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Por que tá “tão difícil” contratar bons vendedores?

Todo dia alguém me pede um indicação… em toda reunião alguém faz um desabafo:

“Preciso contratar gente pra área comercial… mas tá difícil achar gente boa!”

Quando tento entender mais sobre a vaga, recebo uma lista de desejos: tem que protagonizar, ser resiliente, estrategista, ter disciplina de execução, gostar de aprender, precisa ter visão de negócios, analisar os dados disponíveis e criar planos consistentes, mas tem que ser excelente em executá-los, precisa se adaptar à cultura da nossa empresa e também às necessidades dos clientes, precisar ter repertório vasto, gostar do que faz e não ser reclamão.

Enfim… minha conclusão está sendo esta:

O problema não é o mercado. O problema é a distância entre o mundo em que vivemos e o vendedor que seguimos tentando contratar.

O mundo mudou

Até outro dia, traduzíamos o mundo como VUCA: volátil, incerto, complexo e ambíguo. Até antes da pandemia, a leitura de contexto era de instável, sim, mas ainda relativamente administrável. Planejamento, experiência acumulada e boas práticas davam conta de grande parte das decisões. Em vendas, quem dominava técnica, discurso e relacionamento conseguia navegar.

O COVID mudou todo e o mundo se tornou BANI: frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Cadeias sensíveis, pessoas sobrecarregadas, jornadas confusas, clientes mais defensivos e menos fiéis. Vender passou a exigir mais inteligência emocional, mais leitura de comportamento e mais tolerância à ambiguidade.

Só que isso já ficou para trás.

Hoje, o jogo acontece em um mundo RUPT: Rápido, Incerto, Paradoxal e Emaranhado. Emaranhado porque nada vem separado, organizado ou linear. Tudo acontece ao mesmo tempo. Uma decisão puxa outra. Um movimento do mercado afeta preço, expectativa, comportamento, cultura e relação em cadeia. Não dá para “resolver uma coisa de cada vez”, porque as coisas não se apresentam assim.

E o cliente? Quer agilidade, mas exige profundidade. Quer autonomia, mas espera orientação. Quer preço, mas cobra valor. Quer tecnologia, mas busca conexão humana. Tudo junto, sem manual de instruções.

Nesse contexto, vender deixou de ser execução de processo.

Vender virou gestão de complexidade em tempo real.

E aí está o choque: seguimos tentando contratar profissionais preparados para um mundo previsível, organizado e compartimentado, para atuar em um mundo rápido, paradoxal e emaranhado. O desencaixe é inevitável.

Os dados escancaram isso

O Global Talent Shortage Survey 2025, conduzido pela ManpowerGroup com mais de 40 mil empregadores em 42 países, mostrou que 74 % dos empregadores em todo o mundo relatam dificuldade em encontrar talentos com as habilidades adequadas.

Não é que falte gente: falta de gente preparada para o nível de complexidade atual.

Ao mesmo tempo, estudos mostram que novas contratações frequentemente chegam sem o preparo necessário para o cargo, enquanto as empresas seguem esperando prontidão imediata, sem investir proporcionalmente em formação e desenvolvimento.

Some a isso um erro clássico: o jeito como buscamos. Quando a contratação fica presa a cargo anterior, setor específico e currículo “perfeito”, o funil encolhe artificialmente. Abordagens baseadas em habilidades ampliam significativamente o pool de talentos, mas ainda são exceção. Preferimos reclamar da escassez a revisar nossos filtros.

Antes de falar em falta de vendedor bom, vale encarar uma pergunta desconfortável: bom para qual contexto?

As competências essenciais no mundo RUPT

No B2B, o vendedor que performa hoje precisa:

  • Ler cenário e entender negócio, não só produto
  • Navegar com segurança em comitês de decisão complexos
  • Pensar estrategicamente e sustentar conversas de longo prazo
  • Usar dados, CRM e sinais do funil como instrumento, não como burocracia
  • Escutar de verdade, diagnosticar e provocar reflexão
  • Influenciar sem autoridade formal
  • Sustentar emocionalmente ciclos longos, pressão e negociação dura

Aqui, simpatia ajuda, mas é o repertório que sustenta.

No B2C, as competências mudam, mas não ficam mais simples:

  • Agilidade mental para lidar com volume, velocidade e múltiplos estímulos
  • Leitura rápida de perfil, intenção e objeção
  • Comunicação clara, objetiva e empática
  • Capacidade de gerar confiança em interações curtas
  • Disciplina emocional para lidar com rejeição constante
  • Uso fluido de tecnologia, automação e canais digitais
  • Ritmo, consistência e execução

Aqui, não vence quem fala bem e sim quem entende mais rápido.

O problema é que seguimos tratando essas competências como diferencial, quando elas já são condição mínima de sobrevivência no jogo atual.

Por isso, talvez a pergunta não seja por que está tão difícil contratar bons profissionais de vendas. A pergunta real é: o quanto as empresas estão dispostas a abandonar o discurso do “vendedor pronto” e assumir a responsabilidade de formar, desenvolver e sustentar performance em um mundo emaranhado?

O ponto da virada

Diante desse cenário, tem um ponto que precisa ser reforçado:

NENHUM MODELO DE ATUAÇÃO SE SUSTENTA SEM MODELO DE GESTÃO.

Não é mais o produto. Não é só a estratégia. Não é o discurso bonito sobre cultura. É a capacidade da empresa de orquestrar pessoas em um contexto rápido, paradoxal e emaranhado. Em vendas, isso passa, inevitavelmente, pela forma como o time é liderado.

E é aqui que a conversa fica menos confortável.

Porque, no mundo RUPT, o maior desafio da gestão comercial não é mais motivar no grito de guerra, na palestra inspiradora, nem na pressão nossa de cada dia. Isso não cabe mais na complexidade do jogo atual.

Não é somente sobre CONTRATAR GENTE BOA, é sobre ter líderes comerciais capazes de reconhecer as competências necessárias ao seu contexto, selecionar melhor, formar de verdade, desenvolver continuamente e sustentar emocionalmente quem vende. É criar contexto, dar critério, oferecer direção, construir repertório e garantir apoio quando a complexidade aperta.

Não dá mais para terceirizar performance para o indivíduo e chamar isso de meritocracia.

Quem lidera vendas precisa assumir que resultado é consequência direta de decisões de gente: quem entra, como entra, como é formado, como é acompanhado e até onde é esticado. Pressão sem estrutura gera rotatividade. Motivação sem método vira discurso vazio. Cobrança sem desenvolvimento vira desgaste.

Para ficar BEM claro: contratar bem deixou de ser um problema de RH. E vender bem deixou de ser um problema do vendedor. Esses são desafios de uma gestão comercial madura, conectada com a leitura correta de mundo e disposta a abandonar atalhos.

No mundo RUPT, contratar bem não é sorte: é clareza estratégica, liderança presente e método consistente.

Bateu ai? #tamojuntos

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos temas de palestras para times que treinam e desenvolvem equipes comerciais. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Matriz dos 4C’s: uma ferramenta poderosa para melhorar a integração entre times.

Desalinhamentos e conflitos entre times adjacentes acontecem mais do que a gente gosta de admitir. Depois de viver diferentes perspectivas da guerra velada entre marketing e vendas, criei uma ferramenta pra ajudar na integração e reduzir conflitos internos. Vou te explicar como usar 🙂

Eu já estive nos dois (e mais) lados da moeda: já fui vendedora, e já fui marketeira, já fui liderada, já fui liderança… E, mesmo sendo áreas tão próximas, todo mundo aqui deve concordar comigo que, infelizmente, o ranço entre elas é clássico e BEM real.

De um lado, o pessoal de vendas sente que o marketing não entende a urgência das coisas e não está conectado de verdade com seus clientes.

Do outro, o time de marketing enxerga pessoas de vendas como impacientes, egoístas (acham que seu cliente e seu problema é mais importante do que qualquer outra coisa) e focadas demais em objetivos de curto prazo, sem pensar na estratégia a longo prazo.

Seja por disputa de poder e budget, pelos perfis muito diferentes das pessoas ou pela relevância de cada time na estratégia, o desalinhamento entre qualquer outra área na verdade alerta sobre algo bem mais relevante: a falta de foco no que realmente importa, os clientes.

[isso vale também pra vendas x CS, marketing x produto, produto x tech e toda área que mais briga do que presta atenção nos clientes…]

Eu gosto dessa charge mais do que eu devia hahaha – pois ela representa muito bem a guerra velada entre as áreas como marketing, vendas, CS, produto…

Construir integração entre os times não acontece do dia pra noite, e adivinhe: não existe fórmula pronta pra isso. Mas, durante os caminhos que percorri, eu estudei modelos e testei várias formas de trazer esse alinhamento para a prática.

Uma delas é a Matriz 4C, criada por fontes da minha cabeça e da minha experiência. E antes que você pensa “mais um framework”, pensa comigo: ferramentas e frameworks nos ajudam a alinhar e organizar visualmente o que está bagunçado. De quebra, ainda servem como guia e gestão de conhecimento nesse processo de integração.

Bora comigo?

Matriz 4C’s: o que é e como usar essa ferramenta para integrar times, prevenir e remediar conflitos.

O que é a Matriz 4C?

É uma ferramenta que ajuda a organizar as atividades, os projetos, as responsabilidades e até as métricas que envolvem dois (ou mais) times que deveriam atuar de forma mais integrada.

A partir dessa organização, é possível consolidar e alinhar quais atividades e iniciativas os times adjacentes devem fazer em conjunto ou separadamente de acordo com o cruzamento entre dois eixos: transversalidade (atividades/funções mais transversais ou mais específicas) e importância (mais operacional ou mais estratégico).

Ela pode ser utilizada em todo começo de um projeto que envolve múltiplas áreas ou desdobramento de estratégia, de forma colaborativa e participativa entre os times envolvidos, pra dar mais clareza sobre o nível de interação e alinhamento entre as áreas.

O que significa cada elemento da Matriz dos 4Cs?

O nome da ferramenta é referência ao nome de cada um dos quatro quadrantes da matriz, todos começando pela letra C (uma feliz coincidência que ajuda a lembrar o seu nome).

Cada atividade, iniciativa, projeto ou responsabilidade é classificada de acordo com cada quadrante – e essa decisão deve ser tomada necessariamente em conjunto. Utilizando o contexto entre marketing e vendas como exemplo, vou explicar cada um deles na prática:

Quadrante 1: CONTINUAR. (atividades específicas e operacionais):

Aqui se enquadram as funções mais específicas e operacionais de cada área, que devem continuar em suas respectivas áreas alinhando apenas quando estritamente necessário e benéfico para a operação como um todo. Ex: rotina de postagem de redes sociais de marketing, rotina de construção de propostas comerciais de vendas, processo de atendimento de clientes de um time de CS, etc.

Quadrante 2: COCRIAR (atividades transversais e operacionais):

Se enquadram as atividades que são operacionais, mas possuem um impacto e envolvimento transversal de mais de 1 área. Nesse caso, elas exigem mão na massa de ambos os times e precisam necessariamente ser cocriadas e executadas em conjunto, pois a atividade se beneficia tanto da perspectiva como do envolvimento de todas as áreas. Ex: Cocriar um SLA (Acordo de Nível de Serviço).

Quadrante 3: COLABORAR (atividades específicas e estratégicas):

Aqui se enquadram as atividades que são específicas de cada time, mas com relevância estratégica para o negócio. São atividades que seguem sendo construídas e aprimoradas nos times responsáveis por elas, mas que, pela sua importância e impacto, se beneficiam com o alinhamento e colaboração com outros times em rituais periódicos com todos. Ex: a elaboração de uma nova campanha de marketing. Toda a execução será responsabilidade de marketing, mas é importante ter pontos de contato com vendas.

Quadrante 4: CONECTAR (atividades transversais e estratégicas):

Quando as atividades são transversais e estratégicas, elas devem ser construídas e aprimoradas de forma conectada entre as lideranças de cada time, mas contando com o apoio e garantindo o alinhamento transversal com todas as pessoas pertencentes aos mesmos. Ex: Revisão da estratégia anual ou criação dos OKRs de cada área. As prioridades estratégicas devem ser definidas com as lideranças dos times em conjunto, garantindo a conexão entre os objetivos e metas específicos de cada área.

O que você precisa saber pra utilizar a Matriz dos 4C’s com seu time:

Obviedade não-óbvia: para que a matriz realmente funcione, é importante que pessoas representantes dos diferentes times estejam presentes e envolvidas no momento da sua utilização.

E, para o momento da sua utilização, você pode criar um workshop seguindo essa lógica:

  • Alinhamento: A matriz só funciona se todos estiverem a bordo. Garantir que todas as pessoas envolvidas entendem o porquê da atividade, assim como os potenciais ganhos após o seu uso, é fundamental para que todo o processo ocorra bem. Isso envolve: explicar que a matriz é um bom primeiro passo, mas que é a jornada em seguida que concretiza a integração; garantir o buy-in de todas as lideranças envolvidas, pois elas vão dar o tom da reunião; e, por fim, compartilhar a importância da empatia durante todo o processo, com todas as pessoas deixando os julgamentos de lado e abertas para exercitar a sua curiosidade.
  • Workshop – levantamento individual: Durante o workshop, além de reforçar os pontos do alinhamento, comece pela explicação de como a Matriz dos 4Cs funciona. Assim que todos entenderem o significado de cada quadrante, separe de 15 a 20 minutos para que cada pessoa (ou cada time), individualmente, escreva as atividades, rotinas, projetos e responsabilidades que entende pertencer a cada grupo. Dessa forma, evitamos ao máximo enviesar o levantamento inicial.
  • Workshop – discussão em grupo: Em seguida, fazemos um momento de compartilhamento das atividades e discussão em grupo. Cada pessoa (ou time) compartilha e coloca as atividades que separou para cada quadrante e, em seguida, é aberta uma discussão guiada sobre os elementos de similaridade e de disparidade que surgiram após o compartilhamento.
  • Workshop – alinhamento em grupo: A partir da discussão feita, tomam-se as primeiras decisões de atividades por quadrante. Via de regra, as similaridades que aparecem logo de cara já se tornam definição e os pontos de conflito são discutidos 1 a 1 para que cada time compartilhe a sua perspectiva e chegue a um consenso sobre todas as atividades-chave.
  • Workshop – plano de ação: A partir do alinhamento feito, é natural que apareçam ações necessárias a serem feitas para levar os pontos discutidos para a prática. Esse plano de ação se torna um primeiro elemento de integração, com atividades de cada quadrante a serem distribuídas entre times e pessoas.
  • Documentação e revisão periódica: Ao fim do workshop, é importante garantir que todos tenham acesso à matriz final, assim como ao plano de ação que saiu dela. É importante que a matriz tenha momentos de atualização periódica (anual, por exemplo) ou quando houver algum impasse crítico entre os times envolvidos.

Tá, mas e depois?

Construir uma cultura de integração e colaboração entre times distintos não é um destino, mas um caminho a ser percorrido todos os dias – que exige esforço e paciência de todas as pessoas envolvidas.

Se você aceita um conselho de alguém que já passou por isso, comece com um primeiro passo, por menor que seja: tente construir esse alinhamento durante um processo, um novo projeto, uma nova rotina. À medida em que isso for dando certo, vai acabar se tornando uma prática, ganhando corpo e envolvendo mais pessoas, até se tornar parte da cultura.

E se você precisa de ajuda pra isso, aqui na Conectas, treinamos e desenvolvemos times que estão em conexão direta com clientes para que trabalhem cada vez mais integrados e olhando para o que importa: a experiência do cliente.

Fale com a gente aqui pra levar nossos treinamentos pra sua empresa. 😉