já não viu (muita) venda perdida por conta da falta de integração entre marketing, vendas e CS?

Exemplos não faltam: marketing cria campanhas sem consultar vendas, resultando em leads que não correspondem ao perfil ideal de cliente. Vendas, por sua vez, reclama da baixa qualidade dos leads, mas não fornece feedback estruturado ao marketing, perpetuando o ciclo de ineficiência.

E tudo isso desemboca em um CS tão afastado que toma o ônus do churn de clientes completamente fora do perfil, e por aí vai…

Mandamento 2: Criarás políticas para tudo.

Membros do DPV não podem ver nenhum vestígio de ideia nova ou de processos novos.

Quando isso acontece, surge no departamento um desejo incontrolável de criar políticas para controlar cada potencial novidade.

O DPV acredita que a criação de uma política para qualquer mudança é uma forma de controlar o processo e diminuir riscos. No entanto, essa burocracia se transforma em uma barreira enorme à experimentação de novas abordagens, dificultando a aprovação e adoção de novas práticas.

Para exemplificar, não tem nada melhor do que os inúmeros casos de implantação de CRM. Muitas vezes há tantas amarras e políticas para customizar o uso de um CRM que o engessamento compromete justamente a sua função básica: fazer a gestão real do relacionamento dos clientes.

Mandamento 3: Jamais mexerás em time que está ganhando.

O velho ditado “em time que está ganhando não se mexe” é um mantra do DPV.

A melhor proteção a qualquer nova iniciativa é se apoiar nos bons resultados que trouxeram a empresa até aqui. No entanto, o ritmo das mudanças no contexto digital põe em cheque qualquer estabilidade, e a resistência à mudança inerente ao DPV pode resultar em uma empresa que se torna míope e incapaz de se adaptar a novas oportunidades.

Aqui se encaixam todas as empresas que morrem abraçadas no “eu sempre vendi sem precisar de algo novo” e perdem completamente o timing de atribuir novos elementos-chave na operação para acompanhar as necessidades dos próprios clientes.

Mandamento 4: Quando em dúvida, sempre dirás não.

O DPV adora dizer “não” a qualquer necessidade ou iniciativa que altere o rumo atual das coisas.

O “não” é confortável, dá menos trabalho e protege de futuros problemas. No entanto, esse comportamento inibe a conexão, a construção colaborativa e a inovação. Enquanto o DPV diz “não”, o time de vendas deveria perguntar “por que não? E se…”.

Aqui moram todas as ideias que pessoas de vendas já trouxeram para a matriz com base na sua vivência contínua no campo, mas que simplesmente não encontram uma boa alma apoiadora do povo do escritório que nunca interagiu com um cliente sequer.

Mandamento 5: Não aceitarás erros.

O DPV não aceita erros. Esse departamento exige muito planejamento e pouca execução para garantir o “fazer certo da primeira vez”.

Isso resulta em excesso de planejamento e pouco teste prático, o que pode levar a descobertas tardias e custosas. Além disso, um ambiente que não tolera erros inibe a criatividade e a possibilidade de encontrar novos caminhos para resolver problemas.

Essa intolerância ao erro não só mata na raiz várias ideias diferentes para vender mais, como também aumenta a perda de timing com excesso de planejamento de novos produtos que nunca envolveram um teste sequer com usuários reais.

Mandamento 6: Deixarás os projetos morrerem no papel (ou no ppt).

Em raros momentos, o DPV até dá corda a algumas novas iniciativas. No entanto, sem flexibilidade nos mandamentos, a inovação não passa de um voo de galinha.

A criatividade e euforia das novas iniciativas morrem em uma apresentação de PowerPoint quando a implementação não tem o investimento necessário. Isso gera frustração, descrédito e minimiza a chance de novas brechas para vender de forma centrada no cliente.

Já vi isso acontecer com inúmeras ideias e iniciativas geradas ou apresentadas em uma convenção de vendas, por exemplo, mas que depois não recebem o investimento necessário e, assim como outras, morrem na promessa.

Mandamento 7: Não ouvirás.

Esse é o mandamento mais danoso do DPV.

Certo de suas convicções, o DPV não sente a necessidade de absorver outras opiniões, especialmente as que diferem das suas. Isso diminui as chances de antever e identificar mudanças de contexto e comportamento do cliente, aumentando a miopia da operação e da empresa como um todo.

Esse mandamento é especialmente presente nas pessoas “mais velhas de casa”, aquelas que acham que sabem mais sobre os clientes do que os próprios clientes e que, por conta disso, preferem ver o barco afundando ao invés de dar ouvidos a novos insights que podem tapar o furo por onde os clientes estão vazando.

Existe um DPV dentro de cada um de nós.

Em muitos casos, a inibição causada pelo DPV é tão forte e enraizada que é como se uma parte dele fosse parar dentro de cada pessoa. Na mesma hora em que alguém pensa em uma nova ideia, essa mesma pessoa já se poda mentalmente:

“Não vai dar certo”;
“É muito arriscado”;
“Não vale a pena”;
“Eu nem sou uma pessoa criativa”;
“Ninguém vai aprovar – nem eu”.

Muitos de nós fomos criados e desenvolvidos sob uma lógica mais industrial de padronização, eficiência e produtividade.

Desde a escola até as grandes empresas, os incentivos e reconhecimentos reconhecem um mesmo padrão de sucesso e penalizam caminhos que aparentemente fogem do “normal”. Com isso, nada mais lógico do que a nossa própria mente inibir qualquer pensamento, ideia ou comportamento mais “fora da caixa”.

Por esse motivo, o combate ao DPV começa com a chance que a gente dá para nós mesmos de acreditar que podemos inovar, vender e resolver a dor dos nossos clientes. Enfrentar nossas inseguranças, nosso medo de errar e propor algo novo é o primeiro e mais difícil passo. É uma quebra de inércia importante e, depois que a gente começa, é igual vaso quebrado: é um caminho felizmente sem volta =)

Mas… Depois de enfrentar o nosso DPV individual, ainda há uma boa caminhada…

Para combater o DPV, é preciso uma maratona (e não um tiro curto).

Água mole em pedra dura. Tanto bate, até que… Muda.

Muitas vezes, no desespero de bater as metas de vendas, a pressão por ideias inovadoras aumenta com promessas milagrosas de trazer novos caminhos para resolver problemas que não encontraram solução até agora.

Receitas prontas, gurus, hacks e buzzwords surgem aos montes e não surpreendentemente dão errado por subestimar o tamanho do problema. Não por menos, o Departamento de Prevenção a Vendas tem uma casca dura cheia de hierarquia, tradição e burocracia para resistir às mudanças.

Isso acontece justamente porque, apesar de exigirem desesperadamente a solução, nem sempre as empresas querem aceitar as mudanças necessárias para chegar até ela.

E aí não tem milagre: não tem como esperar diferentes resultados seguindo a mesma receita do DPV.

E o resultado disso é uma frustração coletiva: tanto quem queria a solução inovadora e não conseguiu, como quem achou que poderia testar novos caminhos e foi podado logo nos primeiros passos.

Como enfrentar o DPV na prática?

  1. Comece empatizando com o DPV: Do mesmo jeito que dizemos que o DPV não é empático e não escuta pontos de vista diferentes do seu, não podemos achar que vamos enfrentá-lo sem entender suas dores, necessidades e motivações. As pessoas que atrapalham as vendas certamente não fazem isso de propósito – alguma razão há de ter para essas fricções no meio da jornada. Por isso, calçar os sapatos dessas pessoas é o primeiro passo para encontrar um denominador comum que pode ser mais vulnerável e suscetível a mudanças.
  2. Una forças contra o DPV: Igual a você, certamente há outras pessoas e outros times com perfil mais “early adopter” e com vontade de explorar coisas novas. Quebrar a estrutura de silos é fundamental não só para unir forças, mas também para identificar necessidades em comum e pontos de melhoria na integração entre as áreas.
  3. Sustente-se com dados e fatos: Perfis mais resistentes à mudança só cogitam dar abertura a novos caminhos se possuem exemplos de outros “bois de piranha” que já testaram essas águas e saíram dela melhores do que entraram. Apresentar cases de sucesso de empresas similares e pesquisas de institutos renomados com dados que atestam o caminho proposto são um ótimo primeiro passo para baixar a guarda do DPV.
  4. Apresente um plano para seu teste: Ao invés de apresentar uma nova ideia ou mudança como algo sistêmico e que veio para ficar, proponha um experimento com boas condições de contorno (para diminuir a insegurança e a sensação de risco) e com potencial de impacto de curto prazo. O DPV tende a ser bem menos resistente a passos menores, menos disruptivos, na condição de teste inicial e que gerem resultados incrementais de curto prazo.
  5. Plante o resultado como erva daninha: No final, tudo muito quer resultado. Por esse motivo, quando você consegue demonstrar de forma prática que as suas novas ideias realmente geram um impacto positivo nos resultados da empresa (principalmente nas métricas ligadas às pessoas do DPV), aquilo que você começou como teste e projeto inicial se transforma no novo “boi de piranha” dentro da empresa e, uma vez demonstrado o resultado, outros times vão querer testar se a água é quentinha mesmo. O impacto da inovação, com isso, vai se alastrando como erva daninha e, aos poucos e de forma consistente, desmantela o DPV sem ele nem perceber.
  6. Se der errado, aprenda, itere e tente de novo: Muito provavelmente nem toda nova ideia vai dar certo e aceitar que esse processo iterativo faz parte é um ponto de inflexão muito importante para desenvolvermos nossa resiliência na jornada de vendas. Não desista nem na primeira e nem na segunda: deixe que essa trajetória, por si só, faça parte do seu aprendizado e da construção do seu resultado de vendas.
  7. Saiba reconhecer (e aproveitar) o que há de bom no DPV: Como tudo na vida, no DPV não há só coisas ruins. Há aspectos do DPV que são positivos quando aplicados no momento e no desafio correto. Padrões, processos e documentações são muito úteis na organização de partes da operação de vendas que são mais estáveis, repetitivas ou com pouca tolerância ao erro (como quando lidamos com dados dos clientes, por exemplo). Reconhecer que nem tudo é inovação e que há utilidade no DPV é também uma forma de diminuir a resistência e alcançar um estágio de convivência pacífica e complementar.

Sabemos que os desafios de vendas não se resolvem num tiro de 100 metros: eles são colhidos ao longo de uma looooonga maratona que a gente escolhe percorrer na direção e ao lado dos nossos clientes. Por isso, a batalha contra o DPV não se vence do dia para a noite: ela precisa, acima de tudo, de abertura, de resiliência e de uma provocação saudável e consistente ao status quo.

Talvez seja hora de trocar o “jeito que sempre foi” por um novo jeito na sua empresa. 

Na Conectas, a gente desenvolve os times e as lideranças que movem as vendas – com experiências de aprendizagem vivas, customizadas e adaptadas ao contexto dos times, da empresa e do mercado.​

Técnica de vendas: prescrição ou construção coletiva?

Durante os últimos 18 anos, boa parte do meu trabalho foi desenhar (ou ajustar) técnicas de vendas para empresas de diferentes segmentos. Já criei playbooks do zero, atualizei modelos antigos, redesenhei rituais de gestão e até ajudei a “desmanchar” metodologias que mais atrapalhavam do que ajudavam.

Nos últimos meses, tenho conversado com muito clientes que chegaram até mim exatamente com essa demanda.

A angustia é quase sempre a mesma: se a gente não tem uma noção de COMO fazer dar certo, como vai promover ajustes?

Um “Jeito de Vender” certamente traz referência, direção e ajudar gestores no processo de formação e desenvolvimento. Essas tantas conversas me inspiraram a vir aqui, compartilhar um pouco mais minha visão sobre o tema.

Benefícios de uma Técnica de Vendas própria e estruturada

Uma técnica de vendas bem construída traz clareza, reduz dispersão, facilita o onboarding, melhora a previsibilidade dos resultados e ajuda o cliente a ter uma experiência mais consistente com a marca, independentemente de quem o atende. Esses já motivos suficientes, ao meu ver, para investir num modelo de atuação para sua equipe.

Além disso, ter um “Jeito de Vender” da sua empresa se torna um processo ainda mais estratégico quando:

  • o time cresce rápido e precisa de uma base comum de atuação;
  • os resultados variam demais entre vendedores e há dificuldade de escalar boas práticas;
  • o discurso comercial está desalinhado entre canais ou com o marketing;
  • a empresa quer fortalecer sua cultura de vendas e ter uma atuação mais consultiva ou orientada por dados.

Dados de um estudo do Sales Management Association mostram que organizações com processos de vendas bem definidos e documentados têm performance até 33% maior que aquelas que operam sem um modelo estruturado.

Um dos cases mais incríveis que liderei, a adoção do Modelo Comercial gerou um aumento de 46% nas vendas de um banco de varejo (e mensuramos os dados com grupos de controle): a dedicação às atividades comerciais cresceu, pois começou a contar com orientação e apoio dos gerentes de agência, o time incluiu na rotina a gestão da carteira e  se sentiu mais seguro para aumentar o contato com os clientes com objetivo de conhecer suas necessidades e não somente oferecer produtos. Um modelo comercial promoveu uma grande mudança cultural na empresa.

Mas afinal, o que é uma técnica de vendas?

Uma maneira de explicar o que é uma técnica de vendas é começar dizendo o que ela não é: uma técnica de vendas não é um script único e imutável e muito meno um teatro corporativo onde todo mundo fala igual, age igual, ou força intimidade com o cliente porque leu que isso “gera conexão”. Não é sobre controlar o time, é sobre permitir que o que dá certo seja repetido com consciência, adaptado com inteligência e praticado com intenção.

Uma técnica de vendas é um conjunto de práticas organizadas, orientações claras, perguntas estratégicas, estratégias de abordagem e critérios de tomada de decisão que ajudam o time comercial a atuar de forma consistente diante de contextos diversos. Ela é um fio condutor, uma linguagem comum, um referencial.

A técnica é o que permite institucionalizar o que funciona. Formalizar o que já traz resultado. Criar um caminho de aprendizado e evolução, especialmente quando novos vendedores chegam, quando o mercado muda ou quando os clientes passam a comprar de outro jeito.

Ela não ignora a complexidade do dia a dia. Ao contrário, quando bem construída ela parte exatamente dessa complexidade e considera tantos os desafios internos, quantos os internos (ou na sua empresa todos os desafios se resumem ao comportamento do time de vendas?).

Ingredientes importantes

Não existe uma receita pronta para criar uma técnica de vendas, mas existem ingredientes que não podem faltar. Selecionei aqui os que considero mais imprescindíveis e, mais do que listá-los, vou deixar algumas dicas de como colocá-los em prática:

  • Mergulhe na realidade: antes de pensar no “como fazer”, entenda o que está atrapalhando quem faz hoje. Acompanhe o time em campo (visita, call, loja, rota, showroom… onde quer que a venda aconteça). Observe também o que impede o vendedor de vender (os desafios da própria empresa): sistema que não funciona, logística falha, ruptura de estoque, política comercial confusa, tabelas que mudam sem aviso, metas mal explicadas e processos que só funcionam no slide. Envolva os clientes nesse mapeamento para entender o que eles valorizam e o que não admitem mais na relação com fornecedores como a sua empresa. É aí, nesse cruzamento entre o que o cliente precisa e o que o vendedor enfrenta, que começa a construção de uma técnica realista e eficaz.
  • Envolva o time: ninguém adere ao que não ajudou a construir. Por isso, antes de sair desenhando fluxos e etapas ideais, sente com quem está na trincheira e ouça com abertura. Pergunte o que já funciona bem, o que poderia melhorar, o que parece repetitivo e o que é ponto de tensão com o cliente. Transforme as boas práticas reais em boas práticas visíveis. Teste conceitos com o time, convide para pilotos, peça feedbacks e trate o campo como coautor, não como executor de algo pronto. Quando o time percebe que tem voz na construção, o nível de compromisso muda completamente.
  • Modele a liderança: nenhuma técnica se sustenta sem gestão. Quem transforma método em hábito é a liderança. E se tiver que escolher por onde começar, comece por eles. Treine os líderes antes do time, mostre o racional por trás da mudança, envolva-os na construção dos rituais de acompanhamento. Faça com que o discurso e a prática estejam alinhados: se o líder não faz 1:1, se não acompanha o funil, se não dá feedback de campo, a técnica morre no segundo mês. Os melhores métodos não são sustentados pela área de treinamento, e sim pela rotina de gestão.
  • Dê propósito ao método: ninguém resiste à mudança quando entende o sentido dela. Explique por que vocês estão mudando a forma de vender, o que isso resolve, quais são os ganhos para o vendedor e o que muda na jornada do cliente. Mostre que o objetivo não é controlar, é apoiar. Use dados para embasar, depoimentos de quem já aplicou, e mostre o impacto real que a técnica pode ter nos resultados e no relacionamento com o cliente. E lembre-se: se o time não entender o porquê, vai resistir ao como.
  • Crie condições reais de prática: técnica não é palestra. Não adianta treinar e depois jogar o time de volta à rotina sem nenhum reforço. A nova forma de vender precisa aparecer nos encontros de time, nas reuniões de pipeline, nos roteiros de simulação, nos feedbacks dos líderes e até nas campanhas de incentivo. Treinar é só o primeiro passo. O que sustenta é a prática repetida, corrigida, reconhecida. É preciso um ambiente que permita errar, ajustar, testar de novo. Técnica só vira comportamento quando é reforçada com consistência.
  • Simplifique, mas não superficialize: um bom modelo comercial precisa ser claro, direto e aplicável. Evite siglas complicadas, etapas que ninguém entende e conceitos que só funcionam na cabeça de quem criou. Use uma linguagem próxima, conectada com o campo, e deixe evidente o que se espera em cada fase do processo. Técnica não é para mostrar sofisticação, é para orientar a ação. Um bom modelo não é o mais bonito no slide, é o mais útil no dia a dia. Se precisar de uma apostila para explicar, talvez esteja complexo demais.
  • Respeite estilos, alinhe princípios: cada vendedor tem sua maneira de se relacionar, de abordar, de engajar. E isso é bom. O que não dá é para cada um seguir por um caminho sem alinhamento com o que a empresa quer construir. O papel da técnica é garantir coerência de experiência para o cliente, sem podar a autenticidade do vendedor. Estabeleça princípios inegociáveis como ouvir o cliente antes de oferecer solução, registrar no CRM, fazer follow-up de forma estruturada  e permita que o como seja adaptado, desde que o o que e o por quê estejam bem definidos.
  • Revise e ajuste com frequência: o mercado muda, o cliente muda, sua empresa muda, e o time também. Um modelo de vendas que funcionava há dois anos pode estar obsoleto hoje, não porque era ruim, mas porque o cenário é outro. Por isso, trate sua técnica como algo vivo. Avalie o que está funcionando, o que precisa ser ajustado, e onde o time está desviando porque encontrou um jeito melhor. Ouça o campo, acompanhe os dados e esteja disposto a revisar, não por modismo, mas por coerência com a realidade.

Técnica boa nasce da prática e se adapta à realidade. Quer implantar uma técnica de vendas que funcione de verdade? Comece onde ela acontece: no campo.

Bora bater meta!

Quanto você tem de orçamento? As oportunidades não declaradas que movem o ponteiro das vendas

Por Carol Manciola

Uma das maiores armadilhas para quem vende no mercado B2B é olhar para os números sem olhar para o cliente. A gente analisa taxa de conversão, taxa de recompra, ciclo médio de vendas… mas tudo isso costuma considerar apenas o que já está dado: o orçamento declarado, a necessidade exposta e a demanda formalizada. O problema é que, nesse modelo, desperdiçamos um mundo de oportunidades, não por falta de competência técnica, mas por falta de intimidade com o negócio do cliente.

Quando foi a última vez que você entendeu de verdade como o seu cliente ganha dinheiro? Ou como ele mede sucesso? Ou ainda: o quanto a sua solução de fato contribui para isso?

Vender bem não é só sobre técnica de fechamento. É sobre perceber o que está em jogo. E acredite: muitas vezes, o maior desafio do vendedor B2B não é apresentar a proposta: é descobrir de onde estão as oportunidades de ajudar o cliente a ganhar mais, gastar menos, performar com ajuda daquilo que você vende.

Existe venda além do Share of Wallet

Share of Wallet é a fatia do orçamento que um cliente já destina a uma determinada categoria de produto ou serviço e quanto disso ele compra de você.

Em outras palavras: se o cliente gasta R$ 100 mil por ano com treinamentos e compra R$ 30 mil de você, seu share of wallet é 30%. O objetivo é aumentar essa participação, conquistando espaço que hoje está com concorrentes.

Um estudo recente da 6sense mostrou que 81% dos compradores B2B já têm um fornecedor preferido antes mesmo de falar com o time de vendas. E mais: 68% preferem pesquisar por conta própria. Ou seja: quando o cliente fala com você, ele já sabe o que quer ou já decidiu no que vai gastar. E se você só pergunta “quanto você tem de orçamento?”, provavelmente vai ouvir uma resposta rasa. Porque ele também ainda não percebeu o que poderia alcançar com a sua ajuda.

Ao longo da minha trajetória, comecei a perceber que existe venda além do Share of Wallet. Ele é importante e desafiador, mas não devemos nos restringir a ele. Quando você aprende a fazer Gestão de Contas de verdade começa a entender que existem outras camadas que podem ser exploradas: o Share of Life e Share of Impact.

Durante anos, meu foco era entender quanto a área de T&D de uma empresa tinha orçado para treinamentos no ano e tentar conquistar a maior fatia possível desse bolo. Era sobre disputar orçamento. E, sim, esse movimento é importante. Mas é só o começo. Porque essa visão te limita ao que o cliente já faz.

Com o tempo, percebi que existiam outros bolsos dentro da mesma empresa. Que olhar pra “vida do meu cliente”me permitia identificar novas oportunidades de contribuir com sua jornada, isso é Share of Life. . Às vezes, o T&D está subordinado ao negócio e eu esquecia de olhar pro RH. O marketing, por exemplo, costuma ter verba para palestras, convenções e ações institucionais. Áreas diversas investem em team buildings. Todas essas são portas de entrada que eu ignorava porque estava obcecada por um único centro de custo.

Quando comecei a olhar para o todo, meu portfólio ganhou fôlego. E minha atuação passou a ser menos transacional e mais relevante.

E foi no Share of Impact que o jogo virou. Certa vez, um cliente me disse que tinha um orçamento apertado e que só conseguiria contratar algo “super superficial” para toda a equipe. A proposta não fazia sentido. Nem para ele, nem para mim. Em vez de aceitar, propus uma rota diferente: usar o mesmo valor para fazer algo mais profundo com uma parte da equipe, medir os resultados e usar os dados para convencer as outras áreas a replicarem. Funcionou. E mais do que isso: abriu novas portas.

Outro exemplo marcante foi quando entendi que o impacto da minha solução não era só melhorar um treinamento, mas ajudar um gestor a atingir suas metas, se destacar e, em alguns casos, até ser promovido. Essa virada de chave também vale para quem vende produtos: um vendedor da indústria que atende o varejo precisa saber quanto o produto que ele vende deixa de margem no caixa do lojista, e não só quanto custa. Isso muda a conversa de desembolso para embolso, de gasto para ganho, de transação para estratégia.

Quando você vende com foco no impacto, seu cliente te quer por perto. E te paga melhor por isso.

Em resumo: três camadas de leitura para ampliar seu impacto em vendas B2B

Share of Wallet – Quanto do orçamento declarado o cliente já destina a essa categoria

  • Foco na disputa pelo orçamento já existente do cliente.
  • Baseado em hábitos de compra atuais e comparações com fornecedores concorrentes.
  • Vendedor busca aumentar sua fatia do que o cliente já está acostumado a comprar.
  • Exemplo: “O cliente já compra R$100 mil por ano em treinamentos. Como posso fazer com que ele compre R$70 mil comigo ao invés de R$30 mil?”
  • Importante, mas limitado ao presente declarado.

Share of Life – Onde mais posso me inserir ao longo da vida do cliente?

  • Foco na ampliação do escopo de atuação dentro da cadeia de valor e do ciclo de vida do cliente.
  • Exige olhar além do orçamento declarado, explorando áreas correlatas, sinérgicas ou ainda não atendidas.
  • Envolve mapeamento de momentos críticos, mudanças de fase, novos projetos, outros departamentos ou contextos da jornada do cliente.
  • Exemplo: “Além do time de RH, posso ajudar o time comercial, os líderes, ou oferecer soluções em outros momentos do ano, como onboarding, campanhas internas, eventos etc.”
  • Requer visão consultiva e inteligência relacional.

Share of Impact – Quanto valor eu gero para o cliente?

  • Foco na mensuração e ampliação do impacto do que é vendido no negócio do cliente.
  • Sai da lógica transacional e entra na perspectiva estratégica: “O que meu produto/serviço muda no resultado dele?”
  • Implica acompanhar indicadores de performance do cliente, co-construir metas e atuar como parceiro de crescimento.
  • Exemplo: “A consultoria não apenas treinou o time, mas contribuiu para aumentar o ticket médio em 18% e melhorar o NPS em 15 pontos.”
  • Quanto mais impacto gerado, maior a legitimidade para crescer nos outros dois shares.

No fim das contas, conversinha é só o nome que a gente dá para aquele espaço que o cliente nos oferece para entender melhor o mundo dele. Mas atenção: conversinha sem conversão é só desperdício de energia. Se queremos bater nossas metas, precisamos ajudar o cliente a bater as metas dele.

Movendo o ponteiro com precisão

A pergunta “Quanto você tem de orçamento?” pode até abrir a conversa, mas jamais deveria limitar a sua atuação. Porque os verdadeiros saltos de resultado não estão nas respostas declaradas, estão nas oportunidades ocultas: naquilo que o cliente ainda não percebeu que precisa, nos espaços que ninguém está explorando, nos impactos que ninguém está medindo.

Vender bem é sair da superfície. É enxergar além do pedido e atuar como alguém que não vende só um produto ou serviço, mas que ajuda o cliente a evoluir.

Se você quer mover o ponteiro das suas vendas, vá além do budget declarado. Comece a mapear o ciclo de vida do cliente, identificar novas possibilidades e, principalmente, mostrar o valor que você gera.

Porque orçamento se negocia. Confiança se conquista. E impacto, quando comprovado, vira resultado pra todo mundo.

Bora bater meta?