Arquivos de Autor: Nathalia Conti

Novos desafios não serão superados com antigas competências.

Falar sobre desempenho comercial hoje exige mais do que repetir fórmulas que funcionaram no passado, afinal o contexto mudou, as relações mudaram, o papel do vendedor mudou e, ainda assim,

grande parte das expectativas sobre times comerciais segue ancorada em competências desenhadas para um mundo mais previsível, menos complexo e com menor carga emocional.

Precisamos fazer uma revisão nas competências que o time de vendas precisa desenvolver, clarificando comportamentos esperados diante de desafios cada vez mais complexos. A ideia não é deixar de lado negar a importância da técnica, do processo ou da disciplina de execução, mas de reconhecer que esses elementos, isoladamente, já não dão conta das exigências atuais. O mercado pede outro nível de leitura de cenário, de maturidade emocional, de protagonismo e de capacidade de sustentar relações relevantes em ambientes pressionados por preço, múltiplos decisores, excesso de informação e mudanças constantes.

Enquanto o discurso sobre o futuro das competências se intensifica, a cobrança por resultado segue absolutamente ancorada no curto prazo.

Meta precisa ser batida todo mês, o funil não espera, o forecast precisa fechar e a pressão por volume, faturamento e rentabilidade continua assombrando vendedores e líderes.

É nesse espaço entre o futuro que se anuncia e o presente que cobra que muitos times se perdem.

Minha provocação é a seguinte: novos desafios não serão superados com antigas competências, e insistir nisso não é apenas um erro conceitual, mas um risco real para a sustentabilidade dos resultados, das relações comerciais e das próprias pessoas que estão na linha de frente.

O mundo mudou

Vivemos um contexto marcado por policrises econômicas, geopolíticas, sociais e climáticas, que aumentam a sensação de instabilidade e exigem decisões cada vez mais rápidas em cenários incompletos. A tecnologia deixou de ser suporte e passou a ser parte central da operação, a concorrência se multiplicou e o cliente ganhou acesso a comparação, alternativas e informação em um nível que redesenhou completamente a dinâmica da venda.

Relatórios recentes do World Economic Forum mostram que funções, papéis e expectativas estão se transformando mais rápido do que as empresas conseguem atualizar seus modelos de desenvolvimento. Ainda assim, muitos times comerciais continuam sendo cobrados com base em comportamentos e competências que funcionavam bem em um mundo mais linear.

O problema não é o mundo ter mudado. O problema é continuar esperando respostas antigas para perguntas novas.

Mais complexidade, menos o controle

O processo de venda ficou mais sofisticado, mais político e menos previsível. As decisões envolvem mais stakeholders, com critérios distintos e interesses nem sempre alinhados. O cliente espera personalização, mas pressiona por preço. Valoriza relacionamento, mas só permanece se houver relevância percebida. Quer proximidade, mas não tolera desperdício de tempo.

Estudos da Gartner indicam que compradores B2B tendem a evitar interações comerciais que não acrescentem algo novo ao entendimento que já construíram sozinhos. Isso muda radicalmente o papel do vendedor, que deixa de ser fonte de informação e passa a ser alguém capaz de organizar complexidade, ampliar visão e apoiar decisões.

Nesse cenário,

insistir apenas em técnica de abordagem ou argumentação é insuficiente, porque o que está em jogo é a qualidade da leitura, do repertório e da conversa.

Novas aspirações exigem novas inspirações

Além das transformações externas, existe uma mudança importante acontecendo dentro dos próprios times. A pandemia alterou a relação das pessoas com o trabalho, com a segurança, com o tempo e com o sentido do esforço. As novas gerações tornam isso mais visível, mas o fenômeno impacta profissionais de diferentes idades e níveis de senioridade.

Pesquisas recorrentes da Gallup apontam níveis elevados de desengajamento mesmo entre profissionais considerados produtivos, o que revela um esgotamento emocional que não pode ser tratado apenas com metas mais agressivas ou incentivos financeiros.

Se as aspirações mudaram, insistir nas mesmas fontes de inspiração, nos mesmos discursos e nos mesmos modelos de cobrança tende a gerar afastamento, não comprometimento.

A tal da competência

Para avançar nessa discussão, é importante voltar ao conceito de competência de forma estruturada e aplicada à realidade do negócio. David McClelland já defendia que desempenho superior não está ligado apenas a conhecimento técnico ou inteligência formal, mas a competências observáveis que combinam Conhecimentos, Habilidades e Atitudes, o conhecido CHA, traduzidas em comportamento consistente e resultado real.

O ponto central aqui é entender que CHA não existe de forma “solta”. Ele só faz sentido quando está conectado ao impacto que se espera gerar, aos resultados que precisam ser alcançados e aos desafios concretos do contexto em que as pessoas atuam. Antes de discutir quais competências desenvolver, é fundamental responder a perguntas mais estratégicas:

  • qual impacto essas pessoas precisam ser capazes de gerar na organização,
  • quais resultados sustentam esse impacto e
  • quais obstáculos do contexto tornam essa entrega mais complexa.

Quando essa lógica não é respeitada, o desenvolvimento se inverte. Começa-se pela experiência de aprendizagem, acumula-se conteúdo, fala-se de competências desejáveis, mas sem clareza sobre o impacto esperado e sobre as condições reais em que o trabalho acontece. O resultado costuma ser conhecido: treinamentos bem avaliados, mas pouca mudança prática no comportamento e nos indicadores.

Competência, portanto, não é o que a pessoa sabe explicar, mas o que ela consegue praticar de forma consistente, especialmente sob pressão, ambiguidade e mudança constante. Conhecimento sem aplicação não vira habilidade, habilidade sem atitude não se sustenta e atitude sem direção estratégica pode gerar esforço sem impacto.

No contexto atual das vendas, compreender o CHA passa, necessariamente, por alinhar desenvolvimento a resultado. Isso significa desenhar competências a partir dos desafios reais do mercado, das exigências do cliente e das metas que precisam ser batidas agora, sem perder de vista o impacto que se deseja construir no médio e longo prazo.

Competência comercial hoje envolve julgamento, responsabilidade, leitura de cenário e capacidade de adaptação contínua, muito mais do que a repetição de scripts bem treinados.

E quanto mais clara for a conexão entre impacto, contexto, resultado e desenvolvimento, maior a chance de formar times que não apenas saibam mais, mas entreguem melhor, de forma sustentável.

Muito se fala de futuro, mas meta se bate no presente

Grande parte das discussões sobre competências está sempre projetada para o futuro, como se houvesse um tempo de preparação confortável antes da cobrança real. O próprio World Economic Forum destaca habilidades como pensamento crítico, adaptabilidade, aprendizado contínuo e inteligência emocional como essenciais para os próximos anos.

Tudo isso é relevante, mas existe uma tensão concreta no cotidiano comercial:

o futuro pode até orientar a estratégia, mas a meta precisa fechar agora. Volume, faturamento e rentabilidade não esperam amadurecimento conceitual.

O desafio real não é escolher entre curto e longo prazo, mas desenvolver competências que permitam resultado imediato sem comprometer relacionamento, reputação e cultura, porque são esses elementos que sustentam o desempenho ao longo do tempo.

Precisamos bater meta, sem abater o time

Durante muito tempo, emoção foi tratada como algo secundário no ambiente de vendas. Coisa flufly. Hoje, isso se mostra um erro estratégico.

Lidar com rejeição, pressão constante, metas agressivas e mudanças frequentes exige recursos emocionais que nem sempre foram desenvolvidos de forma intencional.

Inteligência emocional não significa ausência de desconforto, mas capacidade de reconhecer limites, encarar decisões difíceis e manter clareza mesmo em cenários adversos. Protagonismo não é trabalhar mais horas, mas assumir responsabilidade pelas próprias escolhas e consequências. Mentalidade de crescimento não é discurso positivo, mas disposição real para aprender, ajustar rota e evoluir em tempo real.

Essas competências passaram a ser estruturais para quem precisa performar sem adoecer e liderar sem esgotar o time.

Sucesso do passado não garante o sucesso do AGORA

Se o mundo mudou, se os desafios mudaram e se as pessoas mudaram, insistir no mesmo modelo de competência é um risco que custa caro. Desenvolver times comerciais hoje exige ampliar o foco, ir além da técnica e trabalhar repertório, comportamento, consciência emocional e responsabilidade sobre decisões.

Novos desafios não serão superados com antigas competências. Quanto antes aceitarmos isso, mais rápido deixaremos de reagir ao presente com ferramentas do passado e passaremos a construir times capazes de entregar resultado agora, com coerência, consistência e visão de futuro.

Porque a meta vence todo mês, mas time de alta performance é construído todos os dias.

Para refletir:

  • As competências que você desenvolve hoje no seu time comercial estão realmente conectadas aos desafios atuais do mercado e aos resultados que precisam ser entregues agora, ou ainda refletem um modelo que funcionou bem em outro contexto?
  • Quando você pensa em desenvolvimento, começa pelo impacto e pelos resultados esperados ou ainda parte do conteúdo, dos formatos de treinamento e das competências “da moda”, esperando que isso, em algum momento, se traduza em performance?
  • O quanto a sua estratégia de desenvolvimento prepara o time para bater meta sem comprometer pessoas, relações e cultura, especialmente em um cenário de pressão constante, múltiplos decisores e exigências emocionais cada vez maiores?

Se o mundo mudou, as relações comerciais mudaram e os times comerciais precisam estar preparados para esse novo contexto, a maneira de treinar e desenvolver esses times também precisa de mudanças.

Aquele abraço,

Carol Manciola

Por que tá “tão difícil” contratar bons vendedores?

Todo dia alguém me pede um indicação… em toda reunião alguém faz um desabafo:

“Preciso contratar gente pra área comercial… mas tá difícil achar gente boa!”

Quando tento entender mais sobre a vaga, recebo uma lista de desejos: tem que protagonizar, ser resiliente, estrategista, ter disciplina de execução, gostar de aprender, precisa ter visão de negócios, analisar os dados disponíveis e criar planos consistentes, mas tem que ser excelente em executá-los, precisa se adaptar à cultura da nossa empresa e também às necessidades dos clientes, precisar ter repertório vasto, gostar do que faz e não ser reclamão.

Enfim… minha conclusão está sendo esta:

O problema não é o mercado. O problema é a distância entre o mundo em que vivemos e o vendedor que seguimos tentando contratar.

O mundo mudou

Até outro dia, traduzíamos o mundo como VUCA: volátil, incerto, complexo e ambíguo. Até antes da pandemia, a leitura de contexto era de instável, sim, mas ainda relativamente administrável. Planejamento, experiência acumulada e boas práticas davam conta de grande parte das decisões. Em vendas, quem dominava técnica, discurso e relacionamento conseguia navegar.

O COVID mudou todo e o mundo se tornou BANI: frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Cadeias sensíveis, pessoas sobrecarregadas, jornadas confusas, clientes mais defensivos e menos fiéis. Vender passou a exigir mais inteligência emocional, mais leitura de comportamento e mais tolerância à ambiguidade.

Só que isso já ficou para trás.

Hoje, o jogo acontece em um mundo RUPT: Rápido, Incerto, Paradoxal e Emaranhado. Emaranhado porque nada vem separado, organizado ou linear. Tudo acontece ao mesmo tempo. Uma decisão puxa outra. Um movimento do mercado afeta preço, expectativa, comportamento, cultura e relação em cadeia. Não dá para “resolver uma coisa de cada vez”, porque as coisas não se apresentam assim.

E o cliente? Quer agilidade, mas exige profundidade. Quer autonomia, mas espera orientação. Quer preço, mas cobra valor. Quer tecnologia, mas busca conexão humana. Tudo junto, sem manual de instruções.

Nesse contexto, vender deixou de ser execução de processo.

Vender virou gestão de complexidade em tempo real.

E aí está o choque: seguimos tentando contratar profissionais preparados para um mundo previsível, organizado e compartimentado, para atuar em um mundo rápido, paradoxal e emaranhado. O desencaixe é inevitável.

Os dados escancaram isso

O Global Talent Shortage Survey 2025, conduzido pela ManpowerGroup com mais de 40 mil empregadores em 42 países, mostrou que 74 % dos empregadores em todo o mundo relatam dificuldade em encontrar talentos com as habilidades adequadas.

Não é que falte gente: falta de gente preparada para o nível de complexidade atual.

Ao mesmo tempo, estudos mostram que novas contratações frequentemente chegam sem o preparo necessário para o cargo, enquanto as empresas seguem esperando prontidão imediata, sem investir proporcionalmente em formação e desenvolvimento.

Some a isso um erro clássico: o jeito como buscamos. Quando a contratação fica presa a cargo anterior, setor específico e currículo “perfeito”, o funil encolhe artificialmente. Abordagens baseadas em habilidades ampliam significativamente o pool de talentos, mas ainda são exceção. Preferimos reclamar da escassez a revisar nossos filtros.

Antes de falar em falta de vendedor bom, vale encarar uma pergunta desconfortável: bom para qual contexto?

As competências essenciais no mundo RUPT

No B2B, o vendedor que performa hoje precisa:

  • Ler cenário e entender negócio, não só produto
  • Navegar com segurança em comitês de decisão complexos
  • Pensar estrategicamente e sustentar conversas de longo prazo
  • Usar dados, CRM e sinais do funil como instrumento, não como burocracia
  • Escutar de verdade, diagnosticar e provocar reflexão
  • Influenciar sem autoridade formal
  • Sustentar emocionalmente ciclos longos, pressão e negociação dura

Aqui, simpatia ajuda, mas é o repertório que sustenta.

No B2C, as competências mudam, mas não ficam mais simples:

  • Agilidade mental para lidar com volume, velocidade e múltiplos estímulos
  • Leitura rápida de perfil, intenção e objeção
  • Comunicação clara, objetiva e empática
  • Capacidade de gerar confiança em interações curtas
  • Disciplina emocional para lidar com rejeição constante
  • Uso fluido de tecnologia, automação e canais digitais
  • Ritmo, consistência e execução

Aqui, não vence quem fala bem e sim quem entende mais rápido.

O problema é que seguimos tratando essas competências como diferencial, quando elas já são condição mínima de sobrevivência no jogo atual.

Por isso, talvez a pergunta não seja por que está tão difícil contratar bons profissionais de vendas. A pergunta real é: o quanto as empresas estão dispostas a abandonar o discurso do “vendedor pronto” e assumir a responsabilidade de formar, desenvolver e sustentar performance em um mundo emaranhado?

O ponto da virada

Diante desse cenário, tem um ponto que precisa ser reforçado:

NENHUM MODELO DE ATUAÇÃO SE SUSTENTA SEM MODELO DE GESTÃO.

Não é mais o produto. Não é só a estratégia. Não é o discurso bonito sobre cultura. É a capacidade da empresa de orquestrar pessoas em um contexto rápido, paradoxal e emaranhado. Em vendas, isso passa, inevitavelmente, pela forma como o time é liderado.

E é aqui que a conversa fica menos confortável.

Porque, no mundo RUPT, o maior desafio da gestão comercial não é mais motivar no grito de guerra, na palestra inspiradora, nem na pressão nossa de cada dia. Isso não cabe mais na complexidade do jogo atual.

Não é somente sobre CONTRATAR GENTE BOA, é sobre ter líderes comerciais capazes de reconhecer as competências necessárias ao seu contexto, selecionar melhor, formar de verdade, desenvolver continuamente e sustentar emocionalmente quem vende. É criar contexto, dar critério, oferecer direção, construir repertório e garantir apoio quando a complexidade aperta.

Não dá mais para terceirizar performance para o indivíduo e chamar isso de meritocracia.

Quem lidera vendas precisa assumir que resultado é consequência direta de decisões de gente: quem entra, como entra, como é formado, como é acompanhado e até onde é esticado. Pressão sem estrutura gera rotatividade. Motivação sem método vira discurso vazio. Cobrança sem desenvolvimento vira desgaste.

Para ficar BEM claro: contratar bem deixou de ser um problema de RH. E vender bem deixou de ser um problema do vendedor. Esses são desafios de uma gestão comercial madura, conectada com a leitura correta de mundo e disposta a abandonar atalhos.

No mundo RUPT, contratar bem não é sorte: é clareza estratégica, liderança presente e método consistente.

Bateu ai? #tamojuntos

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos temas de palestras para times que treinam e desenvolvem equipes comerciais. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

NRF 2026: Menos sobre tendências, mais sobre maturidade de gestão.

Acabou a NRF 2026 e a gente precisa confessar: estamos com a cabeça girando.

Não por excesso de informação. Mas porque, dessa vez, os recados foram muito diretos. Sem rodeio. Sem aquele tom de “tendência futurista que um dia vai chegar”. O tom foi outro: ou você entende o jogo agora, ou vai ficar pra trás.

Carol Manciola, nossa correspondente na feira, fez uma cobertura completa em parceria com a HSM. Os principais pontos você lê agora mesmo:

O humano é o novo diferencial competitivo

Esse foi um dos fios condutores mais fortes do evento inteiro.

E não que seja grande novidade, mas ouvir isso em um dos maiores palcos do mundo reforça ainda mais a importância das empresas trazerem isso para o dia a dia.

A WGSN, que é referência global em tendências, trouxe uma mensagem necessária: prova vale mais que promessa. Confiança vale mais que conversão. E estamos vendo um movimento acontecer: enquanto a IA tá saindo da vibe de espetáculo e virando infraestrutura, a confiança está virando o ativo mais escasso – e mais desafiador das empresas alcançarem.

O mais óbvio, mas necessário ser dito: só o humano é capaz de construir confiança.

Cassandra Napoli, da WGSN, na NRF 2026 (Crédito: Taís Farias)

Mas não estamos falando do humano “fofinho”, aquele que a gente às vezes  tem um certo preconceito. Estamos falando do humano que conecta. Com atenção, timing, escuta, presença, coragem de ser simples e real.

As marcas que estão se destacando não são as mais tecnológicas. São as que entendem que as pessoas estão com fome de sensorialidade e usam tecnologia pra tirar fricção, devolver tempo, sensação e cuidado.

Marca forte nasce de liderança intencional

Nos cases apresentados, como o da Coach e da Timberland, ficou claro que não dá mais pra apostar tudo em uma campanha heroica. Marcas fortes nascem antes: da liderança corajosa.

A Timberland, por exemplo, vinha de um período de perda de relevância cultural. E o que eles fizeram? Não lançaram mais uma campanha. Não aceleraram mídia. Voltaram pro essencial, com decisões duras de liderança.

Questionaram tudo que era sagrado: estrutura, portfólio, go-to-market, a forma como a marca se expressava no mundo. Em vez de tentar agradar todo mundo, reassumiram seu ícone e transformaram isso em estratégia.

Mindy Grossman, membro do conselho da VF Corporation, Caroline Brown, Nina Flood e Sun Choe, presidentes da The North Face, Timberland e Vans, respectivamente (Crédito: Amanda Schnaider)

Esse foi um case sobre a importância do walk the talk. Marca não é discurso. É comportamento coletivo sustentado por líderes que dão direção clara, fazem escolhas difíceis e transformam cultura em vantagem competitiva.

Ryan Reynolds e a coragem de ser verdadeiro

A palestra do Ryan Reynolds foi uma das mais esperadas. E surpreendeu.

Ele não falou de marca como quem vende um método. Falou como quem vive isso na pele. E jogou uma pergunta que deveria estar em toda reunião de marketing: “Alguém falaria isso numa mesa de bar? Se não, provavelmente não deveria estar numa campanha.”

Ethan Tandowsky, Diretor Financeiro da Adyen, e Ryan Reynolds, Ator e Empreendedor.

Ele lembrou que ser interessante costuma funcionar muito melhor do que tentar ser importante. E que tratar o público como inteligente não é um risco, é respeito.

Teve uma frase que deve ter embrulhado muita gente por lá: “Se a sua marca não aguenta humor, talvez ela também não aguente verdade. E se ela não aguenta verdade, dificilmente constrói vínculo.”

O recado foi claro: as coisas íntimas e reais tendem a ganhar das coisas fabricadas. O cliente sente o cheiro de enganação de longe, afinal, a gente também é cliente.

A disputa mudou. E mudou de verdade.

A disputa do varejo não é mais por market share. É por atenção, relevância e velocidade de decisão.

O Gary Vaynerchuk, que é uma sumidade no mundo das vendas, colocou o elefante na sala logo no terceiro dia. Ele disse que marcas estão em “day trading de atenção”. Ou seja, não existe mais estabilidade de marca. A atenção tem que ser conquistada o tempo todo.

Gary Vee, CEO da VaynerMedia

O algoritmo mudou. Antes, ele entregava conteúdo com base em quem você seguia. Agora, ele entrega com base no que você se interessa.

Não adianta organograma, verba ou histórico de marca se o conteúdo não é relevante agora. Quem ganha atenção hoje é quem entende contexto, interesse e timing, não quem grita mais alto.

Não é mais sobre volume. É sobre relevância no contexto certo, na hora certa, com criatividade validada pelo algoritmo, não pelo ego do board.

Quem não saiu dessa palestra incomodado, provavelmente não entendeu o recado.

Conteúdo não é mais peça. É comportamento.

Teve muita conversa sobre TikTok, creators e influenciadores. E o tom foi unânime: conteúdo de creator supera conteúdo de marca. Sempre.

A Sarah Henry, do Walmart, foi direta: isso não acontece por acaso. Acontece porque pessoas confiam mais em pessoas do que em campanhas.

Sarah Henry, do Walmart, Ashley Schapiro, da American Eagle, e Noah Gonzalez, da H&M Americas.

E o TikTok apareceu menos como canal de mídia e mais como motor de aprendizado em tempo real. Um espaço onde o funil não é linear, onde descoberta, desejo e conversão se misturam.

O mais interessante? O TikTok não recompensa controle excessivo. Marcas que entram tentando editar cada palavra, cada take, cada roteiro simplesmente não performam. Agora, as que deixam o consumidor criar, remixar e opinar? Aprendem mais rápido, erram mais cedo e acertam melhor.

O rolê é cada vez menos sobre roteiro e muito mais sobre flow.

Ninguém cresce sozinho

Outro tema forte foi a evolução das empresas para ecossistemas. Não como moda, mas como resposta estratégica.

Cases como CVS Health e Magazine Luiza mostraram isso com clareza. O que sustenta esses ecossistemas não é tecnologia isolada, é visão estratégica da liderança, cultura preparada pra operar em plataforma, e uma mudança de mentalidade: sair do transacional e entrar no relacionamento de longo prazo, com parcerias bem estabelecidas pra sustentar o longo prazo.

O varejo que prospera não vive só de transação. Constrói plataformas de relacionamento antes, durante e depois da compra.

Alberto Serrentino, Fundador da Varese Retail; Gui Serrano, Vice Presidente da CVS Health; Frederico Trajano, CEO da Magalu.

O que fica da NRF 2026?

Pra gente, essa edição foi menos sobre tendência e muito mais sobre maturidade de gestão. Foco, execução e relevância.

O recado foi simples, mas direto: liderar é escolher o que não fazer. Fazer escolhas coerentes, agir de forma consistente e ter coragem de mudar quando faz sentido, não só quando não existem mais opções.

Inovação não é sobre adicionar camadas de tecnologia. É sobre tirar excesso, ganhar clareza e tomar decisões melhores, com mais agilidade.

No fundo, tudo aponta pra uma coisa: as empresas que vão crescer são aquelas que conseguem oferecer continuidade, confiança e conexão no meio do caos.

E isso exige coragem. De entrar na conversa como gente, aceitar perder controle e aprender o tempo todo.

A NRF acabou, mas a conversa continua. Bora trocar ideia sobre isso tudo ao vivo?

Dia 09 de fevereiro, preparamos um encontro pra quem quer se aprofundar nos insights da maior feira de varejo do mundo. Será um dia inteiro pra trocar, opinar, aprender e colaborar com profissionais que estiveram na feira e trazem conteúdos traduzidos para a realidade do Brasil.

Essa conversa vai muito além do varejo: são insights que todo negócio precisa saber para potencializar os resultados nos próximos anos.

Queremos você com a gente! Faça sua inscrição aqui.

Aquele abraço e até lá.

Persistir ou pivotar, eis a questão: qual é o principal modo de falha da cultura de experimentação?

“E, após um teste que deu errado, pivotamos e nosso negócio foi feliz para sempre”.

Quem nunca ouviu a palavra “pivotar” no mundo da inovação e tecnologia está mentindo. Ela é parte obrigatória nas grandes narrativas de startups, nos cases de growth e produto, e nas histórias de corredor e de palco contadas por quem gosta de se vangloriar por uma mudança de rumo bem feita.

Não por acaso, o termo “pivot” se tornou sinônimo de histórias de pessoas empreendedoras de sucesso após ter surgido como jargão do famoso modelo de Lean Startup (startup enxuta, em português). Nele, como muitos aqui devem saber, Eric Ries e Steve Blank propõem lógica ágil para o desenvolvimento de novos negócios inovadores.

Nessa lógica, os autores sugerem a famosa reunião de “pivotar ou persistir“, em que as pessoas envolvidas decidem, baseadas na experiência dos ciclos até então, se devem persistir no atual curso estratégico ou pivotar para uma nova direção de hipótese de modelo de negócio.

Longe de mim questionar esse modelo. A lógica dele é bastante consistente com o contexto digital acelerado em que vivemos. No entanto, assim como em todos os métodos ágeis, é justamente por essa lógica fácil de compreender que muitas pessoas sentem que a prática será igual – o que infelizmente não é tão verdade assim.

Na teoria, parece razoável trazer aos negócios mais agilidade e adaptabilidade por meio do aprendizado pela experiência. Dessa forma, é através de ciclos de experimentação ágil com pessoas usuárias que ajustamos a rota do desenvolvimento de uma nova solução conforme se caminha. 

Na prática, no entanto, o que parece uma marola tranquila pra navegar está mais para tempestade em mar agitado, cheia de imprevistos pela frente. Aprender por meio da experiência é um processo desafiador por 3 motivos:

  • A modelagem de experimentos exige técnica e consistência: testar uma solução ou de um modelo de negócio não é simplesmente jogar no mundo e ver se deu certo ou não. Um experimento precisa de técnica e consistência desde o primeiro rascunho no papel de pão até o MVP: é preciso definir as condições de contorno, a variável que se deseja testar (não se testa tudo ao mesmo tempo), o perfil de pessoa usuária para o teste, o formato de condução, a duração da análise e, principalmente, fazer uma boa análise do teste ao fim (o que muuuita gente tem preguiça de fazer).
  • A análise é sempre melhor quando controlamos nossos vieses: é natural que tenhamos nossas hipóteses e estejamos torcendo para que elas sejam validadas. Mas nosso viés não pode justamente enviesar a análise. Já vi muitas vezes lideranças dizendo que o teste está errado porque não concordam com o resultado, mexendo no espaço amostral e no público alvo para garantir melhores respostas ou puxando a sardinha e dar mais ênfase em algum ponto do teste que lhe agrada mais.

    As pessoas não fazem isso por mal, é apenas uma resposta espontânea da nossa mente na direção do que é mais confortável e conhecido. Por isso, ter a consciência dos nossos vieses e contar com pessoas com perspectivas diferentes da sua são caminhos importantes para viabilizar uma análise mais condizente com a realidade.
  • Nem todo teste é uma boa bússola: precisamos nos lembrar que nenhum teste é verdade absoluta. Quando analisamos um teste, buscamos por insights que nos ajudem a reduzir o risco (e não eliminá-lo) na tomada de decisão. Só que, diferentemente de um experimento científico, em que as variáveis e condições de contorno são bem mais controladas, o experimento no mundo dos negócios é bem mais imprevisível e limitado.

    O resultado de um teste, seja ele bom ou ruim, é um fragmento da história. Ele pode ser uma exceção ao invés de uma regra devido a uma salada mista de fatores que não consideramos, como uma escolha ruim de amostragem, as condições do teste, o período de análise ou qualquer outra condição externa não mapeada.

Isso quer dizer que a cultura de experimentação é um caminho ruim? Longe disso. A chave aqui é compreender que esse é um modelo que não pode ser banalizado – e uma forma de fazer isso é justamente compreendendo melhor os modos de falha para treinar nosso senso crítico e evitar práticas e análises que podem levar o negócio para a direção errada.

Para fortalecer esse senso crítico, eu volto ao famoso “pivot”. A decisão de pivotar um negócio, por mais que pareça inspiradora, é, pra mim, um dos modos de falha mais críticos de uma cultura de experimentação em negócios.

Para tangibilizar o porquê, vou referenciar um exemplo que muitos aqui testemunharam: o da disrupção do mercado de música digital. Vocês se lembram do Napster? Plataforma de download de músicas criada por um garoto rebelde que foi mandado para a detenção devido a problemas de direitos autorais em 2001? Muitos se lembram mais desse momento do que do fato que, logo após o Napster ser proibido, a empresa se reinventou em 2003 e ressurgiu como um serviço de assinatura de música, um “Spotify” antes do Spotify. 

Acontece que essa jogada não saiu tão bem como o esperado na época. Mesmo com a proibição legal, os downloads ilegais e os torrents seguiram firmes e fortes ao mesmo tempo que, no mercado legal, a compra de músicas pelo iTunes da Apple estava ganhando mais e mais tração com quem não queria encrenca com as autoridades. Nesse contexto, o serviço de assinatura do Napster caiu na categoria de ‘não tão brilhante assim’. Os argumentos eram sólidos – quem quer “só” alugar sua música, certo? Até mesmo Steve Jobs entrou no jogo, declarando: “Ninguém quer alugar sua música, as pessoas querem ter a música”.

Pois bem – até o Steve Jobs pode errar. Quando voltamos ao nosso presente, todos nós testemunhamos o renascimento do mercado de música por assinatura com serviços como o Spotify – que a Apple em seguida foi na retaguarda, copiou e lançou como Apple Music. Parece que alguém jogou um feitiço de reviravolta na história.

A lição? Nem todos os fracassos são um sinal para jogar tudo pela janela. Às vezes, o momento é crucial, ou a tecnologia não está sincronizada, ou talvez a lua não esteja na estação ideal. Essas coisas acontecem – e jogar o bebê junto com a água do banho nem sempre é a melhor jogada.

Somado a esse, há muitos outros casos de “eu tive essa ideia antes e não deu certo”. Isso acontece pelo simples fato de que o teste, seja ele bom ou ruim, é um dado, e não uma verdade absoluta ou um raciocínio lógico. O teste nos conta o que aconteceu naquele momento, mas é o raciocínio lógico que nos traz o porquê de cada acontecimento – e muitas vezes as pessoas pulam essa parte lógica.

As falhas e sucessos podem ter múltiplas causas e é por isso que precisamos ter senso crítico para buscá-las antes de tomar qualquer decisão precipitada como pivotar completamente um negócio em construção. Para isso, há várias técnicas que nos ajudam a modelar e analisar o resultado de experimentos, como teste A/B, análise de causa raiz, amostra de controle e muitas outras.

Dessa forma, não é o pivot em si que é o problema. É a mentalidade que o cerca, como se fosse um “must have” ou a chave mágica para desvendar o enigma do sucesso. O pivot é uma ferramenta, mas não é uma varinha mágica, ainda mais quando estamos lidando com experimentos de negócios, que geralmente são mais arriscados e via de regra possuem dados insuficientes para tirar 100% do risco da equação. Às vezes, pivotar pode ser a resposta, mas não é um vale-tudo e nem sempre precisa ser tão drástico. 

O exemplo do mercado de música demonstra muito bem o risco de banalizar o “pivot”. Nesse caso, temos um falso negativo, ou seja: ao analisar um experimento que deu “errado”, a resposta foi abandonar a ideia de uma só vez ao invés de trabalhá-la melhor de outras formas e entender por que a falha ocorreu. Com isso, a Apple perdeu a chance de disruptar esse mercado no lugar do Spotify. 

Em qualquer negócio, precisamos estar preparados com a possibilidade de um experimento não dar certo. Isso faz parte. Vivemos isso muito na medicina, por exemplo: vários testes e exames sobre uma doença podem dar um falso negativo e, quando não melhoramos, refazemos o teste para descobrir que a doença sempre esteve lá – ela só não teve as condições corretas para ser diagnosticada naquele momento. Ainda que esse tipo de ocorrência seja comum em outros contextos, não consideramos essa possibilidade nos negócios.

O problema do falso negativo é que ele é dificílimo de detectar. Os falsos positivos, por exemplo, são fáceis de corrigir, uma vez que, quando temos um resultado positivo, seguimos com o curso planejado até que, eventualmente, percebemos que aquele resultado não se sustenta. Por outro lado, os falsos negativos nos compelem a pivotar e não testar aquele caminho nunca mais – o que pode nos fazer abandonar uma oportunidade que, com alguns ajustes de condições, poderia ser um sucesso. 

Entre o glamour errôneo do pivot, as análises rasas e os possíveis falsos negativos que deixamos para trás, há dois grandes riscos no desenvolvimento de uma nova solução ou negócio. O primeiro deles é que, de tanto abandonar ideias e iniciativas devido a um curto período de testes errados, o negócio perde a consistência e o rumo e fica andando em círculos sem conseguir persistir em nada concreto esperando o resultado de teste perfeito.

O segundo risco decorre do primeiro: ao trazer a escolha entre “pivotar completamente” e “persistir da mesma forma” como algo binário sem meio termo, perde-se a oportunidade de testar ajustes intermediários nesse meio do caminho – onde provavelmente está uma opção melhor do que atuar nos extremos.

Mas então como podemos tomar melhores decisões ao aplicar uma cultura de experimentação ágil? Ao longo do artigo, fui mencionando caminhos relacionados a uma melhor modelagem de testes, minimização de vieses e uma análise mais profunda e voltada para a compreensão das variáveis e causas lógicas por trás do resultado de um experimento. Todas essas são formas boas para melhorar as condições e qualidade do teste, assim como a análise do resultado. Para pensar no direcionamento do que fazer após o teste, por sua vez, há duas formas de traçar um meio do caminho que pode minimizar os riscos de decisões extremas:

  • Os quatro quadrantes do persistir x pivotar: o empreendedor social Devin Thorpe, em um artigo da Harvard Business Review, sugere que a análise entre persistir e pivotar seja feita em duas esferas: a da missão e a da estratégia de negócios. Um exemplo para tangibilizar é o do lendário Post-it. De forma resumida, o adesivo usado pelo Post-it foi desenvolvido para outro propósito em um mercado B2B, que não deu certo na época.

    No entanto, foi através de um teste pelo inventor Art Fry que ele encontrou uma nova missão para aquele produto, atrelado a blocos de anotação. Esse foi um pivot de missão e de estratégia de negócios (pois a solução se tornou um produto B2C). Mas às vezes podemos ter a solução certa vinculada a um modelo de negócio errado – e vice-versa. Podemos então pivotar aspectos do modelo de negócio (mudar o canal ou o modelo de receita, por exemplo) ou aspectos da missão (mudar a proposta de valor para a qual o produto foi criado).
  • Um curativo entre o pivotar e persistir: o escritor Jurgen Appelo também trouxe, nesse artigo no seu Medium, a provocação de que ter apenas os caminhos de pivotar e persistir era insuficiente para o desenvolvimento de novos negócios. Para ele, também faltava o “meio do caminho”. Diferentemente do Devin Thorpe, no entanto, ele trouxe o termo “curativo” (ou Patch, em inglês) para as mudanças que ocorrem entre o incremental do persistir e o radical do pivotar e não limitou-se à missão ou à estratégia de negócio.

    Para ele, mudanças “curativo” são mudanças grandes, mas em aspectos únicos do modelo de negócio. Eu posso mudar o canal, o segmento de clientes, a proposta de valor, os recursos e por aí vai – a diferença é que eu não mudo tudo de uma vez. Como analogia, se estivéssemos falando de uma casa, ele se refere ao persistir como um conserto simples de uma janela, ao pivotar como uma mudança de casa para um apartamento em outra cidade e ao curativo como a construção de uma garagem adjacente à casa após comprar mais um carro.

Para finalizar, por mais que eu tenha denominado o pivot como principal modo de falha por trás de uma cultura de experimentação, há uma causa por trás da falha. Esse e muitos outros erros ocorrem pelo nosso desejo de encontrar a fórmula mágica e copiar ipsis litteris um método sem estudar com profundidade a lógica racional por trás dele e adaptá-lo para o contexto e realidade de cada empresa e cada negócio. Quando falamos de negócios, não existe ciência exata e nem receita de bolo única. O que existe é bom senso e análise crítica para se adaptar e ajustar a rota conforme se caminha, equilibrando os olhos atentos, o espírito flexível e a mente ágil.

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos principais temas de palestras e workshops para times que realmente querem construir ou melhorar a cultura de experimentação. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Direção, hipótese e mais: como criar uma estratégia para o negócio.

Chegou a hora de começar a planejar o novo ciclo estratégico da sua empresa. Ele geralmente começa antes do meio do ano, quando você mal começou a executar o planejamento anterior. Um cronograma de meses é apresentado e você começa a reunir um Everest de informações necessárias para formular um plano. Existe um template impecável, fornecido por uma consultoria de renome, com vários frameworks a serem preenchidos.

Com essa base em mãos e uma sequência de apresentações para várias lideranças, o plano chega na sua reta final. Um hotel lindo é escolhido, com ótima comida e uma programação divertida mesclada com workshops. Como resultado, temos em mãos um plano finalizado com o time energizado e reconectado para desdobrar a estratégia com o time, que sai de cada workshop com um roadmap de 2039572059 iniciativas e planos de ação para o ano que vem por aí.

Mas então, alguns meses depois… Alguma coisa se perde.

A cada reunião de status da estratégia, vem a frustração por um plano que não foi realizado como esperado. Entre os incêndios a serem apagados e um cenário que já não condiz com o projetado no ano anterior, não se sabe se a falha está na execução burocrática, lenta e pouco colaborativa, ou se as pessoas sequer se lembram da estratégia que foi planejada. 

Aliás, esse é um teste simples a se fazer: pergunte para seu time ou seus pares se essas pessoas se lembram logo de cara qual é a estratégia da empresa. Você pode até se perguntar a si mesmo: você se lembra? E aqui não estou falando sobre cada detalhe de um ppt gigante e nem de algo tão amplo como a missão e a visão da empresa. 

RESUMO DA ESTRATÉGIA

Pra mim, a estratégia se resume como “a lógica que explica por que e como a sua empresa vai prosperar”[1]. Pra provar meu ponto, trago aqui a referência de um estudo da MIT Sloan feito com grandes empresas: 

  • Segundo esse estudo, apenas 2% das pessoas colaboradoras conseguem apontar 3 das principais prioridades estratégicas das suas empresas
  • Mesmo entre líderes, esse percentual é de 28%, bem aquém do esperado[2].

Quanto mais complexa, top-down e escrita em pedra é a estratégia, menos ela funciona para seu objetivo principal: direcionar ação. Seja qual for a estratégia da sua empresa, ela precisa ser funcional e viva na mente das pessoas colaboradoras, como uma lógica que qualquer uma delas pode trazer para a prática – caso contrário, o que temos é um monte de gente confusa trabalhando pra apagar o próximo incêndio ou apertar o próximo parafuso sem saber por quê.

Isso quer dizer que todos os formatos de planos estratégicos que funcionaram por décadas estão errados? Não exatamente. Há um motivo pelo qual esse formato prosperou por tantos anos: ele nasceu de uma lógica industrial, “produtizada”, adequada para um um contexto de mundo mais previsível e linear. 

Mesmo quando pensamos na estratégia de empresas bem-sucedidas no presente, muitas vezes tentamos imprimir a mesma lógica, como se todo o sucesso tivesse sido cuidadosamente planejado como sempre foi no passado – o que via de regra não é verdade. 

Pra fazer um tira-teima, pesquise mais sobre a história de empresas que você admira: muito provavelmente a estratégia que levou a empresa ao sucesso hoje não estava lá nos planos estratégicos de anos atrás.

Um exemplo muito citado é o do Facebook. A história que se conta sobre o crescimento desse gigante da tecnologia nos faz crer que a estratégia era clara desde o início: não se pode começar um negócio de tecnologia como uma plataforma, o certo é começar com um aplicativo com funções essenciais e, quando a base de usuários atingir um volume suficiente para criar um efeito de rede, é aí que você pode transformá-lo em uma plataforma. 

No entanto, a realidade foi outra: a visão dos fundadores foi sempre a de construir uma rede social e só quando a base de usuários ficou grande o suficiente eles levantaram a hipótese de transformá-la em plataforma. A estratégia não foi planejada, ela foi descoberta ao longo do caminho.

Mas por que achamos que essas estratégias foram planejadas? 

As pessoas fazem isso de propósito? Não. É natural que, após uma grande descoberta que transforma a estratégia da empresa, a gente faça uma retrospectiva racional e procure uma lógica por trás do que ocorreu. 

Fazemos estudos de caso e compartilhamos essa narrativa a partir do nosso entendimento. Isso é verdade inclusive nas nossas vidas pessoais. Mas o problema dessa retrospectiva racional é que essa visão nos faz crer, erroneamente, que uma estratégia de sucesso só é possível a partir de grandes planos visionários desde a sua concepção. 

No extremo oposto, isso também não significa que estratégias de sucesso só dependem de sorte e que devemos, enquanto líderes, esperar que essa sorte bata na nossa porta. É muito mais sobre a capacidade de identificar oportunidades e de agilmente trabalhar nelas – descobrindo se esse é um bom caminho ou não. 

Pensem um pouco sobre a forma como aprendemos na infância. Testamos, erramos, acertamos, ajustamos, aprendemos. Por tentativa e erro, aprendemos a andar, a cair e a levantar, a pedir o que queremos e encontrar o que precisamos. Fazíamos isso sem pensar e com a leveza de quem ainda não calcula riscos. A diferença de trazer esse comportamento para o contexto de uma empresa é justamente o risco. E é por isso que queremos planejar cada detalhe: pra reduzir ao máximo o risco.

Mas esse é um pensamento contraditório. No atual contexto de mundo,  as disrupções constantes e as inovações aceleradas tornam quase impossível prever com precisão como o mercado se desenvolverá. Nesse sentido, temos ainda clientes com mais e mais poder de barganha, com múltiplas opções e com toda a informação do mundo na palma da mão. Clientes que mudam seu comportamento a cada nova tecnologia e que, com isso, mudam continuamente a dinâmica dos mercados. Com essa velocidade das mudanças e as múltiplas variáveis em jogo, longos períodos de planejamento engessados e sem teste prático resultam em mais risco, pois o contexto-base para o planejamento interno pode não ser mais o mesmo quando o plano for pra realidade. Portanto, é mais sensato adotar um modelo mental ágil, onde a estratégia é um processo contínuo de aprendizado, experimentação e ajustes graduais. 

Se a descoberta é melhor que o planejamento, como descobrir uma estratégia de sucesso?

A descoberta da estratégia é um processo que reconhece essa natureza imprevisível e em constante evolução do mundo dos negócios. Ao invés de tentar prever e controlar cada um dos aspectos do ambiente empresarial, essa abordagem se baseia na capacidade de se adaptar às circunstâncias em tempo real, explorando oportunidades e ajustando a rota conforme necessário a cada passo da jornada de execução, abraçando a incerteza como um terreno fértil para a inovação e o crescimento.

É importante destacar também que a descoberta da estratégia não nega a importância do planejamento, mas enfatiza a necessidade de flexibilidade e adaptabilidade. Ao invés de se concentrar em planos detalhados e inflexíveis, o contexto pede pela adoção de uma abordagem mais aberta, baseada em hipóteses e experimentos. Isso envolve formular suposições sobre o mercado, os clientes, os concorrentes e testá-las no mundo real para validar sua viabilidade.

Através de experimentos e iterações, as empresas podem aprender rapidamente o que funciona e o que não funciona. Essa abordagem, baseada em evidências práticas muito mais do que em teorias que nem sempre se sustentam na realidade, permite uma tomada de decisão mais informada e reduz o risco de investimentos significativos em caminhos que podem não ser eficazes. A descoberta da estratégia encoraja a aprendizagem constante, a adaptação contínua e a exploração de novas oportunidades à medida que surgem.

Apesar dessa não ser uma visão que se adote 100% do dia para a noite, há aprendizados valiosos de quem já passou por esse processo. Na minha jornada profissional, vivi os dois extremos: trabalhei mais de 10 anos em multinacionais complexas imersas em modelos tradicionais de planejamento e quase 6 anos no extremo oposto, no mundo de tecnologia e inovação. 

Há o que aprender em ambos os lados para trazer dicas que deixem o tema mais pragmático e viável. Então, para não ser uma mudança que já começa errada para outras empresas que querem testar essa abordagem mais ágil para a estratégia, deixo 5 pontos essenciais:

1 – A descoberta só é eficaz quando tem uma boa direção

É importante ressaltar que a descoberta da estratégia não significa ausência de direção ou propósito ou testar tudo ao mesmo tempo agora já. Uma empresa que adota essa abordagem ainda precisa ter uma visão clara e uma compreensão profunda dos seus valores fundamentais e do seu norte, aonde quer chegar. Esses elementos fornecem uma base sólida para a priorização e exploração de hipóteses, além de orientar a tomada de decisão em meio às incertezas.

2 – O planejamento da descoberta da estratégia se inicia encontrando boas hipóteses

Como falei no início, a descoberta também precisa de planejamento. Mas, nesse caso, o planejamento envolve a análise de dados internos e externos, pesquisas sobre clientes e mercado e insights do time interno para mapear oportunidades e hipóteses valiosas para a empresa chegar mais perto do norte desejado. Hipóteses baseadas em dados reais e atualizados têm maior probabilidade de sucesso. Com um bom mapeamento, é possível priorizar as hipóteses de acordo com impacto, confiança e facilidade, por exemplo.

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3 – Top-down e bottom-up, de forma colaborativa e quebrando silos

A visão de descoberta da estratégia fica muito limitada quando conta somente com a alta liderança da empresa ou fica restrita a apenas um time. Estruturas muito hierárquicas e compartimentalizadas refletem diretamente na estratégia, deixando-a desalinhada (com times às vezes projetando estratégias conflitantes ou retrabalhadas) e restrita às lideranças que não dedicam o devido tempo para engajar e envolver o seu time – time esse que será essencial para viabilizar a estratégia na prática e que certamente possui as melhores hipóteses para testar, uma vez que é o time que está com a mão na massa no dia-a-dia da execução. 

Em suma, é a coordenação e colaboração entre pessoas e os times que abre espaço para a articulação, alinhamento, sinergia rápida e compartilhamento de insights.

4 – Só testa de verdade quem tem método e consistência até o final

3 erros sobre cultura de experimentação: achar que ela é sobre testar qualquer coisa de qualquer jeito; fazer um teste tão grande que vira projeto longo; ou testar sem medir ou querendo validar mais de 1 variável por vez. Esses erros, quando ocorrem na realidade, dão a falsa impressão de que essa mentalidade não funciona. A cultura de experimentação envolve: 

  • Direção para priorizar as hipóteses de acordo com critérios relevantes para o negócio
     
  • Adequação do esforço do teste de acordo com o nível de certeza e fidelidade na solução, começando rápido e barato e aumentando a fidelidade a cada iteração 
     
  • Definição de métricas de sucesso e boas condições de contorno, idealmente com o foco em uma variável para avaliar, pois com mais de 1 variável você não sabe o que deu certo e o que não deu certo no teste. Como esse assunto dá um pano pra manga, vou fazer o próximo artigo só disso

5 – Olhos atentos para as oportunidades inesperadas

Um dos benefícios desse olhar de descoberta da estratégia é a capacidade de aproveitar oportunidades inesperadas. As surpresas, sejam elas boas ou ruins, indicam uma mudança de trajetória ou um fato novo que vale explorar. 

Muitas vezes, as melhores ideias e oportunidades de negócios surgem de maneira imprevisível, e as empresas ágeis e abertas à descoberta estão mais bem posicionadas para capitalizá-las. 

Ao invés de ficarem presas a planos estratégicos engessados, essas empresas têm a liberdade e a agilidade necessárias para aproveitar oportunidades emergentes e responder rapidamente às mudanças do mercado.

De um jeito ou de outro, o que queremos em qualquer negócio é encontrar as hipóteses corretas que fundamentam uma estratégia de sucesso. Mas com esse mundo de mudanças cada vez mais rápidas, as hipóteses também podem mudar, o que faz com que a estratégia esteja sempre em beta.

Como colocar em prática?

Esse é um dos nossos principais temas de palestras e workshops para times que realmente querem desenhar estratégias que saem do papel. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Referências bibliográficas:

[1] Aula Strategy by Design, do Programa Executivo de Stanford The Emerging CMO (Advanced Marketing Management), cursado em agosto de 2022.

[2] Sull, Donald; Sull Charles; and Yoder, James. No One Knows Your Strategy — Not Even Your Top Leaders. Boston, MA: MIT Sloan Management Program, 2018.

Vendas 2026: o que muda, o que permanece e o que realmente importa.

“A maneira como você imagina o futuro muda sua ação no presente. Então não é só o presente que constrói o futuro. O futuro também constrói o presente.”

Quando eu tive contato com essa frase de Thomas Frey pela primeira vez eu dei um suspiro longo.

Eu sempre acreditei que também somos fruto das nossas metas. Quando a gente pinta o alvo também cabe a nós calibrar como disparar a flecha, mesmo sabendo que as condições não são previsíveis.

Refletindo sobre as ideias que rondam por aqui, eu decidi me arriscar a apresentar algumas tendências sobre o mundo das vendas em 2026. Não é sobre prever, é sobre futurar.

Prever é adivinhar. Futurar é agir.

Vamos lá:

Tá cada vez mais evidente que a IA acelerou tudo… e, ao mesmo tempo, escancarou o valor do humano.

Vendas B2B

No B2B, a complexidade virou regra. O cliente já chega com benchmark, dado, relatório e três cenários possíveis. Nesse contexto, a tendência que vai moldar o comportamento dos profissionais de vendas em 2026 é a ascensão do vendedor-estrategista: aquele que não vende produto, vende capacidade de interpretação.

Porque quando todo mundo tem informação, o diferencial deixa de ser o conteúdo e passa a ser a leitura. É a habilidade de traduzir complexidade, conectar dados ao contexto, transformar barulho em clareza e fazer o cliente enxergar o que ainda não viu. Confiança vira moeda. Profundidade vira autoridade. E quem não conseguir personalizar de verdade vai virar apenas mais uma proposta perdida no inbox.

É aqui que a frase do Seth Godin ganha mais sentido:

“Os clientes desconfiam das empresas, mas confiam nas pessoas.”

Só que agora o jogo é ainda mais exigente. Eles confiam nas pessoas que sabem pensar junto com eles. Profissionais que formulam perguntas melhores, que desafiam premissas, que coconstroem a solução e que não se apoiam em script, mas em raciocínio. Em 2026, o vendedor que se destaca não será o mais rápido, nem o mais extrovertido, mas o mais preciso. O que entrega profundidade, contexto e coragem intelectual. O resto será apenas ruído.

Vendas B2C

No B2C, onde a indústria vende para o varejo, a dinâmica de 2026 deixa uma coisa evidente: não basta empurrar produto para dentro da loja. O jogo não é mais só sell in. O varejo está mais seletivo, mais pressionado por margem e muito mais atento ao giro. Isso significa que o profissional de vendas da indústria não é medido apenas pelo que entra, mas pelo que sai. E aqui está a virada:

Quem não dominar a lógica do sell out vai perder espaço.

Não adianta positivação de mix se o mix não gira. Não adianta distribuir catálogo inteiro se o ponto de venda não vê valor. E não adianta falar de preço se a indústria não estiver estruturada para ajudar o varejo a ganhar dinheiro também. Em 2026, parceria não é discurso. É matemática.

É por isso que as indústrias mais maduras estão criando ecossistemas completos para expandir poder de negociação: plataformas de dados, programas de capacitação, ferramentas de execução, conteúdo para o shopper, inteligência de precificação e até ações de tráfego para o varejista. Não é mais só vender o produto: é vender o pacote de competitividade.

Nessa lógica, o profissional B2C deixa de ser o vendedor que “fecha pedido” e vira o estrategista que integra sell in e sell out, prescreve o mix certo para cada loja, educa o varejista sobre margem e giro, constrói valor com dados e amarra execução com impacto real na venda final. Ele precisa entender o consumidor, mas também o negócio do varejo. Precisa influenciar sem antagonizar, precisa defender o mix sem empurrar, precisa provar valor antes de falar de preço. Porque, em 2026, o varejo não quer só fornecedor. Quer aliado. E aliado é quem faz o produto girar lado a lado.

Varejo

No varejo, o movimento é diferente, mas o impacto é o mesmo: o humano voltou para o centro da venda. A frustração com o digital (atraso, troca errada, falta de suporte e aquela sensação de que ninguém está realmente do outro lado) está trazendo o cliente de volta para a loja física. E quando ele volta, ele não quer um atendente: ele quer um especialista. O cliente redescobriu o valor do conselho bem dado, da explicação que simplifica, da pessoa que realmente olha, entende, acolhe e resolve.

A tecnologia até prevê intenção, mas quem confirma a decisão continua sendo o humano.

Porque, no varejo, o cliente não está comprando só um produto. Está comprando segurança, clareza e confiança.

E é aqui que entra a grande virada do profissional de vendas no varejo em 2026: a venda deixa de ser apenas consultiva e passa a ser prescritiva. O vendedor se torna influenciador, decodificador e educador. É ele quem traduz o excesso de opções, orienta escolhas, ensina o cliente a usar, compara com honestidade, recomenda com responsabilidade. Ele influencia sem empurrar, prescreve sem impor e educa sem complicar.

O novo varejo não premia quem atende rápido, premia quem atende melhor. Quem entrega contexto, quem reduz esforço, quem cria experiência. Em um mundo saturado de informação, o profissional de varejo que se destaca é aquele que ajuda o cliente a pensar menos e decidir melhor.E enquanto isso tudo acontece, a economia dá sinais interessantes.

Será?

As projeções econômicas também apontam para um 2026 menos turbulento do que 2024 e 2025. O OECD Economic Outlook prevê uma acomodação gradual da inflação e um ambiente de juros mais estável no Brasil, criando espaço para uma leve recuperação do consumo e para a retomada de investimentos represados. Já o BBVA Research projeta um crescimento moderado da economia em 2026, indicando uma transição para um ciclo menos pressionado e mais previsível. Não é milagre: é ciclo. E ciclos favorecem quem sabe antecipar movimento, não quem fica esperando “voltar ao normal”.

Então, o que realmente vai despontar em 2026?

1. A era do profissional-intérprete. Em todos os modelos, B2B, B2C e varejo, o vendedor que se mantém relevante é o que pensa, traduz e orienta. A IA acelera, organiza e antecipa, mas quem gera valor real é quem interpreta o contexto, diferencia o essencial do barulho e transforma dado em decisão. É a ascensão do vendedor-estrategista, tanto para o cliente corporativo quanto para o gerente da loja e o consumidor final.

2. A personalização de verdade (não a que só troca o nome no e-mail). 2026 exige menos automatização vazia e mais capacidade humana de enxergar nuances. Personalizar não é customizar oferta: é customizar leitura. É entender o momento, o cenário, o risco, o giro, a dor, a ambição. E entregar uma conversa, não um script.

3. Ecossistemas como arma competitiva. Indústrias que antes competiam por preço agora competem por capacidade de gerar valor para o varejo. Dados, ferramentas, capacitação, inteligência de execução, ações de tráfego, suporte ao shopper. Quem entrega ecossistema ganha poder de negociação. Quem só entrega produto vira genérico.

4. A prescrição como novo ápice da venda consultiva. O vendedor vira curador. No B2B, o que prescreve estratégia. No B2C, o que prescreve mix. No varejo, o que prescreve escolha. Prescrever não é empurrar, é assumir a responsabilidade de orientar. É ser influenciador sem ser raso; educador sem complicar; especialista sem arrogância.

5. A experiência híbrida com protagonismo humano. Online para autonomia. Presencial para confiança. Omnicanal não é tecnologia, é consistência de experiência. O cliente decide o canal, mas quem decide a compra é a interação que gera segurança.

E o que permanece? (Porque tendência nenhuma vence a essência)

Entre tantas mudanças, algumas verdades continuam inabaláveis e ignorá-las é desperdiçar todo o resto:

  • Confiança continua sendo a moeda mais valiosa das vendas.
  • Valor percebido sempre vence preço em qualquer ciclo econômico.
  • Execução segue sendo o grande divisor de águas.
  • Consistência supera intensidade. Todos os anos. Todos os mercados.
  • Vendas continua sendo o motor da empresa. E nada acontece antes dela.

Porque tendência aponta caminho. Mas é a essência que sustenta o movimento. E só quem honra a essência consegue, de fato, futurar.

De pertinho

O fato é que ninguém domina o futuro, mas todo mundo influencia um pedaço dele. E, se tem algo que aprendi nesses anos mergulhada no universo das vendas, é que o futuro não se observa de longe. Ele se constrói na prática, na intenção, na coragem de pensar diferente e no diálogo com quem está vivendo o mesmo campo de batalha.

Essas são as minhas leituras. As minhas apostas. O meu jeito de futurar. Agora eu quero saber do seu:

O que você acredita que vai moldar o mundo das vendas em 2026? O que você já está vendo no seu mercado, na sua empresa, no seu time? O que você acha que muda — e o que você sabe que permanece?

Vamos futurar juntos.

Aquele abraço,

Carol Manciola

Os 10 sinais silenciosos da falta de centralidade em clientes.

Se a gente perguntar a qualquer empresa se ela é centrada no cliente, a resposta quase sempre será “claro que sim!” – como se fosse óbvio (spoiler: não é).

E mais: é bem corriqueiro a gente ver sites, discursos e paredes das empresas polvilhadas de frases como:

  • “Aqui os cliente estão no centro centro”,
  • “Somos obcecados pelo cliente”
  • “A experiência do cliente é tudo”

Mas é só olhar com lupa pra perceber que existe uma distância ENORME entre o que é dito o que é feito.

É nessa distância que a gente atua. E é aqui que a gente compartilha com você alguns sinais para identificar esse gap.

Pra gente estar na mesma página: o que significa ser uma empresa centrada em clientes (pra além de um termo da moda)?

Muita gente ainda associa centralidade no cliente a bom atendimento ou a uma boa estratégia de marketing e vendas. Mas isso é só a ponta do iceberg.

Centralidade em clientes é uma estratégia transversal e sistêmica, que envolve compreender, projetar e evoluir a empresa a partir da perspectiva real dos clientes – durante TODA a jornada.

Na prática, isso significa que a criação de valor para os clientes vêm em primeiro lugar.

Mas não se trata de ignorar os objetivos da empresa. Trata-se de entender que, no cenário atual, com clientes cada vez mais exigentes, informados e com múltiplas opções, o único jeito de crescer de forma sustentável é gerando valor real pra quem tá do outro lado.

Mas porque tanta empresa AINDA patina quando coloca em prática?

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que, sim, tem empresas que cresceram colocando seus produtos (e seu P&L) no centro. Nada de errado aí. Mas o que nos trouxe até aqui não é necessariamente o que nos levará adiante, né?

Admitir essa mudança de contexto (em que o poder de barganha nos mercados está nas mãos dos clientes) é difícil pra caramba, sobretudo para as empresas que chegaram até aqui a partir de outro legado.

Ainda que muitas empresas tragam a centralidade no cliente para o discurso, isso não quer dizer que isso reverbera realmente na prática.

Pra começar, é difícil desapegar do “sempre foi assim” e se abrir para testar novas iniciativas.

E mais: sempre que surge uma nova tendência, muita gente entra nessa jornada pelas razões erradas: “o mercado tá fazendo”, “o board mandou”, “precisamos inovar”, “não quero ficar pra trás”.

Pra piorar, mesmo quando há uma boa intenção de levar o tema de centralidade no cliente para a prática, é difícil tangibilizar o que isso realmente significa. A centralidade no cliente muitas vezes permanece um conceito muito abstrato e sem “dono/a”.

E aí, como uma batata quenta que vai passando de mão em mão, é fácil dizer que a centralidade no cliente não é sua responsabilidade, deixá-la de lado e ignorá-la.

E o que começa como intenção legítima vira mais um projeto com prazo pra morrer no PowerPoint.

Banaliza-se um tema que, na real, é complexo, transversal e exige coragem pra mudar de verdade.

Em vez de transformação sistêmica, viram iniciativas isoladas. Em vez de cultura, viram campanhas. Em vez de escuta real, viram pesquisas com perguntas que só confirmam o que a empresa já queria ouvir.

E o pior?

Os sinais de que esse barco tá afundando são bem silenciosos, e muita empresa continua tocando o violino no convés, como se nada estivesse acontecendo. Aquela cena clássica do Titanic, lembra? rs.

Aqui estão os 10 sinais silenciosos da falta de centralidade em clientes.

Antes do barco afundar por completo, a falta de centralidade no cliente começa nos bastidores, nas rotinas, nas micro-decisões diárias que ninguém questiona.

Para te ajudar a identificá-los, a gente trouxe alguns desses sinais aqui. Por mais que doa, examiná-los é o começo da transformação que a gente tanto quer. Bora lá?

1. Cada área com uma visão diferente do que é ser centrado no cliente (e sobre quem é o cliente).

O marketing enxerga o cliente de um jeito, produto de outro, vendas de outro e CS de outro, mas ninguém para pra alinhar. Fica cada um puxando pra um lado, achando que tá fazendo a coisa certa. Mas, no fim, a experiência do cliente vira um quebra-cabeça sem encaixe.

Criar rituais de alinhamento entre áreas, mesmo que simples, muda esse cenário. Uma conversa mensal entre lideranças de times diferentes pra responder junto “quem é nosso cliente e o que ele valoriza?” já começa a conectar as peças. Quando fazemos isso JUNTOS, construímos uma visão unificada que melhora a experiência dos clientes.

2. Todos os clientes são tratados da mesma forma.

Quem quer ser tudo pra todo mundo, não é nada pra ninguém. Centralidade em clientes é, inclusive, entender que alguns clientes são mais valiosos do que outros porque têm mais potencial de gerar valor de forma mútua. Quando não há essa diferenciação, isso gera desperdício de esforço e oportunidades mal aproveitadas.

Isso não significa que você vai excluir ou deixar de atender alguém. Isso é sobre saber onde investir mais energia.

3. As pesquisas existem, mas não têm consistência e morrem no PowerPoint.

Elas até são feitas, mas raramente viram decisões reais (principalmente quando os dados contradizem os achismos e vieses internos). A escuta acontece, mas sem consequência concreta. E o cliente sente que, quando fala, muitas vezes não é levado a sério.

4. A jornada de clientes foi desenhada, mas não é levada a sério.

Ela existe, mas como peça de marketing interno, e não como ferramenta de gestão viva que trazem melhorias de fora (clientes) pra dentro (times). As áreas seguem agindo cada uma do seu jeito, sem pensar no seu papel na conexão e na melhoria da experiência dos clientes ao longo da jornada.

No final, a organização das áreas pode até parecer linda, mas reflete mais processos internos do que a jornada real do cliente (que sente a inconsistência em cada ponto de contato).

5. A proposta de valor segue igual, mesmo com o cliente mudando o tempo todo.

Se a proposta não evolui com as pessoas, ela perde relevância. E quando isso acontece, nem o melhor pitch de vendas segura. É preciso continuamente analisar e acompanhar as mudanças nas necessidades dos clientes para entender como estamos e podemos entregar valor agora e no futuro.

6. As áreas medem o que importa pra si, não pro cliente.

Marketing olha pra leads, vendas pra conversão, CS pro NPS, produto pra uso, e ninguém conecta os dados. Cada área foca no seu sucesso, não no sucesso do cliente. E o que não é visto de forma integrada, não melhora de verdade.

Métricas compartilhadas que atravessam áreas forçam a conversa e quebram silos. Quando o indicador requer colaboração, o cliente vira o foco de forma natural.

7. As pessoas colaboradoras estão exaustas, e isso transborda pra além dos bastidores.

Sem tempo, sem escuta e sem autonomia, a centralidade em clientes vira esforço mecânico. E o cliente sente quando a conexão não é genuína (e quando há uma inconsistência entre os valores comunicados para fora e a forma como eles não são aplicados dentro de casa). Experiência boa não tem como nascer de time esgotado, desalinhado e desmoti

Cuidar de quem cuida do cliente é estratégia. Escuta interna, autonomia e desenvolvimento fazem o time entregar uma experiência que nenhum script replica.

8. O cliente raramente é citado nas reuniões de decisão.

Fala-se de budget, metas, prazos… mas o nome do cliente quase não aparece. Fica claro que ele não é a referência. Não é o centro da tomada de decisão. E se o cliente não tá na sala, a centralidade nele também não.

9. O conteúdo é feito pensando no que a empresa quer dizer, não no que o cliente precisa ouvir.

O calendário editorial vira mais importante que o contexto real. E aí o conteúdo até sai… mas não conecta. Vira só mais uma interferência na timeline.

Uma pergunta simples muda a lógica: “O que o cliente está tentando resolver agora?” Quando a pauta nasce da escuta, o conteúdo conecta e a marca vira referência.

10. As métricas de sucesso ignoram o impacto real na vida do cliente.

Receita, volume, produtividade: tudo importante pra saúde do negócio, mas incompleto. Sem indicadores de confiança e de valor percebido, a empresa vai sem bússola. E aí o crescimento até vem, mas não se sustenta.

O que fazer com tudo isso?

Percebe como o caminho na direção da centralidade no cliente é muito menos óbvio do que a gente imagina?

Mas, se você chegou até aqui, talvez esse caminho já tenha começado pra você.

Embora cada um desses sinais mereça um artigo à parte (aguardem!), a principal mudança ainda é a de modelo mental. Começando daí, todo o resto se ajusta conforme se evolui nessa direção.

Por fim, se a gente puder deixar um “e se” pra você, seria esse:

E se, em vez de tentar aplicar uma fórmula pronta, sua empresa começasse questionando o próprio jeito de pensar sobre os clientes?

É aí que mora a virada.

Gostou do que a gente escreveu? Esse é um dos nossos temas de palestras e workshops para times que realmente querem colocar o cliente no centro. Se sua empresa estiver precisando aprender mais sobre isso, dá um alô pra gente aqui!

Matriz dos 4C’s: uma ferramenta poderosa para melhorar a integração entre times.

Desalinhamentos e conflitos entre times adjacentes acontecem mais do que a gente gosta de admitir. Depois de viver diferentes perspectivas da guerra velada entre marketing e vendas, criei uma ferramenta pra ajudar na integração e reduzir conflitos internos. Vou te explicar como usar 🙂

Eu já estive nos dois (e mais) lados da moeda: já fui vendedora, e já fui marketeira, já fui liderada, já fui liderança… E, mesmo sendo áreas tão próximas, todo mundo aqui deve concordar comigo que, infelizmente, o ranço entre elas é clássico e BEM real.

De um lado, o pessoal de vendas sente que o marketing não entende a urgência das coisas e não está conectado de verdade com seus clientes.

Do outro, o time de marketing enxerga pessoas de vendas como impacientes, egoístas (acham que seu cliente e seu problema é mais importante do que qualquer outra coisa) e focadas demais em objetivos de curto prazo, sem pensar na estratégia a longo prazo.

Seja por disputa de poder e budget, pelos perfis muito diferentes das pessoas ou pela relevância de cada time na estratégia, o desalinhamento entre qualquer outra área na verdade alerta sobre algo bem mais relevante: a falta de foco no que realmente importa, os clientes.

[isso vale também pra vendas x CS, marketing x produto, produto x tech e toda área que mais briga do que presta atenção nos clientes…]

Eu gosto dessa charge mais do que eu devia hahaha – pois ela representa muito bem a guerra velada entre as áreas como marketing, vendas, CS, produto…

Construir integração entre os times não acontece do dia pra noite, e adivinhe: não existe fórmula pronta pra isso. Mas, durante os caminhos que percorri, eu estudei modelos e testei várias formas de trazer esse alinhamento para a prática.

Uma delas é a Matriz 4C, criada por fontes da minha cabeça e da minha experiência. E antes que você pensa “mais um framework”, pensa comigo: ferramentas e frameworks nos ajudam a alinhar e organizar visualmente o que está bagunçado. De quebra, ainda servem como guia e gestão de conhecimento nesse processo de integração.

Bora comigo?

Matriz 4C’s: o que é e como usar essa ferramenta para integrar times, prevenir e remediar conflitos.

O que é a Matriz 4C?

É uma ferramenta que ajuda a organizar as atividades, os projetos, as responsabilidades e até as métricas que envolvem dois (ou mais) times que deveriam atuar de forma mais integrada.

A partir dessa organização, é possível consolidar e alinhar quais atividades e iniciativas os times adjacentes devem fazer em conjunto ou separadamente de acordo com o cruzamento entre dois eixos: transversalidade (atividades/funções mais transversais ou mais específicas) e importância (mais operacional ou mais estratégico).

Ela pode ser utilizada em todo começo de um projeto que envolve múltiplas áreas ou desdobramento de estratégia, de forma colaborativa e participativa entre os times envolvidos, pra dar mais clareza sobre o nível de interação e alinhamento entre as áreas.

O que significa cada elemento da Matriz dos 4Cs?

O nome da ferramenta é referência ao nome de cada um dos quatro quadrantes da matriz, todos começando pela letra C (uma feliz coincidência que ajuda a lembrar o seu nome).

Cada atividade, iniciativa, projeto ou responsabilidade é classificada de acordo com cada quadrante – e essa decisão deve ser tomada necessariamente em conjunto. Utilizando o contexto entre marketing e vendas como exemplo, vou explicar cada um deles na prática:

Quadrante 1: CONTINUAR. (atividades específicas e operacionais):

Aqui se enquadram as funções mais específicas e operacionais de cada área, que devem continuar em suas respectivas áreas alinhando apenas quando estritamente necessário e benéfico para a operação como um todo. Ex: rotina de postagem de redes sociais de marketing, rotina de construção de propostas comerciais de vendas, processo de atendimento de clientes de um time de CS, etc.

Quadrante 2: COCRIAR (atividades transversais e operacionais):

Se enquadram as atividades que são operacionais, mas possuem um impacto e envolvimento transversal de mais de 1 área. Nesse caso, elas exigem mão na massa de ambos os times e precisam necessariamente ser cocriadas e executadas em conjunto, pois a atividade se beneficia tanto da perspectiva como do envolvimento de todas as áreas. Ex: Cocriar um SLA (Acordo de Nível de Serviço).

Quadrante 3: COLABORAR (atividades específicas e estratégicas):

Aqui se enquadram as atividades que são específicas de cada time, mas com relevância estratégica para o negócio. São atividades que seguem sendo construídas e aprimoradas nos times responsáveis por elas, mas que, pela sua importância e impacto, se beneficiam com o alinhamento e colaboração com outros times em rituais periódicos com todos. Ex: a elaboração de uma nova campanha de marketing. Toda a execução será responsabilidade de marketing, mas é importante ter pontos de contato com vendas.

Quadrante 4: CONECTAR (atividades transversais e estratégicas):

Quando as atividades são transversais e estratégicas, elas devem ser construídas e aprimoradas de forma conectada entre as lideranças de cada time, mas contando com o apoio e garantindo o alinhamento transversal com todas as pessoas pertencentes aos mesmos. Ex: Revisão da estratégia anual ou criação dos OKRs de cada área. As prioridades estratégicas devem ser definidas com as lideranças dos times em conjunto, garantindo a conexão entre os objetivos e metas específicos de cada área.

O que você precisa saber pra utilizar a Matriz dos 4C’s com seu time:

Obviedade não-óbvia: para que a matriz realmente funcione, é importante que pessoas representantes dos diferentes times estejam presentes e envolvidas no momento da sua utilização.

E, para o momento da sua utilização, você pode criar um workshop seguindo essa lógica:

  • Alinhamento: A matriz só funciona se todos estiverem a bordo. Garantir que todas as pessoas envolvidas entendem o porquê da atividade, assim como os potenciais ganhos após o seu uso, é fundamental para que todo o processo ocorra bem. Isso envolve: explicar que a matriz é um bom primeiro passo, mas que é a jornada em seguida que concretiza a integração; garantir o buy-in de todas as lideranças envolvidas, pois elas vão dar o tom da reunião; e, por fim, compartilhar a importância da empatia durante todo o processo, com todas as pessoas deixando os julgamentos de lado e abertas para exercitar a sua curiosidade.
  • Workshop – levantamento individual: Durante o workshop, além de reforçar os pontos do alinhamento, comece pela explicação de como a Matriz dos 4Cs funciona. Assim que todos entenderem o significado de cada quadrante, separe de 15 a 20 minutos para que cada pessoa (ou cada time), individualmente, escreva as atividades, rotinas, projetos e responsabilidades que entende pertencer a cada grupo. Dessa forma, evitamos ao máximo enviesar o levantamento inicial.
  • Workshop – discussão em grupo: Em seguida, fazemos um momento de compartilhamento das atividades e discussão em grupo. Cada pessoa (ou time) compartilha e coloca as atividades que separou para cada quadrante e, em seguida, é aberta uma discussão guiada sobre os elementos de similaridade e de disparidade que surgiram após o compartilhamento.
  • Workshop – alinhamento em grupo: A partir da discussão feita, tomam-se as primeiras decisões de atividades por quadrante. Via de regra, as similaridades que aparecem logo de cara já se tornam definição e os pontos de conflito são discutidos 1 a 1 para que cada time compartilhe a sua perspectiva e chegue a um consenso sobre todas as atividades-chave.
  • Workshop – plano de ação: A partir do alinhamento feito, é natural que apareçam ações necessárias a serem feitas para levar os pontos discutidos para a prática. Esse plano de ação se torna um primeiro elemento de integração, com atividades de cada quadrante a serem distribuídas entre times e pessoas.
  • Documentação e revisão periódica: Ao fim do workshop, é importante garantir que todos tenham acesso à matriz final, assim como ao plano de ação que saiu dela. É importante que a matriz tenha momentos de atualização periódica (anual, por exemplo) ou quando houver algum impasse crítico entre os times envolvidos.

Tá, mas e depois?

Construir uma cultura de integração e colaboração entre times distintos não é um destino, mas um caminho a ser percorrido todos os dias – que exige esforço e paciência de todas as pessoas envolvidas.

Se você aceita um conselho de alguém que já passou por isso, comece com um primeiro passo, por menor que seja: tente construir esse alinhamento durante um processo, um novo projeto, uma nova rotina. À medida em que isso for dando certo, vai acabar se tornando uma prática, ganhando corpo e envolvendo mais pessoas, até se tornar parte da cultura.

E se você precisa de ajuda pra isso, aqui na Conectas, treinamos e desenvolvemos times que estão em conexão direta com clientes para que trabalhem cada vez mais integrados e olhando para o que importa: a experiência do cliente.

Fale com a gente aqui pra levar nossos treinamentos pra sua empresa. 😉

Por que Feedforward é muito melhor do que Feedback?

“Posso te dar um feedback?”

Para muita gente, só de ouvir essa frase dá um frio na barriga. Os escudos já sobem, preparados para a bomba que provavelmente vem por aí.

De certa forma, as pessoas têm uma ansiedade normal e compreensível em momentos de troca de informações e avaliações de performance com seus líderes e pares. Se, por um lado, queremos saber a visão de outras pessoas a respeito do nosso trabalho, por outro lado sempre há uma apreensão inerente ao momento de feedback. 

Muitas vezes, uma única reunião anual de uma hora de feedback é o que define se seu ano inteiro foi bom ou ruim.

Por outro lado, pelo amor ou pela dor, as empresas têm sido cada vez mais pressionadas a melhorar a experiência das pessoas colaboradoras no ambiente de trabalho. Com a lupa voltada para o aspecto humano das relações de trabalho, temas como transparência, quebra de hierarquia, espaço seguro, acolhimento e empatia se juntam à produtividade, performance e crescimento – das pessoas e do negócio.

Com isso, apesar de muitas empresas ainda tratarem e aplicarem o feedback como um momento tenso, protocolar e muitas vezes mais associado a críticas do que a elogios, novas técnicas e iniciativas ganham força em ambientes mais contemporâneos e ágeis. Entre essas técnicas, está o feedforward. 

Apesar de não ser algo super novo, o feedforward ainda é pouco conhecido e aplicado nas empresas, em muito pelo medo de testar algo novo, que reduz a hierarquia e ressignifica as relações de poder. Tanto para líderes como para liderados, posso falar com tranquilidade: eu aprendi, aprimorei e aplico o feedforward já há alguns anos e, por meio dele, tornei-me uma liderança melhor e muito mais conectada com as pessoas e times que fazem parte do meu ambiente de trabalho. 

Por esse motivo, quero “espalhar a palavra” e convencer mais pessoas de que esse é um caminho muito mais saudável e produtivo para nutrir as relações de trabalho. Vamos lá?

Por que o feedforward é MUITO MELHOR que o feedback?

O feedforward é um processo diferente de avaliação e reflexão de interações entre pessoas e times. Vejo nele 4 diferenças fundamentais em relação aos feedbacks que dei e recebi em experiências anteriores e que acho essenciais para estreitar a relação entre times remotos:

  • O feedforward é uma via de mão dupla (ou múltipla): Em toda sessão de feedforward, todos têm a oportunidade de falar, pois é um processo de análise de todas as perspectivas de uma mesma interação: seja uma dupla ou um time inteiro. Não é só a liderança que analisa o time: o time também analisa a liderança. Não há nenhuma superioridade entre líder e liderado – são todos parte de um time. Inclusive, ele pode ser feito entre líder e pessoa liderada (como um 1:1) e também entre times (fixos ou temporários, de projetos) e entre pares do mesmo ou de outro time. Eu mesma já fiz sessões de feedforward até com clientes após um projeto ou análise de um ciclo de trabalho e até na minha vida pessoal (risos). Onde há uma relação relevante a ser aprimorada, há espaço para o feedforward.
  • O feedforward pensa no futuro: A crítica pela crítica não vale nada pra ninguém – e, sinceramente, é muito mais fácil criticar e apontar erros e culpados sem pensar em caminhos de solução. O que tem valor real é a crítica que olha para como melhorar no futuro. Além disso, até a forma de compartilhar e organizar a informação deixa pra trás o tom frequentemente mais agressivo e privilegia o tom propositivo. No feedforward, ao invés de apontar erros e falar o que não gostamos, compartilhamos o que gostaríamos que fosse diferente. E, pra cada “gostaria”,, há um “e se”, uma sugestão propositiva de melhoria. Os melhores feedforwards são aqueles dos quais saímos com várias ações e caminhos para fazer diferente no futuro.
  • O feedforward aproxima e conecta pessoas: Ao criar um ambiente seguro para a troca de sentimentos e percepções, a aproximação entre as pessoas é certa. O feedforward extrapola o ambiente profissional e abre espaço para o compartilhamento de aspectos pessoais que impactam (positiva ou negativamente) na vida profissional. É um momento em que podemos expor nossas vulnerabilidades e, quanto mais nos permitimos ser quem nós somos, mais as outras pessoas se encorajam a ser quem são também. Tudo isso cria relações mais verdadeiras. Em todos os feedforwards que já fiz, eu sempre saio melhor do que eu entro, mais motivada e conectada com as pessoas que trabalham comigo.
  • O feedforward contribui para produtividade dos times: Esse ritual, quando feito com frequência trimestral, por exemplo, não deixa acumular questionamentos e incômodos como em feedbacks semestrais ou anuais e também é um momento frequente de reconhecer as pequenas vitórias e os pontos positivos de cada um. A cada sessão, não há ponto sem nó: saímos com pontos acionáveis a serem trabalhados em conjunto para serem revisitados  na sessão seguinte, fazendo com que a discussão seja propositiva e intencional. Com isso, a relação melhora a cada ciclo e ele intensifica a transparência, a aproximação e a motivação do time.
  • O feedforward desenvolve a liderança: Como via de mão dupla, a liderança também aprende no processo, escuta as percepções do time sobre seu trabalho e sua atuação como líder e parte do time. É um momento de resolver dúvidas (sem deixar acumular), de exercitar a escuta ativa e de se abrir para a relação com as pessoas do seu time.

Na prática, como funciona o feedforward?

O objetivo do feedforward é refletir sobre você mesmo, sobre o time, sobre a organização, sobre a outra pessoa e sobre a relação entre vocês. O escopo de análise pode ser mais fechado (sobre um projeto ou um ponto específico da relação) ou mais abrangente (pensando em todo o contexto em que cada pessoa está envolvida).

Os participantes têm um primeiro momento individual (5 a 10 min, a depender da frequência e da proximidade entre as pessoas) para escrever suas reflexões (sobre a outra pessoa, sobre você, sobre a relação entre vocês, sobre a empresa ou sobre um projeto ou time em caso de feedforwards em grupo). O tempo é propositalmente curto para que o que é mais latente venha à tona – isso dá foco ao que mais importa e reduz as picuinhas. 

Dica: para deixar o silêncio do momento da escrita menos desconfortável, geralmente colocamos uma musiquinha enquanto estamos escrevendo (deixa o processo mais leve).

Nessa reflexão, dividimos a análise em 3 ângulos: pontos que eu GOSTO e valorizo (pontos positivos), pontos que GOSTARIA que fossem diferentes (pontos de melhoria) e, para cada GOSTARIA, é necessário ter um E SE como forma propositiva de pensar em pontos negativos com o viés propositivo de olhar para melhorias no futuro. ‍cada observação deve ser colocada em 1 post-it. Vou dar um exemplo de 3 pontos que já compartilhei em um feedforward com uma pessoa que estava saindo do onboarding no time:

  • GOSTO: De como você constantemente embasa suas decisões com análises e dados.
  • GOSTARIA: Que você não esperasse até a última hora para falar quando algo vai dar errado, pois eu posso te ajudar com antecedência.
  • E SE: Deixarmos um 1:1 de 15 min semanal até o fim do próximo trimestre para você me compartilhar as dúvidas e problemas até você sentir mais segurança na função.

Em seguida, cada pessoa compartilha seus pontos para a outra pessoa ou para o grupo. Ao longo do compartilhamento, é comum e produtivo abrir espaço para adicionar pontos e comentários que vão surgindo ao ouvir a outra pessoa comentar sobre o que foi compartilhado, principalmente pontos de “E SE”, que trazem sugestões e caminhos para ampliar o que está bom ou melhorar o que precisa ser melhorado.

Ao fim do processo, o ideal é convergir nos principais pontos acionáveis para o próximo ciclo, como um plano de ação e desenvolvimento que será trabalhado e retomado no fim do ciclo seguinte. Deixo também sempre uma caixinha de insights e oportunidades mais amplos que podem surgir ao longo da conversa e merecem ser destacados. Se feito com frequência (ou seja, não tem muita coisa acumulada pra falar), todo o ritual costuma demorar de 45 a 60  minutos.

Esse é um exercício que pode ser feito virtualmente (para times remotos) ou presencialmente (para times que trabalham no mesmo local). 

As imagens abaixo mostram o framework que eu utilizo em feedforwards remotos (em ferramentas como MURAL ou MIRO) e também uma foto de um feedforward presencial com post-its mesmo. Confesso que hoje prefiro registrar sempre no framework no mural, mesmo que a conversa seja presencial, pois facilita a documentação (vou salvando os arquivos por data e pessoas envolvidas).

Arquivo pessoal Carolina Nucci

Arquivo pessoal Carolina Nucci

Por que o feedforward é ainda mais importante agora?

Estamos há mais de 5 anos tomando o trabalho remoto ou híbrido como algo comum que faz parte do dia a dia das empresas e das relações de negócios. 

Por mais que haja um avanço das tecnologias e dos meios de conexão em rede, os negócios e as organizações ainda são feitos por pessoas. Com o aumento dos estímulos, dos canais e da complexidade e do volume de temas que precisamos endereçar no dia a dia, as relações humanas vão ficando em segundo plano e sentimos cada vez mais a perda do cuidado.

Uma consequência disso é o acúmulo de sentimentos (bons e ruins) que a gente não bota pra fora junto com julgamentos sobre outras pessoas sem saber o que está acontecendo do outro lado também. As trombadas de corredor nem sempre estão mais lá. Só vemos as pessoas mais próximas algumas vezes por mês e o assunto principal quase sempre é trabalho. 

POR QUE IMPORTA?

Ainda não aprendemos a trabalhar de forma distribuída. Vira e mexe, vem aquela mensagem no Whatsapp mal interpretada, aquele áudio numa hora ruim, a pressão do momento, o desalinhamento em reuniões. Tudo isso se intensifica com a distância e pode gerar atritos, mal entendidos e outras falhas de comunicação. Da mesma forma, os pontos positivos, os reconhecimentos e as vitórias podem ter menos força ou ser deixados pra “quando der”.

Mas isso não é uma crítica ao trabalho remoto ou distribuído – pelo contrário. Mesmo no presencial, esses problemas acontecem pelos mesmos motivos. Procrastinar conversas profundas é fácil (principalmente as mais difíceis) – mas não vale a pena. 

Guardar sentimentos nem sempre faz bem e, ao não compartilhá-los com quem precisa, perdemos a oportunidade de construir uma solução comum. Seja no ambiente presencial ou remoto, precisamos aprender a melhorar o que há de mais rico nas organizações: as conexões entre as pessoas que dela fazem parte. 

Nesse sentido, pra mim, o feedforward tem sido um grande aliado da aproximação, da resolução de conflitos e dos reconhecimentos de cada pessoa que esteve junto comigo durante esses anos cada vez mais desafiadores. A cada feedforward, eu aprendo a ser uma líder e uma pessoa melhor.

É preciso atenção para sempre reconhecer as coisas boas, humildade para admitir os erros e coragem para encarar medos e incômodos de forma propositiva. É preciso quebrar a inércia, mas vale a pena. Uma vez que você começa, não pára mais.

É um ato de empatia. Com os outros e com você.

Que tal marcar seu primeiro feedforward com uma pessoa com quem você precisa conversar?