Arquivos de Autor: Carol Nucci

Por que tantas estratégias de ABM falham?

“ABM is B2B”. 

Eu li essa frase no tênis do Sangram Vajre (uma das minhas referências para ABM – Account-Based Marketing) no palco do Inbound 2019 – o que parece um século atrás.

Mas a mensagem segue bem atual: ABM é a base dos negócios B2B. E negócios B2B que vendem baseados em contas existem desde que o mundo (dos negócios) é mundo.

No entanto, com mais e mais tecnologias, IAs, fórmulas prontas e hacks mil, a lógica personalizada e qualificada que deveria ser inerente às relações de negócios B2B deu lugar à escala a qualquer custo – seguida, é claro, pela frustração quando nada disso funciona como prometido.

O primeiro passo para reverter essa frustração é compreender o porquê das falhas. Nesse artigo, vou me aprofundar justamente nas bases dos tantos e tantos casos de falha ao implementar uma estratégia de ABM. Se você enxergar a sua empresa nessas falhas, tá tudo bem, você não está só – e bora reverter esse cenário!

Antes de falar de ABM, vamos falar de B2B como um todo. 

Eu deixei o B2C para trabalhar com negócios B2B há 10 anos, em uma indústria multinacional.

Naquela época, muito do negócio era relacional, com uma geração de demanda mais passiva, com um marketing mais de suporte e uma jornada de compra sales-driven fragmentada e cheia de oportunidades para trabalhar.

O interessante aqui é que, nos anos seguintes (e até agora), eu trabalhei com mais de 20 negócios B2B diferentes. Em multinacional, em consultorias e em startups – em diferentes mercados também. E me deparei, em todos os casos, com desafios muito similares:

  • A dor inicial é: Funil muito instável e pouco previsível;
  • Sustentado por um desalinhamento estratégico e operacional entre marketing e vendas – e CS, que muitas vezes é esquecido na equação;
  • Os times atuam com uma segmentação de clientes inadequada  – e direcionamento de recursos também;
  • Que reflete na jornada padronizada e zero personalizada;
  • Com muito foco em aquisição e pouco foco em retenção de clientes;
  • Sem se preocupar com a gestão do conhecimento – sobre clientes, processos, dados….

Essas dores, em mercados estáveis e com poucos players, até pouco tempo não eram tão gritantes. Mas, nos últimos anos, a situação mudou – e continua mudando por dois motivos que parecem óbvios na teoria, mas seguem incomodando na prática: os clientes B2B seguem mudando cada vez mais rápido e a jornada de compra está cada vez mais complexa. 

1. Os clientes B2B seguem mudando cada vez mais rápido: 

Todo mundo sabe que, com o atual contexto digital e com o aumento de possibilidades, os clientes (no B2C e no B2B) hoje são muito mais informados, possuem muito mais possibilidades de solução e possuem o poder de barganha na relação de negócios.

>> NA PRÁTICA, ISSO SIGNIFICA QUE: com mais informações e opções de compra, a expectativa das pessoas e empresas clientes segue cada vez mais alta. Segundo o Sales Force, 92% das pessoas compradoras de negócios B2B querem uma experiência tão encantadora como se estivessem comprando no B2C. E, além disso, 94% das pessoas (pasmem) querem ser tratadas como PESSOAS, e não como números. 

>> MAS, POR ALGUM MOTIVO, muitas empresas seguem ignorando essa tendência e apostando em um playbook antigo centrado no produto (e não nos clientes). Com isso, acabam usando a tecnologia para ampliar esse padrão, oferecendo uma mesma oferta para clientes que não necessariamente precisam dos seus produtos.

Apesar de não faltarem dados e evidências que nos apontem que precisamos adotar estratégias mais personalizadas e centradas nos clientes (como ABM), por que algumas empresas ainda insistem em tratar os clientes do jeito que nós não gostamos de ser tratados?

2. A jornada dos clientes está cada vez mais complexa:

Também não é novidade pra ninguém que as jornadas de compra estão cada vez mais complexas, com mais e mais possibilidades, canais, informações, mudanças e players para seus clientes analisarem e escolherem.

NA PRÁTICA, ISSO SIGNIFICA QUE… os nossos clientes dominam boa parte da jornada de compra. ,Com tantas opções, informações e caminhos, é deles o poder de barganha, usando múltiplos canais, envolvendo mais pessoas e pedindo por mais fluidez, geração de valor e encantamento na jornada ponta-a-ponta.

> MAS, POR ALGUM MOTIVO… A jornada interna que se conecta a essa jornada está cada vez mais fragmentada, desalinhada e cheia de fricções. A complexidade externa resultou em uma complexidade interna que privilegiou a especialização do que integração entre os times. As áreas de marketing, vendas, CS, operações e produto se fragmentaram em várias subáreas que, além de não se conectarem entre si, também não se conectam bem com seu entorno.

O desalinhamento entre marketing, vendas e outras áreas de uma empresa é a maior evidência de falta de centralidade no que importa: O CLIENTE.

Dados não faltam para mostrar as consequências (De gente que passa a vida pesquisando):

  • Apenas 0,75% dos leads viram clientes (Forrester);
  •  <2% de cold calls viram reuniões (LeadJob);
  • -63% é a redução da conversão de um deal guiado apenas por vendas (Gartner);
  • +74% é o avanço médio da jornada de compra de um cliente B2B até entrar em contato com vendas (Gartner)

Adicionando um pouquinho mais de caos nesse cenário, esses desafios se intensificam quando fazemos o recorte de vendas complexas B2B pra grandes contas, ou seja:

  • Ciclo de vendas longo, de 3 meses a 2 anos;
  • Alto ticket médio ou LTV – o que significa que é uma venda de alto risco para o cliente,
  • Por esse motivo, são várias as pessoas da empresa que são envolvidas ao longo da jornada de compra;
  • E, para nutrir esse relacionamento, o CAC (Custo de Aquisição) para esses clientes é tão alto quanto o potencial retorno financeiro (LTV) para a empresa.

Deveria ser óbvio, mas não é: Quanto mais complexa for a jornada do cliente, mais complexa e arriscada é a venda (o risco é de tempo, de recursos e de dinheiro – dos dois lados).

Concorda comigo que, nesse cenário, não dá pra jogar a rede e esperar a maior quantidade de peixes, né? Não podemos tratar clientes de forma igual, fragmentada e desalinhada.

Para diminuir o risco das vendas e conquistar e criar relações de confiança que queremos com os clientes, precisamos tornar a jornada mais conectada, fluida e personalizada possível.

É aqui que entra o ABM (Account-Based Marketing).

O que eu aprendi sobre ABM há 10 anos

Claramente, o contexto B2B que enfrentei em diferentes empresas não estava funcionando e, ao pesquisar por caminhos de solução, eu encontrei o ABM como a estratégia salvadora da pátria.

De 10 anos pra cá, nos meus primeiros contatos com conteúdos da Engagio e da Terminus (e outras fontes que conheci desde então), aprendi que ABM é uma estratégia de marketing hiper personalizada e voltada para vendas complexas, focada em contas-alvo pré-definidas de acordo com o seu Perfil de Cliente Ideal (o tal do ICP). 

Quando comecei a estudar sobre o assunto, essa era uma estratégia que parecia simples e lógica, com 5 passos definidos para o sucesso:

Mas, tal como já vi com outras estratégias e métodos da moda, na hora de colocar essa metodologia pra rodar na prática, alguma coisa se perdia e, via de regra, o que eu mais ouvi – e continuo ouvindo muito – foi que “ABM não funciona” ou “ABM não gerou nenhum resultado”ou ainda que “ABM não é pra mim”.

Mas… se esse é o passo a passo, porque tem tanta empresa frustrada com ABM?

Mas então por que as estratégias de ABM falham tanto?

Em vários anos aplicando ABM em diferentes contextos e hoje mentorando empresas na implementação de estratégias de ABM, vivenciei os meus aprendizados mais de uma vez, então reforço eles aqui para você não sofrer como eu sofri, rs.

Eu organizei esses aprendizados em 7 modos de falha que, na minha visão, fazem com que as estratégias de ABM não funcionem na prática – e também sugiro ações para evitar que eles aconteçam:

>> Modo de falha 1: Tratar ABM como receita de bolo. 

Se as bases do ABM são personalizaçãohumanização e vendas complexas, não é meio paradoxal tratarmos ABM como uma receita de bolo pronta pra replicarmos? Eu acredito que ABM é menos uma fórmula mágica e mais uma mentalidade de longo prazo. Não é só uma play pontual, seguindo o passo a passo, que vai fazer com que a gente se conecte com a conta que estamos buscando, mas sim, a mentalidade de personalização e construção de relacionamentos.

>> Modo de falha 2: Identificar ICP e contas-alvo no achismo (e na preguiça mesmo) 

Essa pode ser uma armadilha muito comum em ABM. Às vezes, a gente acaba escolhendo contas com uma análise genérica e pouco aprofundada, e isso pode nos levar a investir tempo e recursos em contas que não têm tanto fit com nosso negócio. Uma das consequências é que, na preguiça, as empresas estão todas indo nas mesmas 500 grandes contas dos rankings de Forbes, Valor e Exame, saturando os contatos dessas contas. O que muitas vezes a gente não vê, são as oportunidades em um monte de contas tão relevantes quanto, com ótimo fit para o negócio e que são menos high profile.

>> Modo de falha 3: Esquecer os CPFs dentro dos CNPJs

É importante lembrar sempre: nossos clientes, além de empresas, são feitos por pessoas. No segundo “B” do B2B tem um monte de “C” junto: precisamos entender e personalizar a jornada para AS PESSOAS dentro das contas que queremos conquistar, tal como se faz no B2C. Se dedicamos tempo suficiente em conhecê-las, nossa estratégia de ABM agradece!

>> Modo de falha 4: Achar que ABM se faz só em marketing. 

Eu sei que o nome sugere, mas pensar que ABM é uma estratégia exclusiva do marketing na verdade pode limitar o impacto que ela pode ter. ABM é uma abordagem colaborativa que envolve marketing, vendas, CS, produto, e quem mais estiver envolvido na jornada do cliente, trabalhando juntos para personalizar e nutrir o relacionamento com as pessoas.  Eu acredito que ninguém é mais dono das estratégias de ABM do que todo mundo junto. Pra mim, poderíamos trocar “Account-Based Marketing” por “Account-Based Business” rs.

>> Modo de falha 5: Áreas desintegradas e desalinhadas. 

Não há estratégia de ABM que funcione com uma guerra velada entre marketing e vendas (e CS, produto, por aí vai). Se ABM é uma estratégia colaborativa onde várias áreas trabalham juntas, é mais do que importante que essas áreas estejam alinhadas e integradas antes mesmo de começar. Inclusive, muitas empresas vêm acabando com a separação entre as áreas de marketing e vendas, criando uma área de “revenue” onde todos trabalham olhando para as mesmas métricas.

Áreas no mesmo time ou não, é fundamental compreendermos as diferentes perspectivas de cada área envolvida, equilibrar suas diferentes necessidades e o que esperam com a estratégia, criar metas em conjuntos e estabelecer processos que funcionem pra todos. Ufa! Paz, né? Aliás, falei sobre isso com o Denis Garcia, Head de Grandes Contas na área de Sales Solutions do LinkedIn. Espia esse papo aqui!

>> Modo de falha 6: Não organizar a casa antes de iniciar a estratégia de ABM

Por “organizar a casa”, entenda: proposta de valor, dados, CRM, processos, SLA… As bases de uma operação de ABM bem sucedida sempre são deixadas “pra quando der”, como se fosse uma perda de tempo. Mas estabelecer uma estrutura mínima é fundamental para que a estratégia de ABM não tropece em desalinhamento, retrabalho e ineficiência antes mesmo de começar.

Essa estrutura mínima, por sua vez, engloba:

  • Proposta de valor e PMF validados para grandes contas: Não há estratégia de ABM que funcione sem uma proposta de valor validada e alinhada entre as áreas.
  • Visão integrada de processos, métricas e jornada do cliente: Todos devem ter a mesma visão sobre a jornada do cliente, critérios de qualificação, KPIs, SLA e outros processos que conectam as áreas.
  • Gestão do conhecimento integrada e atualizada: As informações sobre clientes, contas, contatos, KPIs, insights, resultados de plays, etc devem estar integradas e acessíveis para todos.

>> Modo de falha 7: Tentar mudar a estratégia completamente do dia pra noite. 

Implementar ABM é um processo que exige adaptação e ajustes contínuos. E o mais importante: que afeta o funil de vendas, por isso requer uma transição bem feita. Ao invés de tentar mudanças drásticas de uma só vez, acredito que é mais eficaz fazer mudanças graduais. Realizar testes, documentar os resultados e aprender com eles permite ajustes precisos no que não está funcionando tão bem, facilitando o crescimento sustentável e consistente dessa abordagem ao longo do tempo.

Tá, e daí? E como evitar esses modos de falha em ABM?

Se a 10 anos atrás a definição de ABM que eu tinha era de um processo simples e lógico, hoje essa definição mudou pra mim:

ABM é uma mentalidade de longo prazo, voltada para vendas complexas baseadas em contas, que envolve todos os times de negócios e humaniza e personaliza relações B2B pra guiar o crescimento centrado nos clientes. 

Evitar essas armadilhas requer um olhar mais atento para como o ABM deve ser implementado na prática. Isso passa por criar uma cultura de personalização e integração real entre as áreas, alinhar objetivos, desenvolver ICPs baseados em dados reais e estruturar um plano de longo prazo para construção de relações.

Os 7 mandamentos do Departamento de Prevenção a Vendas

O Departamento de Prevenção a Vendas (ou DPV para os conhecidos) pode parecer uma piada boba, mas é bem real.

Derivado do Departamento de Prevenção a Inovação, o DPV  é um conhecido de todos nós. Possui representantes e aliados infiltrados nas mais diversas áreas e níveis hierárquicos. E, apesar de todo mundo reclamar da sua atuação, muitas vezes esse é o departamento que mais cresce nas grandes empresas.

Quando paramos para analisar, vemos que o DPV se faz presente mais frequentemente do que se imagina, faz parte do nosso dia a dia e estamos mais acostumados com ele do que gostaríamos.

Reclamamos dele quando um cliente não avança na jornada, quando não recebemos apoio ou quando encontramos obstáculos absurdos para fechar negócios e gerar receita.

Num primeiro momento, a simples existência do DPV não faz o menor sentido – e, por esse motivo, causa tanta revolta e conflitos nas organizações.

Afinal, por que ter tanta gente jogando na contramão das vendas dentro das empresas?

Nós esquecemos que o DPV não atua de forma proposital com o intuito de atrapalhar as vendas e o crescimento das organizações.

Ele apenas faz parte e é um reflexo da complexidade inerente às empresas: quanto maior, mais cheia de cargos e silos é a estrutura, maiores são as amarras para garantir alinhamento e manter no mesmo barco todas as partes que compõem a empresa.

No entanto, aquilo que muitas vezes é criado para proteger e alinhar acaba emperrando as engrenagens e colocando em risco o futuro da organização.

Agora, não é porque algo é inerente à estrutura que não deve ser combatido ou ressignificado para se adaptar melhor a um novo contexto.

Por esse motivo, de forma descontraída (porém bastante fidedigna), mapeei com base na minha experiência os 7 mandamentos do Departamento de Prevenção a Vendas, mandamentos esses que precisamos conhecer e reconhecer para poder atuar sobre eles na transformação das organizações do futuro.

Mandamento 1: Não se misturarás.

Quanto maior é a empresa, mais dividida em silos ela é.

E o DPV não só gosta de formar silos, como trabalha para mantê-los desconectados entre si.

Cada silo define suas prioridades e metas de acordo com o seu escopo, muitas vezes gerando direcionamentos contraditórios e ineficientes. Esse distanciamento leva ao crescimento do DPV, que não enxerga a quantidade de retrabalho, desalinhamento e inércia do negócio gerados por ele.

O conflito se agrava quanto mais distante a área for do cliente, mas não precisamos ir tão longe assim: afinal, quem aqui já não viu (muita) venda perdida por conta da falta de integração entre marketing, vendas e CS?

Exemplos não faltam: marketing cria campanhas sem consultar vendas, resultando em leads que não correspondem ao perfil ideal de cliente. Vendas, por sua vez, reclama da baixa qualidade dos leads, mas não fornece feedback estruturado ao marketing, perpetuando o ciclo de ineficiência.

E tudo isso desemboca em um CS tão afastado que toma o ônus do churn de clientes completamente fora do perfil, e por aí vai…

Mandamento 2: Criarás políticas para tudo.

Membros do DPV não podem ver nenhum vestígio de ideia nova ou de processos novos.

Quando isso acontece, surge no departamento um desejo incontrolável de criar políticas para controlar cada potencial novidade.

O DPV acredita que a criação de uma política para qualquer mudança é uma forma de controlar o processo e diminuir riscos. No entanto, essa burocracia se transforma em uma barreira enorme à experimentação de novas abordagens, dificultando a aprovação e adoção de novas práticas.

Para exemplificar, não tem nada melhor do que os inúmeros casos de implantação de CRM. Muitas vezes há tantas amarras e políticas para customizar o uso de um CRM que o engessamento compromete justamente a sua função básica: fazer a gestão real do relacionamento dos clientes.

Mandamento 3: Jamais mexerás em time que está ganhando.

O velho ditado “em time que está ganhando não se mexe” é um mantra do DPV.

A melhor proteção a qualquer nova iniciativa é se apoiar nos bons resultados que trouxeram a empresa até aqui. No entanto, o ritmo das mudanças no contexto digital põe em cheque qualquer estabilidade, e a resistência à mudança inerente ao DPV pode resultar em uma empresa que se torna míope e incapaz de se adaptar a novas oportunidades.

Aqui se encaixam todas as empresas que morrem abraçadas no “eu sempre vendi sem precisar de algo novo” e perdem completamente o timing de atribuir novos elementos-chave na operação para acompanhar as necessidades dos próprios clientes.

Mandamento 4: Quando em dúvida, sempre dirás não.

O DPV adora dizer “não” a qualquer necessidade ou iniciativa que altere o rumo atual das coisas.

O “não” é confortável, dá menos trabalho e protege de futuros problemas. No entanto, esse comportamento inibe a conexão, a construção colaborativa e a inovação. Enquanto o DPV diz “não”, o time de vendas deveria perguntar “por que não? E se…”.

Aqui moram todas as ideias que pessoas de vendas já trouxeram para a matriz com base na sua vivência contínua no campo, mas que simplesmente não encontram uma boa alma apoiadora do povo do escritório que nunca interagiu com um cliente sequer.

Mandamento 5: Não aceitarás erros.

O DPV não aceita erros. Esse departamento exige muito planejamento e pouca execução para garantir o “fazer certo da primeira vez”.

Isso resulta em excesso de planejamento e pouco teste prático, o que pode levar a descobertas tardias e custosas. Além disso, um ambiente que não tolera erros inibe a criatividade e a possibilidade de encontrar novos caminhos para resolver problemas.

Essa intolerância ao erro não só mata na raiz várias ideias diferentes para vender mais, como também aumenta a perda de timing com excesso de planejamento de novos produtos que nunca envolveram um teste sequer com usuários reais.

Mandamento 6: Deixarás os projetos morrerem no papel (ou no ppt).

Em raros momentos, o DPV até dá corda a algumas novas iniciativas. No entanto, sem flexibilidade nos mandamentos, a inovação não passa de um voo de galinha.

A criatividade e euforia das novas iniciativas morrem em uma apresentação de PowerPoint quando a implementação não tem o investimento necessário. Isso gera frustração, descrédito e minimiza a chance de novas brechas para vender de forma centrada no cliente.

Já vi isso acontecer com inúmeras ideias e iniciativas geradas ou apresentadas em uma convenção de vendas, por exemplo, mas que depois não recebem o investimento necessário e, assim como outras, morrem na promessa.

Mandamento 7: Não ouvirás.

Esse é o mandamento mais danoso do DPV.

Certo de suas convicções, o DPV não sente a necessidade de absorver outras opiniões, especialmente as que diferem das suas. Isso diminui as chances de antever e identificar mudanças de contexto e comportamento do cliente, aumentando a miopia da operação e da empresa como um todo.

Esse mandamento é especialmente presente nas pessoas “mais velhas de casa”, aquelas que acham que sabem mais sobre os clientes do que os próprios clientes e que, por conta disso, preferem ver o barco afundando ao invés de dar ouvidos a novos insights que podem tapar o furo por onde os clientes estão vazando.

Existe um DPV dentro de cada um de nós.

Em muitos casos, a inibição causada pelo DPV é tão forte e enraizada que é como se uma parte dele fosse parar dentro de cada pessoa. Na mesma hora em que alguém pensa em uma nova ideia, essa mesma pessoa já se poda mentalmente:

“Não vai dar certo”;
“É muito arriscado”;
“Não vale a pena”;
“Eu nem sou uma pessoa criativa”;
“Ninguém vai aprovar – nem eu”.

Muitos de nós fomos criados e desenvolvidos sob uma lógica mais industrial de padronização, eficiência e produtividade.

Desde a escola até as grandes empresas, os incentivos e reconhecimentos reconhecem um mesmo padrão de sucesso e penalizam caminhos que aparentemente fogem do “normal”. Com isso, nada mais lógico do que a nossa própria mente inibir qualquer pensamento, ideia ou comportamento mais “fora da caixa”.

Por esse motivo, o combate ao DPV começa com a chance que a gente dá para nós mesmos de acreditar que podemos inovar, vender e resolver a dor dos nossos clientes. Enfrentar nossas inseguranças, nosso medo de errar e propor algo novo é o primeiro e mais difícil passo. É uma quebra de inércia importante e, depois que a gente começa, é igual vaso quebrado: é um caminho felizmente sem volta =)

Mas… Depois de enfrentar o nosso DPV individual, ainda há uma boa caminhada…

Para combater o DPV, é preciso uma maratona (e não um tiro curto).

Água mole em pedra dura. Tanto bate, até que… Muda.

Muitas vezes, no desespero de bater as metas de vendas, a pressão por ideias inovadoras aumenta com promessas milagrosas de trazer novos caminhos para resolver problemas que não encontraram solução até agora.

Receitas prontas, gurus, hacks e buzzwords surgem aos montes e não surpreendentemente dão errado por subestimar o tamanho do problema. Não por menos, o Departamento de Prevenção a Vendas tem uma casca dura cheia de hierarquia, tradição e burocracia para resistir às mudanças.

Isso acontece justamente porque, apesar de exigirem desesperadamente a solução, nem sempre as empresas querem aceitar as mudanças necessárias para chegar até ela.

E aí não tem milagre: não tem como esperar diferentes resultados seguindo a mesma receita do DPV.

E o resultado disso é uma frustração coletiva: tanto quem queria a solução inovadora e não conseguiu, como quem achou que poderia testar novos caminhos e foi podado logo nos primeiros passos.

Como enfrentar o DPV na prática?

  1. Comece empatizando com o DPV: Do mesmo jeito que dizemos que o DPV não é empático e não escuta pontos de vista diferentes do seu, não podemos achar que vamos enfrentá-lo sem entender suas dores, necessidades e motivações. As pessoas que atrapalham as vendas certamente não fazem isso de propósito – alguma razão há de ter para essas fricções no meio da jornada. Por isso, calçar os sapatos dessas pessoas é o primeiro passo para encontrar um denominador comum que pode ser mais vulnerável e suscetível a mudanças.
  2. Una forças contra o DPV: Igual a você, certamente há outras pessoas e outros times com perfil mais “early adopter” e com vontade de explorar coisas novas. Quebrar a estrutura de silos é fundamental não só para unir forças, mas também para identificar necessidades em comum e pontos de melhoria na integração entre as áreas.
  3. Sustente-se com dados e fatos: Perfis mais resistentes à mudança só cogitam dar abertura a novos caminhos se possuem exemplos de outros “bois de piranha” que já testaram essas águas e saíram dela melhores do que entraram. Apresentar cases de sucesso de empresas similares e pesquisas de institutos renomados com dados que atestam o caminho proposto são um ótimo primeiro passo para baixar a guarda do DPV.
  4. Apresente um plano para seu teste: Ao invés de apresentar uma nova ideia ou mudança como algo sistêmico e que veio para ficar, proponha um experimento com boas condições de contorno (para diminuir a insegurança e a sensação de risco) e com potencial de impacto de curto prazo. O DPV tende a ser bem menos resistente a passos menores, menos disruptivos, na condição de teste inicial e que gerem resultados incrementais de curto prazo.
  5. Plante o resultado como erva daninha: No final, tudo muito quer resultado. Por esse motivo, quando você consegue demonstrar de forma prática que as suas novas ideias realmente geram um impacto positivo nos resultados da empresa (principalmente nas métricas ligadas às pessoas do DPV), aquilo que você começou como teste e projeto inicial se transforma no novo “boi de piranha” dentro da empresa e, uma vez demonstrado o resultado, outros times vão querer testar se a água é quentinha mesmo. O impacto da inovação, com isso, vai se alastrando como erva daninha e, aos poucos e de forma consistente, desmantela o DPV sem ele nem perceber.
  6. Se der errado, aprenda, itere e tente de novo: Muito provavelmente nem toda nova ideia vai dar certo e aceitar que esse processo iterativo faz parte é um ponto de inflexão muito importante para desenvolvermos nossa resiliência na jornada de vendas. Não desista nem na primeira e nem na segunda: deixe que essa trajetória, por si só, faça parte do seu aprendizado e da construção do seu resultado de vendas.
  7. Saiba reconhecer (e aproveitar) o que há de bom no DPV: Como tudo na vida, no DPV não há só coisas ruins. Há aspectos do DPV que são positivos quando aplicados no momento e no desafio correto. Padrões, processos e documentações são muito úteis na organização de partes da operação de vendas que são mais estáveis, repetitivas ou com pouca tolerância ao erro (como quando lidamos com dados dos clientes, por exemplo). Reconhecer que nem tudo é inovação e que há utilidade no DPV é também uma forma de diminuir a resistência e alcançar um estágio de convivência pacífica e complementar.

Sabemos que os desafios de vendas não se resolvem num tiro de 100 metros: eles são colhidos ao longo de uma looooonga maratona que a gente escolhe percorrer na direção e ao lado dos nossos clientes. Por isso, a batalha contra o DPV não se vence do dia para a noite: ela precisa, acima de tudo, de abertura, de resiliência e de uma provocação saudável e consistente ao status quo.

Talvez seja hora de trocar o “jeito que sempre foi” por um novo jeito na sua empresa. 

Na Conectas, a gente desenvolve os times e as lideranças que movem as vendas – com experiências de aprendizagem vivas, customizadas e adaptadas ao contexto dos times, da empresa e do mercado.​

Por que é tão óbvio e tão difícil ser uma empresa customer centric?

Se eu perguntar (como já perguntei) a qualquer empresa se ela é uma empresa centrada no cliente, a resposta, às vezes sem graça, às vezes com cara de obviedade, quase sempre será sim.

Afinal, que raio de empresa existe e sobrevive sem seus clientes?

  • “Clientes em primeiro lugar”
  • “Clientes no centro”
  • “Obcecados por clientes”

São frases usualmente encontradas em documentos de missão, visão e valores de muitas empresas, como muitos já devem ter visto, vivido e até escrito. E faz total sentido. Há argumentos de sobra para caminhar na direção da centralidade no cliente, dando essa sensação de obviedade no ar.

Ainda assim, muitas empresas não conhecem esses argumentos a fundo, embarcam nessa jornada pelas razões erradas (“tá todo mundo fazendo”, “o board mandou”, “não quero ficar de fora” – e similares) e, ao banalizar a complexidade do assunto, falham sem compreender a causa raiz do problema.

Nesse artigo, quero abordar tanto os argumentos que sustentam uma estratégia customer-centric, assim como os principais modos de falha que impedem as empresas de conseguir ser, de fato, centradas nos clientes.

Pra começar, o que é customer centricity (ou centralidade no cliente)?

Nenhuma empresa que eu conheço falaria “não queremos ser centrados no cliente, não é pra gente”. Mas, muito embora todas elas concordam que o tema é fundamental para qualquer negócio, há pouco alinhamento sobre o que isso significa na prática.

Para algumas, é algo simples relacionado a um bom atendimento e uma boa estratégia de marketing e vendas. Para outras, o tema é tão abstrato que parece cachorro de muito dono: por parecer responsabilidade geral ninguém toma para si e a culpa alheia pinga igual batata quente quando as falhas ocorrem.

Por isso, vale começar explicando o tema. Customer Centricity, para mim, é uma estratégia transversal organizacional baseada em compreender, projetar e evoluir a organização sob a perspectiva dos seus clientes.

  • É um esforço contínuo e coletivo de manter o amor vivo com os clientes, desde a atração até a lealdade.

Na prática, isso significa que a criação de valor para os clientes vêm em primeiro lugar. Contudo, isso não significa que deixamos de olhar para a criação de valor para a empresa, muito pelo contrário. Na verdade, a empresa que mira nessa estratégia compreende que, no contexto atual, com clientes mais informados, com mais opções e mais poder de barganha, é justamente por meio da geração de valor para esses clientes que é possível gerar, consequentemente, valor para a empresa.

Nesse sentido, a empresa, cada área e cada pessoa colaboradora tem a habilidade não só de compreender as necessidades, dores e expectativas dos seus clientes, mas também de utilizar esse conhecimento como base e ponto de partida para todas as decisões da empresa, principalmente aquelas que têm um impacto direto e indireto na experiência deles.

Com isso, cada área e cada pessoa colaboradora compreende e atua em prol do seu papel na engrenagem de entrega de valor para seus clientes e, melhorando sua experiência de ponta-a-ponta, desde a aquisição, retenção e lealdade.

Por que sua empresa deveria apostar em ser customer-centric?

Uma vez compreendido o que é ser customer-centric, é possível imaginar que os motivos para defender essa estratégia são tão consistentes que parecem óbvios. Não por menos, eles têm sido base para justificar o investimento das empresas nesse sentido.

Para começar, o atual contexto de mundo pede pela centralidade no cliente. Não é novidade pra ninguém aqui que a evolução exponencial das tecnologias torna quase impossível prever para qual direção cada mercado irá se desenvolver.

Agora, o que não é tão óbvio é que, no meio dessa imprevisibilidade, compreender os clientes torna-se a melhor bússola. Isso acontece não pela tecnologia em si, mas pelo fato de que a tecnologia que importa é aquela que de fato é adotada por resolver a necessidade de alguém e, uma vez adotada pelas pessoas, essa adoção tem um impacto direto no seu comportamento, nos seus desejos e necessidades.

  • Nesse ritmo acelerado, a tecnologia cresce exponencialmente, as pessoas adotam a tecnologia que é útil para elas e, com essa adoção, se transformam de forma acelerada também e, por fim, restam as empresas, que lutam para se adaptar a essas mudanças (conforme a figura abaixo).

A consequência disso é que o poder de barganha fica cada vez mais na mão das pessoas, dentre as quais estão os nossos clientes, cada vez mais mais interconectados em diversos canais, com múltiplas opções, com toda informação na palma da mão e que adotam a tecnologia e se transformam mais rápido do que as empresas se adaptam a esse contexto. 

Figura 2: Gráfico que mostra o gap de velocidade de mudança entre diferentes perspectivas.

E por aí vai. Estudos, exemplos e dados feitos por quem entende muito do assunto não faltam para justificar essa estratégia.

A partir da necessidade pelo contexto e os bons exemplos e dados que corroboram para a centralidade no cliente, o business case a partir de uma estratégia customer-centric é irrefutável e possui um desdobramento lógico racional autoexplicativo (que eu tentei ilustrar humildemente na figura 2).

  • A partir de uma estratégia customer-centric, há duas verticais de impacto positivo complementares na organização. A primeira delas diz respeito à satisfação dos clientes.

Ao olhar, projetar e evoluir a organização, de forma transversal, sob a ótica dos clientes, trazendo suas necessidades para o centro das decisões e ações da empresa, o primeiro impacto direto é na satisfação deles.

Clientes satisfeitos, por sua vez, tornam-se mais leais à sua empresa e trazem três alavancas de performance de negócios. Clientes leais, além de aumentar o seu lifetime value (receita que cada cliente gera ao longo de todo o seu ciclo de vida com a empresa), também trazem economia de escala (manter um cliente atual é bem mais fácil do que trazer novos clientes do zero) e novos clientes por indicação (clientes satisfeitos indicam muito mais sua empresa para outros clientes).

Já a segunda vertical diz respeito a novos negócios. Ao continuamente compreender as dores, necessidades e expectativas dos seus clientes, a probabilidade de surgirem novas ideias de negócios para melhorar sua proposta de valor aumenta.

Essas ideias inovadoras centradas nos clientes têm maior probabilidade de sucesso e se transformam em novos produtos, serviços e negócios que trarão novos clientes (ou aumento de lifetime value dos clientes atuais) e que, com isso, também geram crescimento de negócios.

Figura 3: a lógica do business case para justificar uma estratégia customer-centric

Por que os planos de centralidade no cliente dão errado nas empresas?

Ok. Temos uma necessidade gritante, exemplos consistentes e um business case muito bem embasado nas mãos. Por que então grande parte das empresas não consegue trazer a centralidade no cliente para a realidade?

“Nós tentamos, seguimos direitinho o case da empresa X e deu errado”. Como de boas intenções o cemitério das empresas falidas está cheio, o primeiro problema é banalizar a complexidade do assunto.

Via de regra, as empresas buscam frameworks e métodos “hypados” para resolver um desafio complexo, como se essa estrutura de receita pronta desse uma falsa sensação de controle e previsibilidade. O problema aqui é que, assim como para os nossos clientes, o “one size fits all” certamente não funciona nesse caso.

Para cada empresa, estamos falando de diferentes mercados, diferentes estruturas, diferentes culturas e, principalmente, diferentes relacionamentos com diferentes perfis de clientes. É claro que podemos – e devemos – estudar cases, exemplos e métodos que existem.

  • Mas a partir desse estudo deve haver filtros e customizações para o contexto de cada empresa.

Além disso, essa banalização com o tema também morre pela ansiedade dos resultados milagrosos de curto prazo. Muitas vezes, as empresas tratam o tema de centralidade no cliente como um projeto pontual, geralmente com poucas áreas envolvidas e com diferentes expectativas e visões do que significa centralidade no cliente para cada uma.

O resultado desse plano não tem como ser bom, pois além de achar que um projeto já basta, ao tratar o tema como um projeto, abre-se as portas para outras falhas maiores e inerentes a qualquer empresa: o desalinhamento entre áreas e pessoas aumenta com brigas de egos, vieses e resistência à mudança; as pessoas envolvidas então direcionam o foco para atividades internas mais urgentes; a falta de visibilidade de resultados de curto prazo busca solução em comitês, políticas e outras artimanhas da burocracia que só fadam a intenção ao fracasso.

Mas tudo isso, no final, é consequência. A causa raiz é mais embaixo. Para tornar sua empresa uma organização customer-centric, é necessário considerar essa transformação como uma mudança de modelo mental – ou o famigerado mindset. Na base do mindset de uma organização centrada no cliente está uma mudança essencial de DEFINIÇÃO, de DOMÍNIO e de PERSPECTIVA.

Quando eu falo de definição e domínio, eu estou falando literalmente de como a sua empresa se define e do que é a sua especialidade. Faça a você e a seus colegas de trabalho duas perguntas:

  • Como você define a sua empresa? “A minha empresa é uma empresa de…”
  • O que a sua empresa domina? “Minha empresa é especialista em…”

Eu já fiz essa pergunta para centenas de pessoas. Em todas as vezes, a resposta está sempre ligada ao produto ou serviço que elas ofertam. Minha empresa é de alimentos e bebidas, especialista em bebidas alcoólicas; minha empresa é uma consultoria de negócios, especialista em marketing e vendas B2B; minha empresa é de serviços financeiros, especialista em crédito consignado; minha empresa é produtora de ativos agrícolas, minha empresa faz equipamentos para indústrias… e por aí vai.

Eis aqui o primeiro shift: empresas centradas nos clientes não se definem pelos seus produtos e serviços. O problema aqui é que, como já falamos, o poder de barganha nos negócios está nas mãos dos clientes, que por sua vez, estão se transformando mais rápido do que as empresas conseguem acompanhar.

Dessa forma, se uma empresa foca e centraliza sua definição, sua operação e seu domínio no que ela vende e produz hoje, ela fica míope para essas transformações e, com isso, o produto ou serviço que é relevante para os clientes hoje, amanhã pode não ser mais.

Essa miopia gera uma reação sempre passiva e tardia às mudanças dos clientes. Quanto mais a miopia aumenta, mais o negócio vai ficando para trás e ficando menos e menos relevante para os clientes e para o mercado. Por esse motivo, as empresas centradas nos clientes não se definem pelo produto ou serviço, elas dominam e se definem pelo problema dos clientes que elas resolvem.

Ah, mas isso me parece apenas uma questão semântica. Vou explicar por que não é com um exemplo que está na vida de todos: o Google. Ao longo das duas últimas décadas, empresas que oferecem motores de busca surgiram aos montes, desde o velho Altavista e o Cadê, até o ainda existente, porém capenga, Yahoo.

A diferença entre elas e o Google é que, além de muitas delas terem falido ao longo dos anos, o Google sempre se definiu não como um site de busca, mas sim como uma empresa que tem como missão “organizar toda a informação do mundo”. Hoje, um site de busca pode resolver, amanhã pode ser outra coisa, certo? Foi com esse olhar no problema e não na sua solução principal que o Google foi expandindo boa parte do seu portfólio.

Ao se aprofundar no problema dos seus clientes, a empresa foi não só aprimorando suas soluções principais, mas também foi compreendendo, testando, desenvolvendo e adquirindo tecnologias para complementar as suas possibilidades de solução e se tornar a empresa incrível que conhecemos hoje.

E, olha só, mesmo com esse mindset não é possível ganhar todas, mas é possível responder rapidamente a outros avanços de mercado, assim como ocorreu recentemente com a onda de IA com ChatGPT x Bard e outras soluções derivadas. Pois bem. Além da mudança de modelo mental de solução para o problema, há também aqui uma segunda mudança, pra mim ainda mais desafiadora. É a mudança de perspectiva.

Ao iniciar seus esforços na direção da centralidade no cliente, muitas empresas, de forma equivocada, acham que basta conversar e engajar-se com clientes. Falamos sempre com nossos clientes; Fazemos várias pesquisas; Analiso as pesquisas aqui do meu escritório; Queremos sempre saber como vender mais para nossos clientes; Queremos saber como fazemos nossos clientes seguirem nosso processo de atendimento com 349867 etapas…

O problema dessa visão é a perspectiva: nesse caso, estamos olhando sim para os clientes, mas com os olhos da empresa. Nenhuma empresa faz isso por mal. Na maioria das vezes, fazemos isso simplesmente porque é mais confortável. Afinal, é muito mais fácil olhar para os clientes com o desejo de moldá-los à minha empresa, aos produtos que eu domino, aos processo que eu criei, aos resultados que preciso alcançar e àquilo que eu sei e desejo.

  • Essa é uma perspectiva que dominamos, que é nos é familiar e que temos controle sobre. Por isso que ela é consciente e inconscientemente mais usada por nós – mas não é centrada nos clientes.

Quando essa perspectiva predomina, a centralidade no cliente é seletiva e inconsistente – para não dizer cínica. As empresas que não abrem mão dessa perspectiva usam a voz do cliente de forma seletiva como racional apenas para as decisões que são a favor do negócio.

De maneira complementar, quando essa voz não endossa as decisões desejadas do negócio, os vieses internos entram em cena mascarados de “eu sei muito mais sobre o cliente do que ele mesmo” e, com isso, invalidam as descobertas com as quais as pessoas tomadoras de decisão não concordam.

Por outro lado, a centralidade no cliente acontece quando o mindset inverte a perspectiva e prioriza os insights provenientes da forma como os clientes enxergam e interagem com a empresa. Em contraste, essa posição é extremamente desconfortável porque fortalece uma perspectiva que a empresa não controla.

Os clientes podem ter dores e necessidades que hoje a empresa não resolve em seus produtos e serviços, podem querer se comunicar por um canal que a empresa não usa, podem precisar de informações que a empresa não oferece…

Tudo isso a gente não controla, mas a vantagem competitiva vem justamente quando a empresa consegue utilizar essas informações para antecipar e protagonizar movimentos de mercado que seus clientes realmente querem e precisam.

Mas então… Como fazer a centralidade no cliente dar certo?

É por tudo isso que digo: esse caminho é muito mais complexo do que se imagina. Muito mais que uma mudança de modelo de negócio, essa é uma transformação sistêmica organizacional. Ela envolve estratégia, mas também envolve cultura, agilidade e a tal mudança de modelo mental.

Apesar de não ser um projeto pontual, essa estratégia pode até começar como um, principalmente em organizações maiores, mas precisa de força – e recursos – para continuar.

Nesse caminho, o endosso top-down e bottom-up precisa se equilibrar em cada um dos muitos aspectos que precisam ser trabalhados. Eu chamo esses aspectos de “obviedades não-óbvias”, pois por mais que pareçam algo óbvio, a prática é sempre mais desafiadora, principalmente para manter a consistência do que foi planejado.

Para se ter uma ideia de como a estratégia de centralidade no cliente pode e deve se desdobrar nas empresas, trouxe algumas das obviedades não óbvias que já mapeei nesse caminho:

Visão do que é centralidade no cliente na empresa precisa ser única e compartilhada: A visão sobre centralidade no cliente precisa estar alinhada e compreendida por todas as pessoas da empresa.

Segmentação por valor de clientes: Alguns clientes são mais valiosos do que outros, por isso é preciso descobrir e direcionar o foco da organização para os segmentos de clientes para os quais ela entrega mais valor.

Compreensão contínua e integrada dos clientes: os mecanismos de compreensão dos clientes precisam ser contínuos e seus dados integrados para compreensão e apoio na tomada de decisão de toda a empresa.

Proposta de valor em beta constante: É preciso continuamente analisar e acompanhar as mudanças nas necessidades dos clientes para entender como estamos e podemos entregar valor agora e no futuro.

A experiência dos clientes é parte relevante da proposta de valor: Do primeiro contato ao pós-venda, cada interação isolada e conjunta precisa encantar o cliente como na primeira vez ao longo da jornada.

A experiência das pessoas colaboradoras reflete diretamente na experiência do cliente: Colaboradores da empresa são interface e agentes transformadores da experiência dos clientes e, por isso, sua experiência na empresa precisa ser cuidada com a mesma relevância.

Métricas de sucesso estão conectadas à geração de valor ao cliente: muito além das métricas financeiras tradicionais, a empresa precisa medir seu sucesso com métricas que se relacionam diretamente com a geração de valor para os clientes.

O sistema operacional da empresa precisa se adaptar às mudanças dos clientes: uma empresa não consegue ser centrada no cliente se seus processos e mecanismos não se adaptarem com a mesma agilidade.

A centralidade no cliente precisa ser sistêmica: as jornadas dos clientes muitas vezes envolvem muito mais agentes do que apenas os clientes e a empresa. A colaboração em rede com esses agentes aumenta o espaço e as possibilidades de geração de valor.

A descoberta supera o planejamento na estratégia de centralidade no cliente: se as estratégias vencedoras se baseiam em hipóteses corretas, a estratégia de centralidade no cliente é sempre um trabalho em andamento, pois os clientes continuam mudando.

Jornadas são ferramentas de governança de centralidade no cliente: Mais do que um framework bonito, jornadas atuam como ferramentas de gestão cross-funcional que trazem alinhamento de informações e da lógica de tomada de decisão da empresa.

Ufa, esses são os principais e mostram como é complexo o caminho na direção da centralidade no cliente. Agora, embora cada um deles mereça um artigo à parte (aguardem!), a principal mudança ainda é a de modelo mental. Começando daí, todo o resto se ajusta conforme se evolui nessa direção.