Arquivos de Categoria: Estratégia

NRF 2026: Menos sobre tendências, mais sobre maturidade de gestão.

Acabou a NRF 2026 e a gente precisa confessar: estamos com a cabeça girando.

Não por excesso de informação. Mas porque, dessa vez, os recados foram muito diretos. Sem rodeio. Sem aquele tom de “tendência futurista que um dia vai chegar”. O tom foi outro: ou você entende o jogo agora, ou vai ficar pra trás.

Carol Manciola, nossa correspondente na feira, fez uma cobertura completa em parceria com a HSM. Os principais pontos você lê agora mesmo:

O humano é o novo diferencial competitivo

Esse foi um dos fios condutores mais fortes do evento inteiro.

E não que seja grande novidade, mas ouvir isso em um dos maiores palcos do mundo reforça ainda mais a importância das empresas trazerem isso para o dia a dia.

A WGSN, que é referência global em tendências, trouxe uma mensagem necessária: prova vale mais que promessa. Confiança vale mais que conversão. E estamos vendo um movimento acontecer: enquanto a IA tá saindo da vibe de espetáculo e virando infraestrutura, a confiança está virando o ativo mais escasso – e mais desafiador das empresas alcançarem.

O mais óbvio, mas necessário ser dito: só o humano é capaz de construir confiança.

Cassandra Napoli, da WGSN, na NRF 2026 (Crédito: Taís Farias)

Mas não estamos falando do humano “fofinho”, aquele que a gente às vezes  tem um certo preconceito. Estamos falando do humano que conecta. Com atenção, timing, escuta, presença, coragem de ser simples e real.

As marcas que estão se destacando não são as mais tecnológicas. São as que entendem que as pessoas estão com fome de sensorialidade e usam tecnologia pra tirar fricção, devolver tempo, sensação e cuidado.

Marca forte nasce de liderança intencional

Nos cases apresentados, como o da Coach e da Timberland, ficou claro que não dá mais pra apostar tudo em uma campanha heroica. Marcas fortes nascem antes: da liderança corajosa.

A Timberland, por exemplo, vinha de um período de perda de relevância cultural. E o que eles fizeram? Não lançaram mais uma campanha. Não aceleraram mídia. Voltaram pro essencial, com decisões duras de liderança.

Questionaram tudo que era sagrado: estrutura, portfólio, go-to-market, a forma como a marca se expressava no mundo. Em vez de tentar agradar todo mundo, reassumiram seu ícone e transformaram isso em estratégia.

Mindy Grossman, membro do conselho da VF Corporation, Caroline Brown, Nina Flood e Sun Choe, presidentes da The North Face, Timberland e Vans, respectivamente (Crédito: Amanda Schnaider)

Esse foi um case sobre a importância do walk the talk. Marca não é discurso. É comportamento coletivo sustentado por líderes que dão direção clara, fazem escolhas difíceis e transformam cultura em vantagem competitiva.

Ryan Reynolds e a coragem de ser verdadeiro

A palestra do Ryan Reynolds foi uma das mais esperadas. E surpreendeu.

Ele não falou de marca como quem vende um método. Falou como quem vive isso na pele. E jogou uma pergunta que deveria estar em toda reunião de marketing: “Alguém falaria isso numa mesa de bar? Se não, provavelmente não deveria estar numa campanha.”

Ethan Tandowsky, Diretor Financeiro da Adyen, e Ryan Reynolds, Ator e Empreendedor.

Ele lembrou que ser interessante costuma funcionar muito melhor do que tentar ser importante. E que tratar o público como inteligente não é um risco, é respeito.

Teve uma frase que deve ter embrulhado muita gente por lá: “Se a sua marca não aguenta humor, talvez ela também não aguente verdade. E se ela não aguenta verdade, dificilmente constrói vínculo.”

O recado foi claro: as coisas íntimas e reais tendem a ganhar das coisas fabricadas. O cliente sente o cheiro de enganação de longe, afinal, a gente também é cliente.

A disputa mudou. E mudou de verdade.

A disputa do varejo não é mais por market share. É por atenção, relevância e velocidade de decisão.

O Gary Vaynerchuk, que é uma sumidade no mundo das vendas, colocou o elefante na sala logo no terceiro dia. Ele disse que marcas estão em “day trading de atenção”. Ou seja, não existe mais estabilidade de marca. A atenção tem que ser conquistada o tempo todo.

Gary Vee, CEO da VaynerMedia

O algoritmo mudou. Antes, ele entregava conteúdo com base em quem você seguia. Agora, ele entrega com base no que você se interessa.

Não adianta organograma, verba ou histórico de marca se o conteúdo não é relevante agora. Quem ganha atenção hoje é quem entende contexto, interesse e timing, não quem grita mais alto.

Não é mais sobre volume. É sobre relevância no contexto certo, na hora certa, com criatividade validada pelo algoritmo, não pelo ego do board.

Quem não saiu dessa palestra incomodado, provavelmente não entendeu o recado.

Conteúdo não é mais peça. É comportamento.

Teve muita conversa sobre TikTok, creators e influenciadores. E o tom foi unânime: conteúdo de creator supera conteúdo de marca. Sempre.

A Sarah Henry, do Walmart, foi direta: isso não acontece por acaso. Acontece porque pessoas confiam mais em pessoas do que em campanhas.

Sarah Henry, do Walmart, Ashley Schapiro, da American Eagle, e Noah Gonzalez, da H&M Americas.

E o TikTok apareceu menos como canal de mídia e mais como motor de aprendizado em tempo real. Um espaço onde o funil não é linear, onde descoberta, desejo e conversão se misturam.

O mais interessante? O TikTok não recompensa controle excessivo. Marcas que entram tentando editar cada palavra, cada take, cada roteiro simplesmente não performam. Agora, as que deixam o consumidor criar, remixar e opinar? Aprendem mais rápido, erram mais cedo e acertam melhor.

O rolê é cada vez menos sobre roteiro e muito mais sobre flow.

Ninguém cresce sozinho

Outro tema forte foi a evolução das empresas para ecossistemas. Não como moda, mas como resposta estratégica.

Cases como CVS Health e Magazine Luiza mostraram isso com clareza. O que sustenta esses ecossistemas não é tecnologia isolada, é visão estratégica da liderança, cultura preparada pra operar em plataforma, e uma mudança de mentalidade: sair do transacional e entrar no relacionamento de longo prazo, com parcerias bem estabelecidas pra sustentar o longo prazo.

O varejo que prospera não vive só de transação. Constrói plataformas de relacionamento antes, durante e depois da compra.

Alberto Serrentino, Fundador da Varese Retail; Gui Serrano, Vice Presidente da CVS Health; Frederico Trajano, CEO da Magalu.

O que fica da NRF 2026?

Pra gente, essa edição foi menos sobre tendência e muito mais sobre maturidade de gestão. Foco, execução e relevância.

O recado foi simples, mas direto: liderar é escolher o que não fazer. Fazer escolhas coerentes, agir de forma consistente e ter coragem de mudar quando faz sentido, não só quando não existem mais opções.

Inovação não é sobre adicionar camadas de tecnologia. É sobre tirar excesso, ganhar clareza e tomar decisões melhores, com mais agilidade.

No fundo, tudo aponta pra uma coisa: as empresas que vão crescer são aquelas que conseguem oferecer continuidade, confiança e conexão no meio do caos.

E isso exige coragem. De entrar na conversa como gente, aceitar perder controle e aprender o tempo todo.

A NRF acabou, mas a conversa continua. Bora trocar ideia sobre isso tudo ao vivo?

Dia 09 de fevereiro, preparamos um encontro pra quem quer se aprofundar nos insights da maior feira de varejo do mundo. Será um dia inteiro pra trocar, opinar, aprender e colaborar com profissionais que estiveram na feira e trazem conteúdos traduzidos para a realidade do Brasil.

Essa conversa vai muito além do varejo: são insights que todo negócio precisa saber para potencializar os resultados nos próximos anos.

Queremos você com a gente! Faça sua inscrição aqui.

Aquele abraço e até lá.

Persistir ou pivotar, eis a questão: qual é o principal modo de falha da cultura de experimentação?

“E, após um teste que deu errado, pivotamos e nosso negócio foi feliz para sempre”.

Quem nunca ouviu a palavra “pivotar” no mundo da inovação e tecnologia está mentindo. Ela é parte obrigatória nas grandes narrativas de startups, nos cases de growth e produto, e nas histórias de corredor e de palco contadas por quem gosta de se vangloriar por uma mudança de rumo bem feita.

Não por acaso, o termo “pivot” se tornou sinônimo de histórias de pessoas empreendedoras de sucesso após ter surgido como jargão do famoso modelo de Lean Startup (startup enxuta, em português). Nele, como muitos aqui devem saber, Eric Ries e Steve Blank propõem lógica ágil para o desenvolvimento de novos negócios inovadores.

Nessa lógica, os autores sugerem a famosa reunião de “pivotar ou persistir“, em que as pessoas envolvidas decidem, baseadas na experiência dos ciclos até então, se devem persistir no atual curso estratégico ou pivotar para uma nova direção de hipótese de modelo de negócio.

Longe de mim questionar esse modelo. A lógica dele é bastante consistente com o contexto digital acelerado em que vivemos. No entanto, assim como em todos os métodos ágeis, é justamente por essa lógica fácil de compreender que muitas pessoas sentem que a prática será igual – o que infelizmente não é tão verdade assim.

Na teoria, parece razoável trazer aos negócios mais agilidade e adaptabilidade por meio do aprendizado pela experiência. Dessa forma, é através de ciclos de experimentação ágil com pessoas usuárias que ajustamos a rota do desenvolvimento de uma nova solução conforme se caminha. 

Na prática, no entanto, o que parece uma marola tranquila pra navegar está mais para tempestade em mar agitado, cheia de imprevistos pela frente. Aprender por meio da experiência é um processo desafiador por 3 motivos:

  • A modelagem de experimentos exige técnica e consistência: testar uma solução ou de um modelo de negócio não é simplesmente jogar no mundo e ver se deu certo ou não. Um experimento precisa de técnica e consistência desde o primeiro rascunho no papel de pão até o MVP: é preciso definir as condições de contorno, a variável que se deseja testar (não se testa tudo ao mesmo tempo), o perfil de pessoa usuária para o teste, o formato de condução, a duração da análise e, principalmente, fazer uma boa análise do teste ao fim (o que muuuita gente tem preguiça de fazer).
  • A análise é sempre melhor quando controlamos nossos vieses: é natural que tenhamos nossas hipóteses e estejamos torcendo para que elas sejam validadas. Mas nosso viés não pode justamente enviesar a análise. Já vi muitas vezes lideranças dizendo que o teste está errado porque não concordam com o resultado, mexendo no espaço amostral e no público alvo para garantir melhores respostas ou puxando a sardinha e dar mais ênfase em algum ponto do teste que lhe agrada mais.

    As pessoas não fazem isso por mal, é apenas uma resposta espontânea da nossa mente na direção do que é mais confortável e conhecido. Por isso, ter a consciência dos nossos vieses e contar com pessoas com perspectivas diferentes da sua são caminhos importantes para viabilizar uma análise mais condizente com a realidade.
  • Nem todo teste é uma boa bússola: precisamos nos lembrar que nenhum teste é verdade absoluta. Quando analisamos um teste, buscamos por insights que nos ajudem a reduzir o risco (e não eliminá-lo) na tomada de decisão. Só que, diferentemente de um experimento científico, em que as variáveis e condições de contorno são bem mais controladas, o experimento no mundo dos negócios é bem mais imprevisível e limitado.

    O resultado de um teste, seja ele bom ou ruim, é um fragmento da história. Ele pode ser uma exceção ao invés de uma regra devido a uma salada mista de fatores que não consideramos, como uma escolha ruim de amostragem, as condições do teste, o período de análise ou qualquer outra condição externa não mapeada.

Isso quer dizer que a cultura de experimentação é um caminho ruim? Longe disso. A chave aqui é compreender que esse é um modelo que não pode ser banalizado – e uma forma de fazer isso é justamente compreendendo melhor os modos de falha para treinar nosso senso crítico e evitar práticas e análises que podem levar o negócio para a direção errada.

Para fortalecer esse senso crítico, eu volto ao famoso “pivot”. A decisão de pivotar um negócio, por mais que pareça inspiradora, é, pra mim, um dos modos de falha mais críticos de uma cultura de experimentação em negócios.

Para tangibilizar o porquê, vou referenciar um exemplo que muitos aqui testemunharam: o da disrupção do mercado de música digital. Vocês se lembram do Napster? Plataforma de download de músicas criada por um garoto rebelde que foi mandado para a detenção devido a problemas de direitos autorais em 2001? Muitos se lembram mais desse momento do que do fato que, logo após o Napster ser proibido, a empresa se reinventou em 2003 e ressurgiu como um serviço de assinatura de música, um “Spotify” antes do Spotify. 

Acontece que essa jogada não saiu tão bem como o esperado na época. Mesmo com a proibição legal, os downloads ilegais e os torrents seguiram firmes e fortes ao mesmo tempo que, no mercado legal, a compra de músicas pelo iTunes da Apple estava ganhando mais e mais tração com quem não queria encrenca com as autoridades. Nesse contexto, o serviço de assinatura do Napster caiu na categoria de ‘não tão brilhante assim’. Os argumentos eram sólidos – quem quer “só” alugar sua música, certo? Até mesmo Steve Jobs entrou no jogo, declarando: “Ninguém quer alugar sua música, as pessoas querem ter a música”.

Pois bem – até o Steve Jobs pode errar. Quando voltamos ao nosso presente, todos nós testemunhamos o renascimento do mercado de música por assinatura com serviços como o Spotify – que a Apple em seguida foi na retaguarda, copiou e lançou como Apple Music. Parece que alguém jogou um feitiço de reviravolta na história.

A lição? Nem todos os fracassos são um sinal para jogar tudo pela janela. Às vezes, o momento é crucial, ou a tecnologia não está sincronizada, ou talvez a lua não esteja na estação ideal. Essas coisas acontecem – e jogar o bebê junto com a água do banho nem sempre é a melhor jogada.

Somado a esse, há muitos outros casos de “eu tive essa ideia antes e não deu certo”. Isso acontece pelo simples fato de que o teste, seja ele bom ou ruim, é um dado, e não uma verdade absoluta ou um raciocínio lógico. O teste nos conta o que aconteceu naquele momento, mas é o raciocínio lógico que nos traz o porquê de cada acontecimento – e muitas vezes as pessoas pulam essa parte lógica.

As falhas e sucessos podem ter múltiplas causas e é por isso que precisamos ter senso crítico para buscá-las antes de tomar qualquer decisão precipitada como pivotar completamente um negócio em construção. Para isso, há várias técnicas que nos ajudam a modelar e analisar o resultado de experimentos, como teste A/B, análise de causa raiz, amostra de controle e muitas outras.

Dessa forma, não é o pivot em si que é o problema. É a mentalidade que o cerca, como se fosse um “must have” ou a chave mágica para desvendar o enigma do sucesso. O pivot é uma ferramenta, mas não é uma varinha mágica, ainda mais quando estamos lidando com experimentos de negócios, que geralmente são mais arriscados e via de regra possuem dados insuficientes para tirar 100% do risco da equação. Às vezes, pivotar pode ser a resposta, mas não é um vale-tudo e nem sempre precisa ser tão drástico. 

O exemplo do mercado de música demonstra muito bem o risco de banalizar o “pivot”. Nesse caso, temos um falso negativo, ou seja: ao analisar um experimento que deu “errado”, a resposta foi abandonar a ideia de uma só vez ao invés de trabalhá-la melhor de outras formas e entender por que a falha ocorreu. Com isso, a Apple perdeu a chance de disruptar esse mercado no lugar do Spotify. 

Em qualquer negócio, precisamos estar preparados com a possibilidade de um experimento não dar certo. Isso faz parte. Vivemos isso muito na medicina, por exemplo: vários testes e exames sobre uma doença podem dar um falso negativo e, quando não melhoramos, refazemos o teste para descobrir que a doença sempre esteve lá – ela só não teve as condições corretas para ser diagnosticada naquele momento. Ainda que esse tipo de ocorrência seja comum em outros contextos, não consideramos essa possibilidade nos negócios.

O problema do falso negativo é que ele é dificílimo de detectar. Os falsos positivos, por exemplo, são fáceis de corrigir, uma vez que, quando temos um resultado positivo, seguimos com o curso planejado até que, eventualmente, percebemos que aquele resultado não se sustenta. Por outro lado, os falsos negativos nos compelem a pivotar e não testar aquele caminho nunca mais – o que pode nos fazer abandonar uma oportunidade que, com alguns ajustes de condições, poderia ser um sucesso. 

Entre o glamour errôneo do pivot, as análises rasas e os possíveis falsos negativos que deixamos para trás, há dois grandes riscos no desenvolvimento de uma nova solução ou negócio. O primeiro deles é que, de tanto abandonar ideias e iniciativas devido a um curto período de testes errados, o negócio perde a consistência e o rumo e fica andando em círculos sem conseguir persistir em nada concreto esperando o resultado de teste perfeito.

O segundo risco decorre do primeiro: ao trazer a escolha entre “pivotar completamente” e “persistir da mesma forma” como algo binário sem meio termo, perde-se a oportunidade de testar ajustes intermediários nesse meio do caminho – onde provavelmente está uma opção melhor do que atuar nos extremos.

Mas então como podemos tomar melhores decisões ao aplicar uma cultura de experimentação ágil? Ao longo do artigo, fui mencionando caminhos relacionados a uma melhor modelagem de testes, minimização de vieses e uma análise mais profunda e voltada para a compreensão das variáveis e causas lógicas por trás do resultado de um experimento. Todas essas são formas boas para melhorar as condições e qualidade do teste, assim como a análise do resultado. Para pensar no direcionamento do que fazer após o teste, por sua vez, há duas formas de traçar um meio do caminho que pode minimizar os riscos de decisões extremas:

  • Os quatro quadrantes do persistir x pivotar: o empreendedor social Devin Thorpe, em um artigo da Harvard Business Review, sugere que a análise entre persistir e pivotar seja feita em duas esferas: a da missão e a da estratégia de negócios. Um exemplo para tangibilizar é o do lendário Post-it. De forma resumida, o adesivo usado pelo Post-it foi desenvolvido para outro propósito em um mercado B2B, que não deu certo na época.

    No entanto, foi através de um teste pelo inventor Art Fry que ele encontrou uma nova missão para aquele produto, atrelado a blocos de anotação. Esse foi um pivot de missão e de estratégia de negócios (pois a solução se tornou um produto B2C). Mas às vezes podemos ter a solução certa vinculada a um modelo de negócio errado – e vice-versa. Podemos então pivotar aspectos do modelo de negócio (mudar o canal ou o modelo de receita, por exemplo) ou aspectos da missão (mudar a proposta de valor para a qual o produto foi criado).
  • Um curativo entre o pivotar e persistir: o escritor Jurgen Appelo também trouxe, nesse artigo no seu Medium, a provocação de que ter apenas os caminhos de pivotar e persistir era insuficiente para o desenvolvimento de novos negócios. Para ele, também faltava o “meio do caminho”. Diferentemente do Devin Thorpe, no entanto, ele trouxe o termo “curativo” (ou Patch, em inglês) para as mudanças que ocorrem entre o incremental do persistir e o radical do pivotar e não limitou-se à missão ou à estratégia de negócio.

    Para ele, mudanças “curativo” são mudanças grandes, mas em aspectos únicos do modelo de negócio. Eu posso mudar o canal, o segmento de clientes, a proposta de valor, os recursos e por aí vai – a diferença é que eu não mudo tudo de uma vez. Como analogia, se estivéssemos falando de uma casa, ele se refere ao persistir como um conserto simples de uma janela, ao pivotar como uma mudança de casa para um apartamento em outra cidade e ao curativo como a construção de uma garagem adjacente à casa após comprar mais um carro.

Para finalizar, por mais que eu tenha denominado o pivot como principal modo de falha por trás de uma cultura de experimentação, há uma causa por trás da falha. Esse e muitos outros erros ocorrem pelo nosso desejo de encontrar a fórmula mágica e copiar ipsis litteris um método sem estudar com profundidade a lógica racional por trás dele e adaptá-lo para o contexto e realidade de cada empresa e cada negócio. Quando falamos de negócios, não existe ciência exata e nem receita de bolo única. O que existe é bom senso e análise crítica para se adaptar e ajustar a rota conforme se caminha, equilibrando os olhos atentos, o espírito flexível e a mente ágil.

Como colocar isso em prática?

Esse é um dos nossos principais temas de palestras e workshops para times que realmente querem construir ou melhorar a cultura de experimentação. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Direção, hipótese e mais: como criar uma estratégia para o negócio.

Chegou a hora de começar a planejar o novo ciclo estratégico da sua empresa. Ele geralmente começa antes do meio do ano, quando você mal começou a executar o planejamento anterior. Um cronograma de meses é apresentado e você começa a reunir um Everest de informações necessárias para formular um plano. Existe um template impecável, fornecido por uma consultoria de renome, com vários frameworks a serem preenchidos.

Com essa base em mãos e uma sequência de apresentações para várias lideranças, o plano chega na sua reta final. Um hotel lindo é escolhido, com ótima comida e uma programação divertida mesclada com workshops. Como resultado, temos em mãos um plano finalizado com o time energizado e reconectado para desdobrar a estratégia com o time, que sai de cada workshop com um roadmap de 2039572059 iniciativas e planos de ação para o ano que vem por aí.

Mas então, alguns meses depois… Alguma coisa se perde.

A cada reunião de status da estratégia, vem a frustração por um plano que não foi realizado como esperado. Entre os incêndios a serem apagados e um cenário que já não condiz com o projetado no ano anterior, não se sabe se a falha está na execução burocrática, lenta e pouco colaborativa, ou se as pessoas sequer se lembram da estratégia que foi planejada. 

Aliás, esse é um teste simples a se fazer: pergunte para seu time ou seus pares se essas pessoas se lembram logo de cara qual é a estratégia da empresa. Você pode até se perguntar a si mesmo: você se lembra? E aqui não estou falando sobre cada detalhe de um ppt gigante e nem de algo tão amplo como a missão e a visão da empresa. 

RESUMO DA ESTRATÉGIA

Pra mim, a estratégia se resume como “a lógica que explica por que e como a sua empresa vai prosperar”[1]. Pra provar meu ponto, trago aqui a referência de um estudo da MIT Sloan feito com grandes empresas: 

  • Segundo esse estudo, apenas 2% das pessoas colaboradoras conseguem apontar 3 das principais prioridades estratégicas das suas empresas
  • Mesmo entre líderes, esse percentual é de 28%, bem aquém do esperado[2].

Quanto mais complexa, top-down e escrita em pedra é a estratégia, menos ela funciona para seu objetivo principal: direcionar ação. Seja qual for a estratégia da sua empresa, ela precisa ser funcional e viva na mente das pessoas colaboradoras, como uma lógica que qualquer uma delas pode trazer para a prática – caso contrário, o que temos é um monte de gente confusa trabalhando pra apagar o próximo incêndio ou apertar o próximo parafuso sem saber por quê.

Isso quer dizer que todos os formatos de planos estratégicos que funcionaram por décadas estão errados? Não exatamente. Há um motivo pelo qual esse formato prosperou por tantos anos: ele nasceu de uma lógica industrial, “produtizada”, adequada para um um contexto de mundo mais previsível e linear. 

Mesmo quando pensamos na estratégia de empresas bem-sucedidas no presente, muitas vezes tentamos imprimir a mesma lógica, como se todo o sucesso tivesse sido cuidadosamente planejado como sempre foi no passado – o que via de regra não é verdade. 

Pra fazer um tira-teima, pesquise mais sobre a história de empresas que você admira: muito provavelmente a estratégia que levou a empresa ao sucesso hoje não estava lá nos planos estratégicos de anos atrás.

Um exemplo muito citado é o do Facebook. A história que se conta sobre o crescimento desse gigante da tecnologia nos faz crer que a estratégia era clara desde o início: não se pode começar um negócio de tecnologia como uma plataforma, o certo é começar com um aplicativo com funções essenciais e, quando a base de usuários atingir um volume suficiente para criar um efeito de rede, é aí que você pode transformá-lo em uma plataforma. 

No entanto, a realidade foi outra: a visão dos fundadores foi sempre a de construir uma rede social e só quando a base de usuários ficou grande o suficiente eles levantaram a hipótese de transformá-la em plataforma. A estratégia não foi planejada, ela foi descoberta ao longo do caminho.

Mas por que achamos que essas estratégias foram planejadas? 

As pessoas fazem isso de propósito? Não. É natural que, após uma grande descoberta que transforma a estratégia da empresa, a gente faça uma retrospectiva racional e procure uma lógica por trás do que ocorreu. 

Fazemos estudos de caso e compartilhamos essa narrativa a partir do nosso entendimento. Isso é verdade inclusive nas nossas vidas pessoais. Mas o problema dessa retrospectiva racional é que essa visão nos faz crer, erroneamente, que uma estratégia de sucesso só é possível a partir de grandes planos visionários desde a sua concepção. 

No extremo oposto, isso também não significa que estratégias de sucesso só dependem de sorte e que devemos, enquanto líderes, esperar que essa sorte bata na nossa porta. É muito mais sobre a capacidade de identificar oportunidades e de agilmente trabalhar nelas – descobrindo se esse é um bom caminho ou não. 

Pensem um pouco sobre a forma como aprendemos na infância. Testamos, erramos, acertamos, ajustamos, aprendemos. Por tentativa e erro, aprendemos a andar, a cair e a levantar, a pedir o que queremos e encontrar o que precisamos. Fazíamos isso sem pensar e com a leveza de quem ainda não calcula riscos. A diferença de trazer esse comportamento para o contexto de uma empresa é justamente o risco. E é por isso que queremos planejar cada detalhe: pra reduzir ao máximo o risco.

Mas esse é um pensamento contraditório. No atual contexto de mundo,  as disrupções constantes e as inovações aceleradas tornam quase impossível prever com precisão como o mercado se desenvolverá. Nesse sentido, temos ainda clientes com mais e mais poder de barganha, com múltiplas opções e com toda a informação do mundo na palma da mão. Clientes que mudam seu comportamento a cada nova tecnologia e que, com isso, mudam continuamente a dinâmica dos mercados. Com essa velocidade das mudanças e as múltiplas variáveis em jogo, longos períodos de planejamento engessados e sem teste prático resultam em mais risco, pois o contexto-base para o planejamento interno pode não ser mais o mesmo quando o plano for pra realidade. Portanto, é mais sensato adotar um modelo mental ágil, onde a estratégia é um processo contínuo de aprendizado, experimentação e ajustes graduais. 

Se a descoberta é melhor que o planejamento, como descobrir uma estratégia de sucesso?

A descoberta da estratégia é um processo que reconhece essa natureza imprevisível e em constante evolução do mundo dos negócios. Ao invés de tentar prever e controlar cada um dos aspectos do ambiente empresarial, essa abordagem se baseia na capacidade de se adaptar às circunstâncias em tempo real, explorando oportunidades e ajustando a rota conforme necessário a cada passo da jornada de execução, abraçando a incerteza como um terreno fértil para a inovação e o crescimento.

É importante destacar também que a descoberta da estratégia não nega a importância do planejamento, mas enfatiza a necessidade de flexibilidade e adaptabilidade. Ao invés de se concentrar em planos detalhados e inflexíveis, o contexto pede pela adoção de uma abordagem mais aberta, baseada em hipóteses e experimentos. Isso envolve formular suposições sobre o mercado, os clientes, os concorrentes e testá-las no mundo real para validar sua viabilidade.

Através de experimentos e iterações, as empresas podem aprender rapidamente o que funciona e o que não funciona. Essa abordagem, baseada em evidências práticas muito mais do que em teorias que nem sempre se sustentam na realidade, permite uma tomada de decisão mais informada e reduz o risco de investimentos significativos em caminhos que podem não ser eficazes. A descoberta da estratégia encoraja a aprendizagem constante, a adaptação contínua e a exploração de novas oportunidades à medida que surgem.

Apesar dessa não ser uma visão que se adote 100% do dia para a noite, há aprendizados valiosos de quem já passou por esse processo. Na minha jornada profissional, vivi os dois extremos: trabalhei mais de 10 anos em multinacionais complexas imersas em modelos tradicionais de planejamento e quase 6 anos no extremo oposto, no mundo de tecnologia e inovação. 

Há o que aprender em ambos os lados para trazer dicas que deixem o tema mais pragmático e viável. Então, para não ser uma mudança que já começa errada para outras empresas que querem testar essa abordagem mais ágil para a estratégia, deixo 5 pontos essenciais:

1 – A descoberta só é eficaz quando tem uma boa direção

É importante ressaltar que a descoberta da estratégia não significa ausência de direção ou propósito ou testar tudo ao mesmo tempo agora já. Uma empresa que adota essa abordagem ainda precisa ter uma visão clara e uma compreensão profunda dos seus valores fundamentais e do seu norte, aonde quer chegar. Esses elementos fornecem uma base sólida para a priorização e exploração de hipóteses, além de orientar a tomada de decisão em meio às incertezas.

2 – O planejamento da descoberta da estratégia se inicia encontrando boas hipóteses

Como falei no início, a descoberta também precisa de planejamento. Mas, nesse caso, o planejamento envolve a análise de dados internos e externos, pesquisas sobre clientes e mercado e insights do time interno para mapear oportunidades e hipóteses valiosas para a empresa chegar mais perto do norte desejado. Hipóteses baseadas em dados reais e atualizados têm maior probabilidade de sucesso. Com um bom mapeamento, é possível priorizar as hipóteses de acordo com impacto, confiança e facilidade, por exemplo.

Empreendedorismo, reunião, gráfico, equipe, trabalho (Foto: Pexels)

3 – Top-down e bottom-up, de forma colaborativa e quebrando silos

A visão de descoberta da estratégia fica muito limitada quando conta somente com a alta liderança da empresa ou fica restrita a apenas um time. Estruturas muito hierárquicas e compartimentalizadas refletem diretamente na estratégia, deixando-a desalinhada (com times às vezes projetando estratégias conflitantes ou retrabalhadas) e restrita às lideranças que não dedicam o devido tempo para engajar e envolver o seu time – time esse que será essencial para viabilizar a estratégia na prática e que certamente possui as melhores hipóteses para testar, uma vez que é o time que está com a mão na massa no dia-a-dia da execução. 

Em suma, é a coordenação e colaboração entre pessoas e os times que abre espaço para a articulação, alinhamento, sinergia rápida e compartilhamento de insights.

4 – Só testa de verdade quem tem método e consistência até o final

3 erros sobre cultura de experimentação: achar que ela é sobre testar qualquer coisa de qualquer jeito; fazer um teste tão grande que vira projeto longo; ou testar sem medir ou querendo validar mais de 1 variável por vez. Esses erros, quando ocorrem na realidade, dão a falsa impressão de que essa mentalidade não funciona. A cultura de experimentação envolve: 

  • Direção para priorizar as hipóteses de acordo com critérios relevantes para o negócio
     
  • Adequação do esforço do teste de acordo com o nível de certeza e fidelidade na solução, começando rápido e barato e aumentando a fidelidade a cada iteração 
     
  • Definição de métricas de sucesso e boas condições de contorno, idealmente com o foco em uma variável para avaliar, pois com mais de 1 variável você não sabe o que deu certo e o que não deu certo no teste. Como esse assunto dá um pano pra manga, vou fazer o próximo artigo só disso

5 – Olhos atentos para as oportunidades inesperadas

Um dos benefícios desse olhar de descoberta da estratégia é a capacidade de aproveitar oportunidades inesperadas. As surpresas, sejam elas boas ou ruins, indicam uma mudança de trajetória ou um fato novo que vale explorar. 

Muitas vezes, as melhores ideias e oportunidades de negócios surgem de maneira imprevisível, e as empresas ágeis e abertas à descoberta estão mais bem posicionadas para capitalizá-las. 

Ao invés de ficarem presas a planos estratégicos engessados, essas empresas têm a liberdade e a agilidade necessárias para aproveitar oportunidades emergentes e responder rapidamente às mudanças do mercado.

De um jeito ou de outro, o que queremos em qualquer negócio é encontrar as hipóteses corretas que fundamentam uma estratégia de sucesso. Mas com esse mundo de mudanças cada vez mais rápidas, as hipóteses também podem mudar, o que faz com que a estratégia esteja sempre em beta.

Como colocar em prática?

Esse é um dos nossos principais temas de palestras e workshops para times que realmente querem desenhar estratégias que saem do papel. Se você precisa de uma ajuda com isso, dá um alô pra gente aqui!

Referências bibliográficas:

[1] Aula Strategy by Design, do Programa Executivo de Stanford The Emerging CMO (Advanced Marketing Management), cursado em agosto de 2022.

[2] Sull, Donald; Sull Charles; and Yoder, James. No One Knows Your Strategy — Not Even Your Top Leaders. Boston, MA: MIT Sloan Management Program, 2018.